Conto: Walter Possibom – Conto 7 – A História Causando História (Amor e Redenção)

Walter Possibom

A chuva caia pesadamente sobre a cidade, Will estava sentado a uma mesa ao lado da janela tomando o seu café, ele olhava aquela chuva caindo com um olhar melancólico, o tempo estava escuro, as luzes das ruas foram acesas, parecia noite em que pese estar no meio da tarde.


Seus gestos são feitos como em câmera lenta, a xícara leva um grande tempo até chegar aos seus lábios, ele então dá um gole e a retorna ao pires, também de forma lenta, seus olhos mantinham-se fixos.


Ele olha para essa cena e a compara à sua vida, ela era tão escura e melancólica quanto aquele dia, o café descia e o confortava de certa forma, os relâmpagos cortavam os ares e iluminava as ruas, poucas pessoas se aventuravam por ela, o vento era forte.


Ele contava cinqüenta e oito anos de vida, mal vividos, segundo ele, havia muita coisa que ele queria ter feito, mas não o fez.


Ele carregava o peso disso diariamente.

Muitas vezes ele se repreendia pelo fracasso, outras vezes ele ficava abalado por isso e chorava.


– Agora é tarde.

Pensava ele em voz alta para que ele mesmo pudesse ouvir.

Ele se refugiou em si mesmo, se tornou uma pessoa solitária, passava muito tempo em sua casa aos fins de semana, pensando em tudo o que podia ter feito e que não fez, em tudo o que podia ter vivido e não viveu, ele pensa nas emoções que poderia ter tido, mas agora era tarde para tudo isso, a vida já tinha passado para ele.


Ele morava num pequeno apartamento na periferia da cidade, o pouco dinheiro que ganhava era suficiente para bancar essa vida simples que levava, quase sem gastos além dos habituais e minimamente necessários, ele nunca viajava, ele nunca comprava roupas novas, exceto quando as antigas já não tinham mais condições de serem usadas, sempre comprava as mais baratas e apenas o que precisava e nada além.


A televisão que tinha em sua pequena sala quase nunca era ligada, quando ele a ligava ele não olhava para ela, e seus ouvidos estavam distantes demais para ouvir o que dela era dito.


Ele não tinha rádio, muito menos aparelho de som, as notícias do dia a dia eram por ele totalmente ignoradas, sabia de alguns fatos por ouvir as pessoas comentarem sobre isso enquanto ele subia ou descia pele elevador.


Seu círculo de amizades era restrito àqueles com os quais ele trabalhava, mas que de verdade nunca lhe deram atenção, eles diziam que ele era muito chato e antissocial, ele jamais participava de evento algum, ele ia almoçar em horário diferente dos demais colegas, só para poder comer sozinho, coisa, aliás, que era essencial para ele, caso alguém sentasse a sua frente na mesma mesa em que ele estava ele imediatamente se levantava e ia embora, mesmo que ainda não tivesse feito a sua refeição.


Ele jamais comia e conversava, no início de seus trabalhos nessa empresa isso foi um fator enorme de complicação, pois algumas pessoas não entendiam que ele queria ficar quieto e arrumaram confusão, só com o tempo é que as pessoas começaram a entendê-lo, e ele, para não ter mais problemas, passou a comer sozinho e em horário diferente dos demais.


No trabalho ele era um funcionário exemplar, nunca faltava, executava o seu trabalho de forma bastante precisa, se relacionava o mínimo possível com todos, mas todas as tarefas que lhe eram confiadas ele as desempenhava muito bem, por isso seu chefe lhe tinha muita consideração.


Invariavelmente ele ficava os finais de semana dentro de seu apartamento, normalmente lendo, a sua leitura preferida era sobre História em Geral, ele simplesmente devorava livros sobre o tema, e esse gosto era uma das poucas coisas que o fazia sair de casa quando estava de folga: quando ele terminava de ler um livro ele ia a alguma livraria em busca de mais livros sobre o tema.


Outra ocasião em que saia de casa era para fazer compras no supermercado, porém ele sempre fazia as compras na madrugada entre a sexta feira e o sábado, pois nesse horário o local estava vazio, assim ele não precisava ficar se esbarrando com ninguém nos corredores, e não havia fila no caixa, era tudo muito rápido e logo ele estava em casa, como no dia seguinte ele podia levantar a hora que ele quisesse Will não se preocupava em deitar tarde naquele dia.


Ele era solteiro, havia tentado algumas relações há muito tempo atrás, mas nenhuma delas prosperou, sempre por causa dele, Will tinha extrema dificuldade em se comunicar com as pessoas, ele simplesmente não conseguia expor com clareza as suas idéias, e algumas atitudes suas eram erroneamente interpretadas pelas pessoas, o que às vezes causava confusão, e no caso das garotas, isso causava o afastamento delas.


Will teve uma infância dura e de reclusão – ele estudou em um colégio interno de orientação religiosa – isso fez com que ele criasse o seu mundo como sendo um mundo de reclusão, e isso se refletiu em sua vida, ele achava que a vida devia ser uma vida de reclusão, pois ela lhe dava conforto e segurança, ele evitava sair desse mundo para não ter confrontações, assim ele não sentiria medo.


Ele passou grande parte de sua infância nesse colégio, dele saia apenas aos finais de ano para as comemorações das datas especiais de Natal e Ano Novo, o que para ele era um enorme sacrifício, ele não conseguia ver graça alguma nessas datas, ele sempre ganhava presentes que não lhe eram úteis, ele tinha que se relacionar com pessoas as quais ele nunca via e que o abraçavam por mera formalidade, e ele sabia bem disso.


Conforme ele foi saindo desse seu mundo de exclusão, uma hora isso foi necessário, ele passou a ficar perplexo por ter descoberto a falsidade e a superficialidade na relação entre as pessoas, ele não conseguia entender e muito menos aceitar isso, e este fato se soma a sua tendência ao isolamento para não se relacionar com as pessoas.


Ele passa a perceber o relacionamento das pessoas em seu ambiente de trabalho, e essas observações confirmam a sua tese sobre a superficialidade e interesse na relação, ali as pessoas se relacionam, em sua grande maioria, apenas por interesse circunstancial, e no exato momento em que essas pessoas se mudam, ou de setor ou de andar ou mesmo do endereço de trabalho, essas pessoas só voltarão a se falar caso elas se encontrem “ao acaso” em algum lugar, caso contrário elas nunca mais irão se falar ou se relacionar, mesmo que elas estejam separadas apenas por alguns metros, e mesmo que elas se digam serem muito amigas.


Isso o deixava muito irritado, ele não conhecia os detalhes da natureza humana.


Will sabe que é muito trabalhoso manter uma amizade, ela precisa ser “regada” todos os dias, ela exige paciência e persistência, muitas pessoas não estão interessadas nisso, ou porque ela faz amizades apenas pelas circunstâncias, sem aprofundamento algum, ou porque elas não têm a energia necessária para isso.


A maioria das pessoas prefere manter apenas as amizades antigas, feitas em tempos em que não havia interesses outros que não o do compartilhamento de relações e emoções e o descobrimento das coisas da vida.


No início, após sair da clausura, Will desejava ter o máximo de amizades possíveis, ele queria sempre ter novas amizades, e fazia de tudo para mantê-las, porém esse interesse era apenas dele, e com o tempo ele foi esmorecendo até que decidiu por voltar para si mesmo, então ele se fechou para o mundo.


Essa volta foi tão intensa que ele hoje estava absolutamente fechado nesse seu mundo, e ele estava disposto a manter-se nele até o fim de sua vida, mas isso lhe fazia muito mal, em seu íntimo não era isso que ele realmente queria, ele desejava ter amigos, poder sair com eles, se divertir, trocar emoções, se relacionar com as garotas, mas a vida estava passando e ele estava cada vez mais fechado em sua caixa.


Em determinados momentos ele pensa em romper com essa barreira e tentar mais uma vez a viver socialmente, mas em seguida ele desiste, a força necessária para romper essa amarra acaba se dissipando, e ele continua na mesma.


De repente a chuva cessa, ele já havia tomado o seu café, ele chama pelo garçom paga a conta e sai do Café, a rua estava toda molhada, o céu estava mais claro, as pessoas voltam a circular pelas calçadas, ele continua a sua marcha em direção à livraria, entra nela e vai direto para as prateleiras onde estavam os livros de história.

Ele passa os seus olhos por todos os livros que havia ali, não encontra nenhum livro novo, ele volta a olhar, não era possível que não havia livro novo algum, mas não havia mesmo, a segunda passada de olhos confirma isso.


Will fica parado, sua mente trava, e algumas perguntas voam nela:


– E agora?

– Acabaram os livros.

– Como vou fazer para passar o meu tempo?


Ele não tinha as respostas, então senta numa poltrona e fica ali pensando no que fazer, isso nunca tinha acontecido antes, ele sempre encontrava algum livro novo, mas desta vez não, ele não teria livro para ler, e isso era essencial para ele.


Ele não queria perguntar a algum atendente, mas podia ser que havia chegado algum livro que ainda não tinha sido colocado nas prateleiras, somente o atendente poderia certificar-se disso, então ele se levanta olha ao redor e encontra um atendente, ele vai até ele e lhe fala:


– Você tem algum livro de história que ainda não tenha colocado na prateleira?

O atendente lhe diz:


– Está procurando por algum livro específico?


Will não queria se estender na conversa, ele apenas queria saber se havia algum livro sobre história que não havia sido colocado na prateleira, e ele repete ao que havia dito antes, o atendente lhe responde com ar desanimado:


– Todos os livros que temos estão nas prateleiras.


Will olha fixo para o homem, depois de um tempo abaixa a cabeça e sai da livraria, ele pensa:


Como que uma livraria tão grande como esta não tem mais livros de histórias além daqueles que eu já li?


Will sai da livraria desnorteado, confuso, aquilo nunca tinha acontecido com ele, o céu dava mostras de que mais chuva viria e logo, mas ele simplesmente caminha sem destino, era sábado e ele podia ficar fora o tempo que quisesse.


De repente ele se recorda de uma livraria num shopping ali perto, imediatamente ele aperta os passos, a chuva volta com intensidade, ele se abriga debaixo de um toldo que havia numa lanchonete, ele avista a entrada do shopping, então decide dar uma corridinha até ele.


Imediatamente ele se dirige aonde ele se pensava que fica a livraria, e sua memória não o trai, assim que ele vira numa esquina ele dá de cara com a entrada da loja, ele abre um discreto sorriso e voa para dentro dela, vai olhando os indicativos dos temas das prateleiras até que encontra onde estavam os livros de história.


Ali ele começa a passar os olhos de cima a baixo dela em busca de um livro que ele ainda não tinha lido.


De repente, num movimento brusco dele para alcançar os livros que ficavam rente ao chão ele acaba batendo em alguém, o que faz com que alguns livros caiam no chão, ele se vira e vê que era uma mulher, que assustada se abaixa para pegar os livros, eles estavam nos braços dela, Will, totalmente perturbado pelo que fez a ela também se abaixa para ajudá-la, então eles se encaram, os rostos estavam muito próximos um do outro, Will vê que se tratava de uma linda mulher, os dois se encaram por um tempo quando ela vira o rosto para baixo a fim de pegar os livros, mas Will é mais rápido que ela e pega todos os que haviam caído.


Os dois voltam a se encarar, então Will entrega os livros para ela e diz:


– Me desculpe pelo incômodo, eu não a tinha visto.

A mulher dá um discreto sorriso, abaixa a cabeça, e responde:

– Não se preocupe.

E em seguida ela arremata:

– Ninguém nunca me vê.


Essas palavras causam um tremendo impacto em Will, ele sente uma amargura enorme vinda daquela linda mulher, então ela se vira e sai das vistas dele, Will fica parado pensando nela, de certa forma ela se parecia com ele, talvez ela tivesse uma vida semelhante à dele.


Will volta a olhar os livros e não encontra nenhum livro novo, isso o deixa muito aborrecido, contrariado, ele então decide sair para comer algo, estava com fome, assim pensaria no que fazer, mas assim que ele vai à saída do shopping ele constata que a chuva estava muito forte, o que o impossibilitava de sair.


Ele então vai para um canto da entrada do shopping, de repente, naquele canto, estava aquela mulher, ela carregava nos braços uma sacola da livraria, os dois se olham, sem que ele entendesse bem ele sorri para ela, a mulher responde ao sorriso dele com outro sorriso.


Will é atraído para perto dela, seu coração batia deforma muito acelerada, a situação era nova, ele não sabia o que estava acontecendo com ele, mas ele se aproxima dela e diz a ela:


– Vejo que você conseguiu o livro que estava procurando.

– Eu não tive a mesma sorte, não encontrei livro algum eu já não tenha lido.

Will se surpreende por estar falando com uma desconhecida, a mulher responde a ele:

– Na realidade eu estava procurando um livro que falasse sobre a Civilização Teutônica, eu não o encontrei, então comprei outro para que eu não ficasse sem livro.

Will tinha esse livro, ele fica em choque, ao mesmo tempo em que ele queria dizer a ela que ele tinha esse livro ele desejava sair dali esse antagonismo o deixava muito tenso, eles ficam se olhando, de repente a chuva cessa, a mulher olha para fora e diz a ele:

– A chuva passou agora eu posso ir embora.


Ela então se vira e caminha em direção a saída, Will olhava para ela, ele é tomado por uma forte sensação de desespero, então ele corre atrás ela, toca no ombro da mulher, ela se vira, assim que ela o vê abre um enorme sorriso, e Will diz a ela:


– Me desculpe, eu não sei o que aconteceu comigo, eu devia ter dito isso antes, mas eu tenho esse livro que você quer, ele está fora de catálogo você não irá encontrá-lo, e ele é um grande livro.


Os dois ficam se olhando, então Will continua:


– Se tiver tempo eu estava indo comer algo, eu estou com bastante fome, nós poderíamos comer algo e eu te falo sobre esse livro, o qual eu terei um enorme prazer em te emprestar.


A mulher abre um imenso sorriso e responde a ele:


– Eu tenho tempo sim, e eu também estou com fome, aceito o seu convite.

-Meu nome é Lindsey.

Aquelas duas almas sentem-se atraídas por algo que nem eles conseguem definir, essa atração era irresistível e tão forte que conseguia quebrar todas as barreiras que os impedissem de caminhar juntos, de se olharem sem medo, de se falarem sem dificuldade alguma.


Os dois caminham pelas ruas molhadas da cidade, conversavam como se já se fossem amigos de longa data, eles nem se dão conta disso, a conversa fluía solta, e daquele dia em diante os dois nunca mais deixaram de se falar nem um dia sequer, todos os finais de semanas eles saiam pelas livrarias da cidade para checarem os últimos lançamentos.


A vida para eles tomou um novo rumo, um novo conceito, ela se tornou algo muito interessante e com objetivo, uma luz se acendeu iluminado o caminho deles, mas era apenas uma luz para os dois.


De repente eles se encontram durante a semana a noite, ora na casa de um ora na casa do outro, para, juntos, lerem os livros de história que tanto os encantavam, a vida deles sofre uma mudança drástica, os amigos de trabalho de Will percebem essa mudança e comemoram.


O desejo de estarem juntos é tão forte e crescente que certo dia eles descobrem que estão apaixonados um pelo outro, e assim eles decidem que deveriam morar juntos, isso facilitaria tudo.


Depois daquele encontro no shopping a vida deles jamais foi a mesma.


Eles se casam, se tornam duas pessoas felizes, extrovertidas, tudo o que estava dentro deles, de repente, extravasa e contagia a todos que os envolvia, um era o porto seguro do outro, um era a felicidade do outro.


A vida de cada um deles se encaixa na do outro, eles se tornam um casal harmônico e feliz, o sorriso passa a se fixar no rosto deles, o hábito de leitura é reforçado e com isso eles decidem juntar dinheiro para conhecer os lugares em que passaram muitas das histórias que eles liam em seus livros.


Eles viveram juntos por muito tempo e foram felizes pelo resto de suas vidas.

Do Livro:
Contos e Descontos da Vida – Os Diversos Estados da Alma

Walter Possibom é médico, escritor, guitarrista da banda Delta Crucis – São Paulo – SP

 
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