Conto: Walter Possibom – Conto 6 – O passado e seus ecos no futuro (traição e suicídio)

Walter Possibom

Martin estava sentado à beira da cobertura do prédio no meio da cidade, oitenta andares o separavam do solo, a noite estava fria, uma fina garoa caia sobre a grande cidade, uma nevoa complementava a cena deixando tudo numa atmosfera sinistra e cheia de mistério, ele olhava para o horizonte, sua mente estava vazia, seu rosto era inexpressivo, de repente ele movimenta a cabeça como que estivesse acordado, então ele olha para baixo e dá um sorriso, a queda seria fatal, então ele respira fundo e volta a olhar a silhueta deformada dos prédios, ele ajeita o capuz e balança a cabeça em sinal negativo.


Ele volta a olhar para o chão e pensa:

– Seria fácil.

– Se eu me jogar vou acabar com todos os meus problemas.

– Será que dói?

– Apesar da velocidade com que eu cairia eu acho que o tempo passaria lento demais, eu acho que não seria tão rápido quanto eu desejaria.

Ele olha para o céu, solta uma pequena gargalhada e pensa:

– O que será que July pensaria disto?

– Ela ficaria triste ou alegre?

– Será que ela iria se importar?

– Eu acho que ela ficaria feliz, não teria mais a minha presença para incomodá-la.

Ele coça o nariz, sorri e pensa novamente:

– E quanto ao Barry?

– Ele iria ao meu enterro?

– Acho que não.

– Eu acho que de verdade ele nunca teve amizade comigo, era tudo ocasional.

Eram muitas questões, todas sem respostas.


De repente ele vê uma luz brilhante no topo de um dos edifícios, e aquela luz faz com que ele relembre um fato ocorrido ha dois anos:


Martin estava entrando no refeitório da empresa para fazer o seu almoço, como sempre ele pegou a bandeja e foi direto à fila, ele estava sempre de cabeça baixa, um costume seu de há muito tempo, mas naquele dia, não se sabe por que, ele manteve a cabeça alta, então, de repente, ele olha para o lado e vê uma garota entrar no refeitório, ela tinha um brilho em seus olhos o qual ele nunca tinha visto em outra garota, ela era linda, mas era desconhecida para ele, em que pese os seus doze anos na empresa ele não a conhecia.


Seus olhos não conseguiam desgrudar daquela garota, ele fica ali parado olhando para ela, e vê quando ela entra na fila atrás dele, o amigo de Martin, que estava logo atrás dele, o cutuca, pois, a fila tinha andado um bocado e ele continuava ali parado, Martin então fala com o amigo:


– Dê uma olhada no final da fila, dá uma olhada naquela garota loira.

– Quem é essa garota?

– Eu nunca a vi por aqui!

O amigo olha na direção do final da fila e responde:

– Eu nunca a vi por aqui, deve ser uma visitante ou alguma estagiária que começou hoje, sei lá.

Martin olhava fixamente para a garota, então ele diz ao amigo:

– Mas é claro que você vai saber quem é essa garota, certo?


O amigo dá uma risada e balança a cabeça negativamente, os dois seguem os passos da garota quando percebem que ela assenta numa mesa ao lado do Gerente de Marketing da empresa.

Martin fica pensativo:


– Será que ela é filha do gerente?

– Ou será que ela é alguém indicado por algum amigo do gerente?

– Uma visitante talvez.


Ele termina o almoço, mas ele estava realmente interessado na garota, ela o tinha impressionado muito pela beleza e graça com que andava além do rosto ser de uma beleza invulgar.


Ele espera que a garota termine o seu almoço, e assim que isso acontece ele fica de olho nela para saber para onde ela iria, e a segue discretamente, e constata que ela vai para o departamento de Marketing junto ao Diretor com quem almoçou, ele espera com que ela entre na sala do diretor então vai até a secretária do departamento, uma antiga amiga dele, e pergunta a ela:


– Quem é aquela garota que está na sala do diretor?

A amiga sorri e responde:

– Linda garota não é mesmo?

Os dois dão uma grande risada, e ela conclui:

– Ela é a nova analista de Marketing, dizem que ela é muito boa no que faz, veio a peso de ouro para cá.


Martin agradece a amiga e volta para o seu setor, ele era Chefe de Engenharia, tinha um bom cargo e um bom salário, era um rapaz inteligente, muito competente no que fazia, ele ganhou o cargo após alguns anos de serviço por merecimento próprio, ele era um belo rapaz, e por sua beleza física sofria alguns assédios das garotas na empresa o que o deixava bastante vaidoso.


Ele volta a sua sala e pensa em como irá se aproximar dela, afinal de contas ele estava muito interessado nela, e não deixaria de tentar algo com ela.

No dia seguinte Martin vai trabalhar pensando na garota, ele decididamente havia ficado impressionado com ela, ele estava encantado pela beleza dela, e, para sua sorte, os dois se cruzam no saguão de entrada do prédio da empresa, ele não perde tempo e logo se aproxima dela:


– Bom dia.

– Você é nova aqui?

– Eu nuca tinha visto você por aqui.

Martin era assim mesmo: quando queria algo partia com tudo para cima, nada o impedia disso, as garotas que o digam.

A garota olha para ele surpresa, abre um discreto sorriso e responde:

– Sim, comecei ontem.

Martin, sorrindo para ela, diz:

– Seja muito bem-vinda a empresa.

– Vai gostar daqui, é uma ótima empresa.


E tenta estender a conversa, mesmo sabendo de algumas respostas:

– Em que área você irá trabalhar?

A garota aumenta o sorriso e diz:

– Irei trabalhar na área de marketing.


O elevador chega, os dois entram nele, ela desceria antes dele, o carro enche de pessoas e a conversa entre eles fica mais difícil, porém assim que chegam ao andar onde ela trabalhava, e antes que ela saia, ele a cumprimenta e os dois se despedem, Martin continua, mas agora com outro sorriso nos lábios.


Os dias vão passando e ele passa a estudar os hábitos dela, então ele passa a mudar os seus próprios hábitos e horários para que eles se encontrem mais vezes, e assim eles vão desenvolvendo uma “amizade”.


Esses encontros tornam-se cada vez mais habituais, e chega o dia em que os dois passam a comer juntos, naquele dia eles conversam bastante, se divertem, e esses encontros passam a ser rotineiros, a eles se junta Barry, o melhor amigo de Martin, e os três passam a ser vistos constantemente.


Chega o dia em que Martin convida July para uma festa de aniversário de um amigo de trabalho, mas ela recusa o convite, diz que já tinha um compromisso com outra pessoa, isso deixa Martin decepcionado, ele pensa:


– Como assim tem outro compromisso?

– E com outra pessoa?

Ele fica preocupado com isso, pelo tom da resposta dela ele acha que pode haver alguém que estivesse “atravessando” o caminho dos dois, então ele vai falar com Barry, ele trabalhava no mesmo andar que July, ele poderia ajudá-lo a descobrir com quem ela estava saindo.


O amigo diz que fará o possível para descobrir, e conforme os dias vão passando July vai modificando os seus horários, e assim ela e Martin passam a se ver pouco, isso faz com que ele fique muito ansioso, ele estava apaixonado por ela, aliás, como ele dizia:


– Ela era a maior paixão de sua vida.


Ele havia descoberto nela a mulher de seus sonhos, ela era inteligente, linda, charmosa, atenciosa, enfim, tudo o que ele desejava numa mulher.


A sua vida começa a sofrer mudanças com isso, ele fica mais tempo “voando” pensando nela, a sua atenção no trabalho diminui, em casa ele fica mais tempo melancólico sentado na poltrona pensando nela, até o dia que ele decide que irá se declarar para ela, já fazia mais de uma semana que eles não se viam, então ele decide definir isso, embora estivesse com muito medo disso, ele não estava pronto para uma recusa dela.


Naquele dia ele resolve sair mais cedo para o almoço, desde com o elevador até o térreo e espera pela chegada de July, de repente ela sai pela porta do elevador, naquele dia ela saiu bem cedo para almoçar, por isso que eles não se encontraram mais, ela estava muito feliz e o sorriso era bastante intenso, em seguida sai Barry, os dois ficam um ao lado do outro e assim caminham em direção ao restaurante.


Martin acha tudo muito estranho, mas se põe a seguir os dois, caminha atrás deles numa distância segura para que não fosse visto por eles, ele vê quando os dois entram no restaurante, ele então se aproxima da porta de entrada, procura pelos dois até que consegue vê-los na fila dos balcões com os alimentos e tem um enorme choque: os dois estavam se beijando calorosamente e de mãos dadas!

Eles estavam namorando!


July e seu melhor amigo estavam namorando!


Martin havia dito ao amigo, no início, que desejava namorar ela, e contou com o amigo para ajudá-lo nessa missão, agora ele vê os dois juntos, ele fica sem saber o que fazer, ele fica paralisado, olhava para os dois que se mostravam muito felizes, e não sabe o que fazer, ele fica ali na porta parado, seu coração emudece, seu corpo fica pesado, sua respiração fica abafada, sua mente tenta se desligar.


Martin tem ali a maior decepção de sua vida, ele jamais esperava que isso fosse acontecer, e que o seu melhor amigo fosse fazer isso com ele, a tristeza e a decepção que sente eram enormes, uma lágrima se aponta num de seus olhos, ele a enxuga, o tempo passa e ele não conseguia se mover, até que o casal termina a sua refeição e quando eles estão saindo do refeitório eles o vêem.


Os três se entreolham, o silêncio era total, Martin então dá um leve sorriso, balança a cabeça em sinal negativo, então se vira e sai correndo dali rapidamente, ele ainda ouve a voz do amigo chamando-o, mas ele não se importa com isso, sua mente estava um caos, seu coração estava numa velocidade descomunal.


Ele corre muito, e só para quando as suas forças se esgotam, ele então entra num pequeno shopping, e senta no primeiro banco que vê e ali ele tenta respirar e relaxar, ele estava a ponto de ter um ataque de nervos.


Por sua mente passam os acontecimentos desde que conheceu July, e por último o desfecho onde ele foi traído pelo amigo, ela havia preferido o amigo a ele, isso era inacreditável para ele, tudo era muito difícil de ser aceito como normal, ele estava completamente apaixonado por ela, e ficar sem ela seria demais.


O dia vai passando, a noite chega, o pequeno shopping estava a ponto de fechar as suas portas, ele então sai, a noite estava fria, uma leve garoa se fazia presente, ele pega o seu celular e vê que já era quase meia noite, ele vê que havia incontáveis chamados de Barry, ele simplesmente limpa todos eles de seu celular, não ouve os recados de voz que ele havia lhe deixado.


Mas não havia nenhum chamado de July, ela realmente não havia se encantado por ele, e não era essa a leitura que ele havia feito dos seus “encontros” com ela, a decepção fia ainda maior por saber que ela não tinha interesse algum nele.


Ele estava parado na rua então decide voltar para o prédio onde ficava a sua empresa, como chefe ele tinha acesso ilimitado ao prédio, ele não tinha vontade de voltar para sua casa, ele acessa o prédio da empresa, vai até o seu escritório, senta em sua cadeira e fia ali olhando para o vazio.


De repente ele se levanta da cadeira, pega o elevador e vai até o topo do edifício, ali ele vai até a beirada dele e olha para baixo, ele realmente não sabia o que estava fazendo ali, mas se lembra de quando era adolescente ele havia subido num prédio próximo de onde morava por várias vezes quando ele queria fugir dos espancamentos que sofria de seu pai.


A sua adolescência foi muito difícil, ele odiava o seu pai, ele tentou fugir de casa várias vezes, e em todas ele foi pego por seu pai, e em todas ele foi espancado, ele levanta a manga da camisa e olha para o seu braço esquerdo, havia uma pequena deformação nele, aquele era um dos vários sinais das fraturas que ele sofreu quando era espancado por seu pai.


À sua mente volta a imagem de sua mãe, ele se recorda do sangue que sempre manchava o rosto dela após o seu pai bater nela, Martin cerra os punhos de ódio, ele se recorda dos inúmeros tratamentos psicológicos que fez para tentar se livrar da ansiedade e da depressão que o acometera por várias vezes em decorrência da vida que levava junto de seu pai.


Naquele momento toda a ansiedade que sentiu em sua vida parece lhe tomar forma em sua mente, ele então senta na beirada do edifício, ele estava só, como sempre estivera, e novamente decepcionado.


De repente aquela luz brilhante no topo de um dos edifícios que havia lhe trazido a lembrança dos últimos acontecimentos de sua vida se apaga, e ele volta ao presente, ele olha para o céu e diz:


– Pois é pai, você me deixou com muitos defeitos, eu acho que não consegui corrigi-los.


De repente ele começa a chorar a imagem de sua mãe lhe volta à mente, então ele diz:

– Me perdoe mãe por eu não ter conseguido te proteger da brutalidade de meu pai, eu era mais fraco que ele e eu sempre estava com muito medo, me perdoe por tê-la visto sofrer e não ter feito nada contra isso.


– Eu estou cansado desta vida.


– Eu estou cansado de viver o fracasso, de não conseguir alguém que fique ao meu lado e me ajude a superar os meus medos e as minhas imperfeições.


– A July não tem culpa, assim como Barry, na realidade o problema não está nos outros, ele está em mim, em minha imperfeição e em meus medos.


– Eu tentei inúmeros relacionamentos, em nenhum eu consegui sucesso, então eu desisto, desisto de ser feliz, desisto de ter alguém ao meu lado e desisto de minha vida.


Ato contínuo ele se lança no espaço e vai ao encontro de sua mãe.

Do Livro:
Contos e Descontos da Vida – Os Diversos Estados da Alma

Walter Possibom é médico, escritor, guitarrista da banda Delta Crucis – São Paulo – SP

 
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