Conto: Walter Possibom – Conto 5 – Billy (Desencarne)

Walter Possibom

Billy andava pela rua com sua mochila e com a cabeça baixa, ele passava pelo meio de muitas pessoas que nem se apercebiam da presença daquele garoto franzino, de cabelos aloirados, em que pese o grande movimento ele continuava a sua marcha reta sem parar.


Ele aparentava ter doze anos de idade, andava sozinho pela rua, a tarde estava indo embora, o Sol já estava se escondendo atrás das silhuetas dos edifícios da cidade, mas Billy não parava de andar, caminhava em direção para onde o Sol se punha, os restos de raios solares incidiam em seu rosto, mas sua alma parecia fria.


O Sol se esconde finalmente, a escuridão chega à cidade, as luzes nos postes são acesas, com isso forma-se aquele clima surreal que se cria entre o por do Sol e a noite, nesse momento parece que Billy fica confuso, ele olha para o céu e não vê mais o Sol, seu rosto fica pálido, seus olhos castanhos buscavam a luz do Sol sem sucesso, nesse momento ele para no meio da calçada, e fica olhando para o vazio do horizonte à sua frente.


De repente o barulho dos carros faz com que ele seja “despertado” dessa letargia e ele volta a caminhar, chega até próximo a um ponto de ônibus onde havia um banco, ele senta nele, olha para frente e dá uma enorme inspirada, a seguir pega sua mochila e busca por algo, de repente ele encontra uma barra de chocolate que estava parcialmente consumida, ele abre a embalagem dela e dá uma mordida no doce, mastiga com muita calma, ele olha para cima e vê as estrelas cintilarem, ele então volta a embrulhar o chocolate e o coloca de volta em sua mochila.


Ele olha para os lados, respira fundo se coloca em pé novamente, vai até a beira da calçada e fica olhando o tráfego intenso, tanto de carros como de gente, as pessoas estavam voltando do trabalho para suas casas, de repente sua atenção é chamada para algo na calçada do outro lado: era uma linda garotinha de cabelos loiros e olhos azuis parada, ela olhava para ele, os dois ficam se olhando por um bom tempo.


Ele sentia-se maravilhosamente bem pela presença da garota, ela lhe irradiava alguma espécie de energia que o fazia se sentir muito bem, fazia tempo que ele não se sentia tão bem, ele se recorda de algumas dores que tinha pelo corpo que lhe dificultavam inclusive de respirar, mas diante daquela lida garotinha tudo isso deixava de existir, e em seu lugar vinha uma sensação de leveza e felicidade ímpares, além do que o seu coração batia de forma diferente como que lhe querendo dizer algo.


Ele estava com um forte desejo de se encontrar com ela, ele sente uma inesperada vontade, quase um desejo compulsivo, de abraçá-la, mas de repente um ônibus passa entre eles impedindo que continuassem a se olhar, assim que o ônibus passa aquela garotinha já não estava mais lá.


Billy fica consternado com isso, sente uma enorme tristeza por não vê-la mais, mas respira fundo se vira em direção para onde o Sol tinha ido se esconder e volta a caminhar para essa direção, de cabeça baixa.


A noite se aprofunda, Billy começa a sentir cansaço, ele chega a uma grande praça, ali havia vários camelôs com suas barracas, as pessoas passavam nervosas caminhando de um lado para o outro, elas não olhavam para os lados apenas para frente, o garoto decide descansar um pouco, ele senta em um banco e fica olhando o movimento, seu rosto era de absoluta inexpressividade, parecia que ele não tinha emoção alguma, seus olhos se fixavam em pontos e ali ficavam por vários minutos.

De repente ele se vê transportado para outro lugar, parecia que estava sonhando, o local era estranho, as ruas eram diferentes daquelas que ele conhecia, e por ela passavam pessoas muito velhas, não havia carros nas ruas, apenas as pessoas velhas nas calçadas, elas passavam por ele e também não notavam a presença dele, Billy sentia-se indiferente a maioria dessas pessoas.


Porém, no meio dessas pessoas Billy consegue identificar algumas que ele sabe que conhece, mas não consegue se lembrar de onde, elas eram certamente conhecidas dele, ele tenta falar com elas, mas sua voz simplesmente não sai, parecia que algo havia em sua garganta que o impedia de falar, então ele fica olhando diretamente para essas pessoas na esperança de que elas o reconheçam.

Em vão, elas passam por ele sem sequer notarem a sua presença.


De repente ele volta a se sentir diferente, aquela sensação de bem-estar volta, ele então olha para a calçada contrária de onde ele estava, e vê aquela linda garotinha de olhos azuis caminhando pela calçada, ela olhava para ele com um lindo e angelical sorriso.


Os dois se olhavam fixamente, Billy tenta sorrir, mas algo impedia isso, parecia que ele estava com uma espécie de paralisia, conforme a garota vai se aproximando de Billy ele vai sentindo um impulso crescente e irresistível que o impele a atravessar a rua e se abraçar a ela, mas ele fica indeciso, repentinamente ele sente um enorme medo, ele fica confuso sem saber direito o que estava acontecendo.


Em dado momento Billy tem certeza de que a conhece, sente algo muito forte em seu peito, seu coração eleva os batimentos, sua respiração fica muito rápida, ele começa a sentir-se mal com isso, seu corpo todo sente essas mudanças, mas logo ele sente algo percorrer o seu corpo fazendo com que tudo se acalme.


A garota continuava a sua marcha, até que some das vistas de Billy, ele fica olhando para onde a garota foi, e tenta se lembrar de onde a conhecia, mas de repente ele é “acordado” pela conversa alta entre dois moradores de rua que passavam diante dele na praça.


A noite atinge o seu ápice, ele se deita naquele banco, já não havia mais ambulante e nem pessoas naquela praça, as ruas estavam vazias, o céu estava cheio de nuvens carregadas, a Lua ainda era visível, um vento começa a soprar, algumas luzes haviam se apagado, a praça fica escura, mas Billy não sente medo.


De repente ele ouve um ruído, ele então levanta a cabeça e vê que havia um cão ao seu lado, ele era todo branco, Billy sorri para o cão, ele já o conhecia, sempre que ele dormia esse cão vinha lhe fazer companhia, assim ele dorme profundamente.

A noite passa, Billy acorda com um ruído, ele olha para o lado e vê uma bola, o Sol já estava iluminando tudo, ele levanta a cabeça e vê um garoto, ele estava em pé diante dele olhando-o fixamente, ele deve ser o dono da bola, pensou Billy, os dois se olham, então Billy se levanta e chuta a bola delicadamente até onde estava o garoto.


O garoto a chuta de volta para ele, então Billy fica jogando bola com o garoto, eles se divertem muito com isso, de repente Billy olha para o garoto e tem a impressão de que o conhece de algum lugar, então ele para, fica olhando fixamente para o rosto do garoto na tentativa de se lembrar de onde o conhecia, o garoto olhava para ele com um largo sorriso no rosto.


Os dois ficam ali naquela pose por bastante tempo, Billy olhava para o garoto e tinha a impressão de que o rosto do jovem sofria mudanças, ele se transformava num outro rosto que se parecia ao de um primo seu já falecido, ele se recorda de que os dois viveram a infância toda juntos e a principal distração dos dois era jogar futebol, isso lhe causa um conforto enorme em seu coração ao mesmo tempo em que lhe desperta a saudade do primo tão querido.


De repente o garoto bate as mãos chamando a atenção de Billy, ele olha para o garoto que, sorrindo, lhe faz gestos para que jogue a bola novamente para ele, Billy olha para baixo e vê a bola ao lado de seu pé direito, ele então olha de volta para o garoto e chuta, delicadamente, a bola em direção a ele.


A bola acaba indo parar atrás de uns arbustos, o garoto dá uma grande gargalhada e vai atrás da bola, Billy fica aguardando a volta dele, ele começava a ter mais imagens e lembranças daquele garoto, mas ele não voltava com a bola, então depois de um bom tempo Billy vai atrás dele e, para seu espanto, o garoto não estava atrás dos arbustos, ele havia sumido de suas vistas, Billy busca por ele em vários cantos e não o encontra.


De repente se inicia um grande fluxo de pessoas na praça, o que faz com que Billy desista de ir atrás do amigo, ele volta ao banco da praça pega sua mochila, caminha um pouco, estava com fome, de repente é abordado por uma bondosa senhora que lhe oferece um saquinho com pipocas, ele aceita e antes que pudesse agradecer aquela senhora vai embora, o dia estava apenas começando e Billy já tinha passado por várias situações estranhas.


Billy caminhava como sempre em direção para onde o Sol se punha, caminhava com calma, olhava fixamente para frente, de repente ele começa a sentir algo estranho, era algo que ele não conseguia definir bem o que era, mas que lhe trazia certo mal-estar.


Ele decide parar um pouco, estava com um pouco de fome, acha que pode ser isso, ele interrompe a marcha, senta na calçada, pega sua mochila e não encontra o seu chocolate, a sua mochila estava vazia, estranhamente vazia, não havia nada dentro dela.


Ele fica sem entender o que tinha acontecido com as suas coisas, ele volta a revirar todos os espaços dela, mas ela estava vazia, então Billy decide deixá-la ali mesmo, seguiria sua caminhada sem a mochila, conforme ele caminha as coisas se modificam, ele percebe que as sensações ruins o deixam, a fome também desaparece, e com isso aquele mal-estar some.


Billy estava saindo do perímetro da cidade, dali em diante ele seguiria por uma autoestrada grande, ao lado dela havia uma vegetação rasteira a qual se podia ver até onde as vistas pudessem enxergar, em alguns pontos podia-se ver algumas árvores, mas nenhuma casa havia por ali.


Ele continua sua caminhada, o Sol estava quase beirando a linha do horizonte, de repente ele chega até uma pequena casa à beira da estrada, ela era toda branca com um telhado vermelho, na parede que ficava de frente a estrada havia uma grande vidraça, ele se aproxima lentamente dela para olhar por ela.


Billy estava parado diante da vidraça, ele olha diretamente para o espaço que parecia um quarto, nele havia uma cama de hospital e sobre essa cama havia uma pessoa deitada e coberta por um lençol branco, o rosto dessa pessoa estava virado para o lado oposto, então Billy não podia ver de quem se tratava.


Dessa pessoa saiam vários tubos, de sua boca saia um tubo grande e outros menores da região próxima ao pescoço e de seu braço esquerdo, além de alguns mais finos que vinham por debaixo do lençol, todos eles iam para aparelhos que ficavam ao lado e por sobre a cama, a imagem era assustadora, e Billy sente-se muito mal com essa visão.


O silêncio que se fazia nesse local era terrível, não se ouvia ruído algum, não se ouvia o som de nenhum pássaro, ou de algum inseto, Billy estava muito assustado e com medo, ele decide entrar naquele quarto e identificar de quem se tratava, ele então procura por alguma entrada.


Do lado contrário à da vidraça ele encontra uma porta, ele corre para abri-la, mas ela estava trancada, e por mais força que ele fizesse a porta não cedia nenhum milímetro sequer.


Ele olha para todas as paredes, não havia outra entrada, não havia outra janela, e não havia campainha, ele volta àquela porta e tenta forçar novamente a abertura dela, mas ele era apenas um garoto, e naquele momento ele sentia muita fraqueza, e não consegue mover a porta, então ele decide voltar à vidraça, talvez ele pudesse quebrar a vidraça e entrar por ela, o impulso de entrar naquele quarto estava insuportável.


Quando Billy volta à vidraça ele leva um enorme susto: a pessoa havia se movido e seu rosto estava voltado para a janela, agora ele podia ver a pessoa.


Billy olha para a pessoa, ele reconhece que era um homem idoso, havia rugas em seu rosto, e em sua mente vem a idéia de que ele o conhece e muito bem, tanto que o mal-estar que tinha se intensifica, seu corpo começa a doer muito por todas as partes, sua respiração fica sufocante, seu coração começa a bater de forma irregular, ele tem a sensação de que irá desmaiar.


Em seguida ele é tomado por uma imensa melancolia, pela sensação da ausência de uma pessoa, era tudo muito estranho, ele não conseguia entender o que estava acontecendo, algumas lágrimas começam a escorrer de seus olhos, ele então abaixa a cabeça e começa a chorar.


De repente ele tem a sua atenção chamada para um ruído às suas costas, ele rapidamente se vira e dá de cara com aquela garota loira de olhos azuis, ela estava sorrindo para ele, Billy fica paralisado ela então ser aproxima dele e lhe faz várias carícias em seu rosto, isso lhe traz um enorme alívio nos terríveis sintomas que estava tendo, a garota então lhe dá um beijo em seus lábios.


Billy sente um grande choque, seu corpo todo estremece, seu coração é invadido subitamente por uma onda intensa de amor por aquela garota, era tudo incrível e inexplicável, então Billy a abraça, os dois ficam abraçados por um bom tempo, a garota então se afasta um pouco dele, faz mais carícias no rosto dele e lhe diz:


– Agora está tudo bem.

– Eu voltei, estamos juntos novamente.

– Eu vim te buscar.


Billy é tomado por uma imensa sensação de paz a qual ele nunca tinha sentido em toda sua vida, a garota pega em sua mão e o conduz de volta à estrada, ele se vira para a janela e vê que a pessoa que estava deitada naquela cama já não estava mais ali, ele olha para ela e ela responde com um sorriso.


Os dois caminham pela estrada deserta, a noite chega célere, as estrelas e a Lua brilhavam como nunca iluminando tudo a frente deles, de repente Billy percebe que ambos estavam envelhecendo, era tudo muito rápido, então ele reconhece a garota: ela era a paixão de sua vida que se havia ido cedo demais há muito tempo atrás, deixando Billy sozinho nesta jornada.


Ele sorri para ela, os dois apertam mais ainda as mãos, de repente uma escada aparece no meio da estrada, essa escada ia em direção ao céu até onde a visão podia enxergar, eles param diante dela, a garota se vira para ele e diz:


– Eu irei com você, não precisa ter medo.


– Jamais nos separaremos novamente.

Do Livro:
Contos e Descontos da Vida – Os Diversos Estados da Alma

Walter Possibom é médico, escritor, guitarrista da banda Delta Crucis – São Paulo – SP

 
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