Conto: Walter Possibom – Conto 4 – Os Cristais (Resiliência)

Walter Possibom

Era o dia nove de novembro, a noite estava se aproximando de seu apogeu, Elija estava diante da janela da sala de seu apartamento, olhava a chuva densa que caia impiedosamente na cidade, em seu rosto a contemplação da natureza não conseguia esconder certa apreensão e tensão.

 

Seu olhar era distante, sua mente volta a muitos anos atrás, de repente ele olha para seu antebraço esquerdo onde havia alguns números tatuados nele, seu rosto muda de expressão, ele fica mais grave, com a mão direita ele esfrega aquela parte como que desejando apagar aquela marca, então sua mente é invadida por lembranças ruins, sua expressão muda mais ainda, parecia estar em pânico, então olha para todos os lados como se estivesse ouvindo coisas, de repente ele respira fundo e tudo volta a ficar mais calmo.

 

Ele nasceu num bairro periférico de Berlin no dia dezoito de junho de mil novecentos e trinta, seu pai era um comerciante próspero, ele e sua mãe tinham conseguido sucesso com a loja de calçados, e viviam numa situação financeira confortável, fruto do intenso trabalho e dedicação ao negócio.

 

Ele se recorda perfeitamente da noite de nove de novembro de mil novecentos e trinta e oito, ele testemunhou as agressões, prisões e destruição do patrimônio de várias lojas e casas de judeus, promovidas pelos membros do Partido Nazista junto de membros da SA e da Juventude Hitlerista.

 

A população alemã não-judia assistia a tudo passivamente, os judeus foram duramente castigados, foram arrancados de suas casas, os homens e mulheres foram levados à prisão, as crianças e adolescentes ficaram abandonadas em suas casas a espera dos pais.

 

Naquele dia tudo era incompreensível para o jovem Elija.

 

Ele se recorda de que algumas semanas antes desse acontecimento seu pai comentou que eles iriam se mudar de Berlin, talvez até eles saíssem da Alemanha, o jovem Elija não entendia por que disso, pois sua vida era muito boa, todos os seus amigos moravam perto, sua mãe estava próxima de sua família assim como o seu pai.

 

Porque tinham que se mudar? O que estava acontecendo que os obrigasse a essa mudança tão radical?

 

Ele percebia que o seu pai, nos últimos meses, andava bastante preocupado, assim como a sua mãe, mas ele não conseguia entender por que disso, pois a loja continuava vendendo muito bem, ou seja, os negócios e a vida estavam indo muito bem.

O que mais poderia deixá-los preocupados? Mas depois daquela noite sua vida mudou muito.

 

A madrugada inteira transcorreu com muita violência por todos os cantos, o céu estava iluminado de vermelho e laranja pelo fogo de várias lojas e casas, a família de Elija estava trancada dentro de se apartamento que ficava em cima da loja de sapatos, seu pai estava muito nervoso, eles ouviram quando a loja teve sua porta arrancada e os vidros quebrados pelos manifestantes e a algazarra que se seguiu a isso tudo, eles ouviam com muita nitidez o ruído dos vidros das demais lojas sendo quebrados, Elija se recorda de um momento em que ele se aproximou da varanda de sua casa e viu a rua toda coberta por cacos de vidro que brilhavam como estrelas no céu, ele tem certeza de que ali estavam também as estrelas que compunham as vidraças da loja de sapatos de seu pai.

 

A noite toda foi de violência, mas conforme a madrugada vai se indo e o dia vem se aproximando a barbárie vai se deslocando para outras partes da cidade, e nesse momento seu pai desce, ele ordena que a esposa e Elija fiquem no apartamento, era mais seguro.

 

Após quase trinta minutos sua mãe estava muito preocupada com o seu pai, e ela, junto ao pequeno Elija, resolvem descer, e ficam perturbados com o quadro de destruição da loja, Elija vê o seu pai no meio dela sentado num pedaço de uma cadeira com os olhos vermelhos de tanto chorar a perda do negócio com que lutou tanto para conseguir erguer, sua mãe se junta ao marido e eles se abraçam.

 

Elija caminha com os olhos arregalados por toda a loja, ele não conseguia entender porque tinham feito aquilo, ele não encontra um par sequer de sapato, a loja foi totalmente saqueada, o negócio de seu pai foi destruído.

 

De repente eles ouvem mais confusão, então a loja é tomada por membros do Partido Nazista e por membros das SA e da Juventude Hitlerista, usando de extrema violência eles pegam o seu pai e sua mãe e os empurram em direção à rua para se juntarem a outras pessoas que também estavam sendo feitas de prisioneiras, ele se recorda de sua mãe, antes de se juntar a essas pessoas, lhe dizer:

– Fique aqui em casa, tranque tudo, não fique com medo, logo nós estaremos de volta.

 

Ela recebe um tremendo empurrão de um guarda que a joga no chão, Elija corre em sua direção, mas leva um soco no rosto desse mesmo guarda que o joga ao solo, ele tenta se levantar, mas o golpe o deixa tonto, e quando ele se recobra ele não consegue mais ver os seus pais, havia muita gente sendo presa e eles se perderam no meio daquela confusão total.

 

Ele senta no meio da loja, completamente destruída, e chora como há muito ele não chorava, ele estava com muito medo, ele não sabia o que estava acontecendo.

O dia passa e os seus pais não voltam, ele teria que ter ido à escola, mas preferiu ficar em casa esperando por seus pais, ele sente fome, então vai à cozinha e pega um pedaço de pão e um copo de leite e com eles faz a sua refeição.

 

Mas o pensamento estava com seus pais, e ele se perguntava:

– Onde eles estão?

– Porque eles foram levados?

– O que eles fizeram de errado para que fossem levados?

 

A noite chega Elija simplesmente não consegue dormir, ele estava apavorado, ele fica sentado no chão com as pernas encolhidas, ele ainda podia ouvir alguns ruídos de coisas sendo quebradas ao longe, e isso lhe deixava muito nervoso,

O dia aparece e ele fica em dúvida quanto a ir para a escola ou esperar pelos pais, mas como ele foi ensinado que a escola era algo da maior importância ele decide ir a ela, ele pega todo o material escolar o coloca dentro de uma mochila e vai para a escola.

 

O caminho era só destruição, as lojas dos judeus foram todas destruídas, ele é reconhecido por alguns jovens e sofre algumas hostilizações por parte deles, ele não conseguia entender por que disso tudo, sua mente estava ficando muito confusa, mas tudo ficaria ainda mais confuso.

 

Quando ele chega à escola ele percebe que na entrada havia uma barreira, os alunos entravam um por vez, e tinham os seus nomes checados numa lista por um guarda, quando chega a vez dele ele recebe a informação de que ele havia sido expulso da escola e que podia voltar para casa.

 

Elija fica ainda mais confuso, ele fica de lado vendo os outros garotos entrarem, assim como alguns garotos serem, assim como ele, expulsos da escola, todos eram judeus, então depois de um tempo ele corre de volta para casa, e no meio do caminho ele é agredido por alguns jovens que moravam perto de sua casa, ele conhecia a todos aqueles garotos, outro dia eles brincavam juntos e agora ele estava sendo agredido por eles, tudo era incompreensível para o pequeno Elija.

 

Ele volta apavorado para sua casa ele sobe as escadas abre a porta e seus pais ainda não haviam voltado, ele não contava com isso, então ele entra em desespero.

Após quase quatro semanas sozinho e com fome, ele tinha consumido toda a comida que havia em casa, ele estava sentado no meio da loja de seu pai, ali ele se recordava dos momentos felizes que teve ao lado do pai, de repente ele ouve ruídos atrás dele, ele se vira, e vê sua mãe.

 

Ela estava muito diferente, mas ele a reconhece, e os dois se jogam nos braços um do outro, e deixam com que as lágrimas da saudade e da dor inundem os seus rostos, e naquele momento uma pequena luz se faz por sobre eles.

 

Após matarem um pouco a saudade ele pergunta a ela:

– E o papai?

Sua mãe muda a expressão de seu rosto a seguir ela responde:

– Papai irá demorar um pouco mais para voltar, nós dois teremos que continuar sem ele até que ele volte.

Daquele dia em diante os dois tentam se virar da melhor forma possível, a vida havia se tornado dura de uma noite para outra, ela tenta tirar o dinheiro que eles tinham juntado no banco, mas ela recebe do gerente a seguinte informação:

 

– A senhora vai me perdoar, saiba que esta não é uma decisão do banco, mas todo o dinheiro de vocês foi confiscado pelo governo, e sua conta foi encerrada.

– Eu lamento muito, mas eu não posso fazer nada pela senhora.

 

Ela fica sabendo que todo o patrimônio conseguido com trabalho e suor foi tomado pelo governo nazista, eles não tinham ais recurso algum, a loja estava destruída, não tinha mercadoria e com isso a fonte de renda deles tinha desaparecido, eles tinham que buscar por outros recursos.

 

Mas as coisas ficariam ainda mais estranhas quando em janeiro de mil novecentos e trinta e nove os dois foram presos quando estavam na rua vendendo algumas roupas de sua casa para conseguir comida.

 

Da rua eles foram colocados dentro de um caminhão e levados até uma estação ferroviária, ali havia muitas mulheres e crianças que chegavam sem parar através de caminhões parecido com aquele, Elija sem compreender o que estava acontecendo olhava para sua mãe em busca de alguma resposta, mas sua mãe olhava para todos os lados com um rosto que transparecia todo o pavor que estava sentindo naquele momento.

 

Eles junto a outras pessoas foram colocados dentro de um vagão de trem, a confusão era enorme, os apitos soavam por todos os lados, pessoas que se recusavam a subir nos vagões eram colocadas neles a força, Elija olhava aquilo tudo com pavor, às vezes ele esconde o rosto no corpo de sua mãe de tanto medo que estava sentindo.

 

O trem parte, a viagem é longa, estava frio e eles tinham pouco agasalho, dentro do vagão o ar era abafado, havia muita gente, sua mãe tentava proteger o pequeno Elija com o seu próprio corpo, mas às vezes isso era impossível devido as curvas que o próprio trem fazia causando movimentos de vai e vem em todos os que ali estavam em pé, não havia espaço para sentar.

 

Algumas pessoas simplesmente morriam em pé, outras choravam, outras gemiam, e isso tudo só aumentava o clima de medo e pavor de todos que estavam dentro do vagão, de repente, após mais de três dias de viagem, eles param, as portas são abertas, só então, quando todos começam a descer do vagão, é que se tem idéia de quantas pessoas morreram durante a viagem.

 

Assim que desce do vagão o jovem Elija consegue ver uma placa colocada num poste que dizia: Ravensbruck.

 

Sua mãe também tinha visto a placa, e dali eles entram em outro caminhão, a fome e a sede estavam atormentando a todos, por sorte durante a viagem choveu bastante, e a chuva amenizou um pouco a sede, mas a fome era intensa.

 

Assim que chegam a Ravensbruck eles são perfilados numa praça, que se chamava Appellplatz, em seguida eles são conduzidos a algumas salas onde são despidos e depilados por todo o corpo, recebem uniformes listrados e um número é tatuado no antebraço de todos, Elija também recebe o seu número, a seguir voltam à praça, ficam ali por um bom tempo em pé, imóveis, quando então cada um recebe um pedaço de pão e são levados aos alojamentos.

 

A vida de confinamento forçado tem início para o pequeno Elija e sua mãe, o jovem pensava muito no pai, assim como sua mãe, eles não conseguiram informação alguma sobre ele.

 

Após seis meses de confinamento os dois estavam bastante desnutridos, a alimentação era escassa, sua mãe era obrigada a trabalhos intensos, os prisioneiros tinham que se levantar às três horas da manhã para ficarem perfilados na Appellplatz a fim de se fazer a chamada e conferência de todos eles, nessa época a neve descia impiedosamente sobre todos, muitos morriam congelados em pé na Appellplatz enquanto se fazia a chamada.

 

Certo dia um alvoroço se faz após a chamada, vários caminhões são perfilados do lado de fora do campo, algumas mulheres são chamadas e são retiradas da fila na Appellplatz, a mãe de Elija e ele próprio são chamados, e todos que saíram da formação são colocados sobre os caminhões, e dali eles serão levados para outro campo chamado Dachau.

 

As informações davam conta de que nesse outro campo havia necessidade de mão de obra, que o trabalho era mais calmo, a alimentação era melhor, então não houve muito tumulto nessa caminhada.

 

Assim que chegam a Dachau os prisioneiros descem dos caminhões e se posicionam num campo amplo, vigiados pelos SS fortemente armados, Elija, em sua simplicidade e inocência, vê ao lado de uma construção, uma torre com chaminé, da qual saia uma fumaça espessa com forte odor, ele pensa que aquilo se referia a alguma fábrica, e pensa que era para essa fábrica que eles iriam trabalhar.

Após mais de duas horas de pé naquela situação crítica, um portão lateral se abre e dele saem três oficiais, um deles, o de mais alta patente, se destaca à frente e faz uma inspeção no grupo, a seguir as mulheres são separadas das crianças, então se formam dois grupos distintos.

 

A seguir do grupo de mulheres são escolhidas um primeiro lote de cem delas para, o que os soldados estavam se referindo, de banho, a fim de higienizar e retirar os piolhos delas, então elas caminham para uma entrada em direção para onde havia aquela chaminé, as demais permanecem em pé onde estavam.

 

Na segunda leva a mãe de Elija é levada, ele acompanha a mãe que olha para ele com os olhos úmidos e antes dela entrar na sala ela manda um beijo ao filho, ele sorri, sabe que logo eles se encontrarão na fábrica, era o que ele pensava.

 

Essa foi a última imagem que ele tem de sua mãe. Todas as mulheres haviam sido levadas do campo para essa construção, restaram apenas as crianças, então aquele oficial volta a checar o grupo quando, de repente, ele para diante de Elija, que se mostrava indiferente a presença daquele oficial, sua mente estava com sua mãe, mas o oficial o reconhece, ele era o Tenente Coronel Otto Dasstler, um grande amigo da família de Elija, o oficial, visivelmente perturbado em ver o jovem chama por um soldado e faz uma pergunta ao ouvido deste, e recebe a confirmação de que todas as mulheres já tinham sido gazeadas.

 

O oficial fica transtornado com a notícia, ele sabe que as mulheres gazeadas tinham seus filhos ali e que eles seriam os próximos, portanto a mãe de Elija tinha sido morta na câmara de gás, ele volta a olhar para o garoto e sente algo pesar em seu peito, ele fica parado por um tempo e chama outro oficial e lhe diz:

 

– Preciso de dois garotos para me ajudar em minhas tarefas pessoais, é melhor levar garotos do que adultos.

 

Ele então pergunta ao oficial que era o responsável pelo campo:

– Haverá algum problema se eu levar dois deles comigo?

O oficial do campo Theodor Eicke, que era amigo de Otto, responde a ele:

– Claro que não amigo, eles são todos seus, pode escolher, eu apenas irei notificar que eles foram gazeados e incinerados para que nós não tenhamos problemas com a Gestapo.

 

Em seguida Otto aponta para Elija e para outro garoto, os dois são retirados da formação que segue em direção ao destino fatal.

 

Os dois garotos são colocados numa sala onde esperam pelo transporte de Otto Dasstler que os levará de volta a um subcampo que era coordenado pelo próprio Otto.

 

Assim Elija é livrado da morte instante antes dele se confrontar com ela, e passa todos os anos até o final da Grande Guerra ao lado do amigo de sua família e salvador, com o decorrer do tempo Elija consegue entender tudo o que tinha acontecido, ele então compreende que ele não tinha mais os seus pais, ele levou quase um mês para se recuperar disso.

 

Ele fica sabendo, através de pesquisas feitas por Otto, de que seu pai foi levado para Dachau e logo em seguida para Auschwitz onde foi gazeado, ele estava sozinho, todos os seus parentes judeus foram mortos em campos de concentração.

 

O subcampo onde ele estava foi libertado pelos soldados americanos em maio de mil novecentos e quarenta e cinco, Otto foi feito prisioneiro, mas foi executado por vários judeus presos antes mesmo de ser levado a julgamento, Elija não pôde fazer nada pelo amigo que foi o seu salvador.

 

Elija retornou a Berlin, e ali ele reconstruiu a sua vida, foi adotado por uma família judia, voltou a estudar e se transformou num grande empresário no ramo de sapatos, ele construiu uma fábrica de sapatos, dando continuidade à saga e memória de seu pai como negociante de sapatos.

 

Em sua empresa ele deu oportunidade a vários jovens para que crescessem e se tornassem alguém na vida, todo o trauma pelo qual ele passou foi sendo substituído pela vontade em crescer e honrar a memória de seus pais, pois com a educação e exemplo que ele teve dos dois ele se tornou uma pessoa descente e honesta.

 

De repente ele volta a olhar pela chuva que caia em sua cidade, e subitamente ele é abraçado por sua esposa, ela estava grávida, os dois se abraçam e se beijam, e aquela noite que há muitos anos atrás foi de morte e desespero se transforma numa noite de alegria, amor e vida.

Do Livro:
Contos e Descontos da Vida – Os Diversos Estados da Alma

Walter Possibom é médico, escritor, guitarrista da banda Delta Crucis – São Paulo – SP

 
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