Conto: Walter Possibom – Conto 2 – A Mente e o Caos (Suicídio)

Walter Possibom

Elton era uma pessoa muito boa, tinha um grande coração, além de uma inteligência fora do comum, ele morava com um irmão mais velho e uma irmã mais nova junto ao seu pai e sua mãe, além de sua avó materna.

 

Era uma família que tinha todos os elementos para ser uma família unida, o seu pai trabalhava numa grande empresa de comunicações, tinha um cargo importante e um salário bem substancioso, portanto nada faltava a eles, mas isso tinha a sua contrapartida: ele quase não ficava em casa, ficava grande parte de seu tempo na empresa ou viajando para outras cidades.

 

Em decorrência disso o pequeno Elton acaba desenvolvendo uma dependência com sua mãe muito grande, ela passa a exercer a dupla função de pai e de mãe, por isso ele ficava o tempo todo ao lado dela, diferente de seu irmão mais velho e de sua irmã os quais tinham mais independência e acabam seguindo o exemplo do pai: viviam mais tempo fora de casa com os amigos do que dentro dela com sua mãe e com Elton.

 

Quando Elton completa dez anos de idade a sua mãe fica doente, a princípio ele não imagina o que se passava de verdade, para ele sua mãe tinha algo passageiro, para ele a sua mãe era indestrutível, ela era a sua heroína, e certamente nada aconteceria com ela.

 

Mas infelizmente não era a situação de sua mãe, ela foi diagnosticada com tendo um câncer em estadiamento bastante avançado, as terapêuticas seriam virtualmente inúteis, nem mesmo a cirurgia ajudaria, mas mesmo assim ela se submete a vários tratamentos, e com isso o seu corpo, que não consegue junto aos medicamentos conter o avanço da doença, vai se definhando, mas mesmo assim Elton ainda não aceitava que algo de ruim estava acontecendo com ela.

 

Porém a partir do momento que ela é internada, e que a degenerescência dela se torna mais acentuada e ela começa a ter dificuldades até para falar, Elton começa a ter a noção mais real do que estava realmente acontecendo.

 

No primeiro momento o jovem se recusa a ir visitar a mãe, ele ficava o dia todo em casa no seu quarto, isolado, não queria conversar com ninguém, seu pai passa a ficar mais tempo com eles, mas mesmo assim o jovem não se dispunha a conversar com ele, e permanecia em seu quarto.

 

Sua mãe recebe alta do hospital, eles não podiam fazer mais nada a ela, o pai de Elton monta uma verdadeira estrutura hospitalar no quarto deles para poder trazer o máximo de conforto a sua esposa, Elton via tudo aquilo de forma distante, não permitia que os outros vissem que ele estava acompanhando isso tudo, então numa noite, antes de sua mãe voltar para casa, ele vai até o quarto dela e vê aquela cama hospitalar e uma série de equipamentos, isso o deixa mais assustado ainda, ele volta correndo para o seu quarto se cobre com o cobertor coloca o travesseiro sobre sua cabeça e chora como nunca chorou em sua vida.

 

No dia seguinte sua mãe é trazida de volta para casa, mas o jovem se nega a vê-la, ele tinha emagrecido bastante, quase não comia, ficava o dia quase todo deitado em sua cama, mas naquele dia, pela madrugada, quando um silêncio enorme se fazia em sua casa, ele levanta e, com muito cuidado para não fazer ruído algum, ele caminha até o quarto onde a sua mãe estava.

 

Vagarosamente ele abre a porta do quarto dela e leva um enorme susto quando vê sua mãe deitada sobre aquela cama estranha, cheia de tubos por todos os lados, havia dois monitores acima dela formando uma espécie de gráfico, aquela visão deixa o jovem muito confuso, ele fica paralisado na entrada do quarto, seu pai dormia numa pequena cama ao lado de sua mãe.

 

De repente ele percebe que sua mãe parecia estar cochichando, mas como ela estava de costas para ele ela não havia percebido que ele estava ali, então ele se aproxima dela com muito cuidado e percebe então que sua mãe estava chorando e rezando.

 

Isso o deixa apavorado, ele se vira bruscamente, com isso ele bate no pequeno criado mudo que havia ao lado da cama e derruba duas caixas de medicamentos, com isso sua mãe se vira e o vê.

 

Elton tem a visão mais aterrorizadora do mundo: o rosto de sua mãe havia se transformado, ele estava praticamente transformado num esqueleto, o jovem entra em pânico total e começa a chorar convulsivamente, com isso seu pai acorda acende a luz e se aproxima do jovem que sai correndo em direção ao seu quarto, assim que chega nele ele se joga para debaixo da cama.

 

Seu pai chega ao quarto e tenta conversar com o jovem, mas ele estava transtornado com o que tinha visto ali, aquela mulher não parecia ser a sua mãe, parecia ser outra pessoa, ela estava muito transformada, não era possível que aquela era a sua tão amada e amorosa mãe.

 

Elton fica paralisado na entrada do quarto, seu pai vai até ele e tenta tirá-lo dali, mas ele não se movia, apenas olhava para a mãe e chorava copiosamente, então sua mãe lhe diz:

 

– Venha até mim meu filho, não tenha medo, venha até aqui.

 

A princípio Elton fica sem sabe o que fazer, parecia ter medo de se aproximar dela, ele estava com muito medo, mas ela era a sua mãe, ela era quem lhe dava segurança, então ele caminha lentamente até ela, assim que ele chega perto dela os dois se encaram, ela lhe dá um sorriso, com sua mão direita lhe faz algumas carícias em seu rosto e diz a ele:

 

– Sou eu meu filho, sua mãe.

 

– Eu estou um pouco fraca, não tenho conseguido me alimentar como deveria, por isso emagreci.

 

Elton tremia, de cima a baixo, ele olhava para ela com muito medo, ele temia que sua mãe fosse morrer, ela percebe isso, ela sorri para ele faz outro afago em seu rosto e diz:

 

– A vida é engraçada, às vezes, sem mais nem menos ela nos aproxima do final dos tempos, nem sempre entendemos isso, nem sempre aceitamos isso, mas Deus sabe o que deve ser feito.

 

– Lembre-se sempre disso: Deus sempre tem razão.

 

– Mesmo que nós não o compreendamos.

 

Elton compreende claramente o recado, ele sente uma grande pressão em seu peito, ele não queria que sua mãe fosse embora, mesmo que Deus tivesse razão.

 

Quatro dias depois sua mãe volta aos braços do Criador, ele recebe a notícia com indiferença, desde o dia em que a viu no leito de sua casa ele decidiu se “isolar”, essa era uma forma de se proteger.

 

Ele acompanhou o velório e o enterro sem derramar lágrima alguma, ficou o tempo todo ao lado do caixão olhando para sua mãe, assim que eles voltaram para casa depois de tudo consumado ele foi ao seu quarto colocou o travesseiro por sobre sua cabeça e chorou como nunca havia chorado em sua vida, a noite toda.

 

Elton nunca mais seria o mesmo daquele dia em diante.

 

Seu comportamento muda radicalmente, passa a ser um garoto recluso, introspectivo, isso lhe causa alterações no relacionamento na escola, seus antigos amigos já não mais o acompanhavam, ele passa a ter amizade com amigos que se assemelhavam a ele, e alguns deles vinham de famílias problemáticas, e quando ele completa doze anos de idade ele tem o primeiro contato com o álcool, isso foi quase que inevitável devido a essas companhias na escola.

 

Desse momento em diante, para ele ter acesso a drogas mais pesadas foi um pequeno pulo, e com quatorze anos Elton já usava heroína e cocaína.

 

Nesse tempo seu pai ganha uma promoção na empresa e passa a ficar muito mais tempo fora de casa devido ao trabalho, confiando a educação e o acompanhamento dos filhos à sogra, com isso Elton também passa a ficar mais tempo fora de casa com esses amigos, o que faz com que ele se aprofunde no consumo dessas substâncias.

 

Com a idade de dezesseis anos Elton começa a “ver” e a “ouvir” coisas com alguma freqüência, e quando isso acontecia o jovem era acometido por um pânico indescritível, certas noites ele ouvia e via tantas coisas que o obrigava a ir até o quarto de sua avó, ele então dormia junto a ela naquela noite.

 

Elton dizia aos amigos que sua cabeça era como um turbilhão de coisas, ele dizia que as vezes ele não conseguia raciocinar tamanha confusão que sua mente ficava, e que normalmente depois dessa confusão ele sentia uma dor e uma pressão enormes em seu peito, e que só a droga conseguia tirar isso dele.

 

Aos dezoito anos Elton ganha de seu pai um carro, isso deixa o jovem muito feliz, mas ele fica tão feliz que decide comemorar isso usando droga, então ele vai com seu carro até a periferia da cidade e compra sua droga, volta ao carro e dois quarteirões adiante ele abre o primeiro pacotinho e o absorve com muito prazer, decide abrir um segundo e faz o mesmo com ele.

 

Os efeitos da droga chegam com muita eficiência, sua mente é tomada por ela de forma total, e sob o efeito da droga ele decide sair dali, dá a partida no motor do carro e sai arrancando com tudo, ele se dirige a uma avenida principal, havia um grande movimento àquela hora, a velocidade do carro aumenta cada vez mais até que Elton comete um engano e entra na contramão da via, logo ele colide frontalmente contra um ônibus.

 

Elton passa, a partir daquele momento, a lutar por sua vida, ele é internado numa UTI em estado de coma, ele teve inúmeras fraturas pelo corpo todo, o trauma craniano foi severo, seu rosto foi desfigurado pelo vidro do pára-brisa partido na batida, e de resto o estado geral dele era bastante crítico.

 

Ele consegue se livrar do coma depois de quatro meses de internação, ele fica mais um mês na UTI e ai então ele vai para um quarto comum na enfermaria, e inicia o seu período de recuperação, que dura cerca de sessenta dias quando então ele finalmente recebe alta médica do hospital.

 

 Apesar do grave acidente em que ele se envolveu a sua mente não sofreu dano algum, ele volta disso tudo com os mesmos pensamentos, só que agora ele tinha algumas pequenas limitações em andar, devido a uma fratura no joelho, e pelas marcas em seu rosto pelos ferimentos causados pelo vidro.

 

Elton volta à sua vida convencional, ele finaliza o ensino médio, e não tem idéia sobre sua vida futura, ele não pensa em faculdade, assim como não pensa em trabalho, ele simplesmente não sabe o que fazer.

 

Certo dia Elton estava sentado à frente de sua casa quando um carro em baixa velocidade passa por eles, de dentro do carro podia-se ouvir uma música alta, ele a identifica: era a música Paranoid do Black Sabbath, o garoto que dirigia aquele carro já tinha passado em frente a casa dele algumas vezes, e naquele momento ele decide conversar com o garoto, ele faz um sinal a ele, o carro para, ele se aproxima e os dois começam a falar sobre Rock.

 

Elton tinha uma extensa coleção de discos de Rock, todos originais, e a conversa entre eles é muito fluida, e assim nasce uma grane amizade entre aqueles dois garotos que tinham gostos iguais, porém com vida e idéias completamente diferentes.

 

Os dois criam uma grande amizade desde aquele momento, Luigi freqüenta a casa de Elton quase todos os dias, os dois ficam no quarto de Elton ouvindo discos, e falando sobre a vida.

 

A vida seguia, mas Elton sentia-se cada vez mais incomodado com sua inatividade, ele agora não conseguia ficar quieto nem em seu quarto, que sempre foi o seu refúgio, seu pai consegue a ele uma vaga de DJ numa famosa casa noturna, já que ele se afeiçoava à música ali poderia ser um local interessante para ele, porém ele é expulso da casa quando certa noite se apresentou a ela totalmente drogado, ali acabou a curtíssima carreira de DJ de Elton.

 

Ele sentia-se cada vez mais inquieto, Luigi percebe isso e tenta acalmar o amigo, ele tenta lhe dar conselhos, mas a coisa saia cada vez mais de seu controle, as drogas estavam sendo consumidas cada vez com mais intensidade e freqüência, com isso os dois amigos passam a se ver menos, então Elton é levado, pelo pai, a uma casa de recuperação de drogados.

 

Elton fica uma semana nessa casa, ele não consegue ficar em espaços confinados, e foge dela, volta para sua casa e tenta retomar as suas atividades habituais, mas a imagem de sua mãe lhe volta à mente, com muita intensidade, ele passa as noites vagando de um lado para o outro de seu quarto pensando nisso, ele chega a passar mais de três noites sem dormir, quando então a estafa o pega e ele dorme por algumas horas, para depois a ansiedade o pegar de jeito novamente.

 

E assim ele ia caminhando, até que um dia ele acorda diferente, a ansiedade lhe vem ao peito de uma forma diferente, muito mais forte do que das outras vezes, e a saudade que sente de sua mãe se torna insuportável, ele então se ajoelha no chão e chora, as lágrimas de dor escorriam por sua face enquanto sua mente se desfazia, ele então decide que irá por um fim em todo esse sofrimento que parecia não ter fim, ele desce as escadas e vê que não havia ninguém em casa, isso o deixa ainda mais tenso, nem mesmo a sua avó estava lá.

 

Ele passa o dia inteiro esperando que alguém venha para ele poder jogar tudo isso para fora, mas ninguém chega, a tarde estava indo embora, então ele, de repente, muda a feição de seu rosto, parecia que ele havia desligado o seu cérebro, sua face fica sem expressão alguma, então ele sobe ao seu quarto, escolhe alguns discos a dedo, e sai de casa com eles debaixo dos braços.

 

Ele vai à casa dos principais amigos, por último ele vai à casa de Luigi, sobe até o quarto do amigo e lhe diz:

 

– Eu estou te trazendo este disco como um presente meu para você.

 

– Um presente de despedida.

 

– Eu não estou conseguindo mais lidar com as minhas emoções, elas tomaram conta de mim, então eu resolvi viajar, vou para outro lugar, vou tentar recomeçar tudo lá, aqui eu já não consigo mais fazer isso.

 

Naquele momento seus olhos se enchem de lágrimas, os de Luigi também, então Luigi lhe diz:

 

– Eu te entendo meu amigo, é uma pena tudo o que aconteceu com você, eu sinto muito por tudo isso e por não conseguir te ajudar em nada disso, eu vou sentir muito a sua falta, mas se você acha que isso será melhor para você entenda que terá todo o meu apoio.

 

Os dois se abraçam em silêncio, as lágrimas escorrem dos olhos dos dois, então Elton se afasta de Luigi e sem falarem mais nada eles se despedem.

 

Naquela noite Elton injeta uma quantidade letal de heroína em suas veias, e inicia a sua viagem ao desconhecido.

Do Livro:
Contos e Descontos da Vida – Os Diversos Estados da Alma

Walter Possibom é médico, escritor, guitarrista da banda Delta Crucis – São Paulo – SP

 
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