Conto: Walter Possibom – Conto 1 – Como Eu Sou Estranho (Depressão)

Walter Possibom

Como eu sou estranho!

 

Estou de folga hoje, não tenho nada para fazer, estou sozinho em casa.

 

 

Hoje é um dia bom para arrumar uma companhia, há anos eu estou sozinho, minha vida é trabalho e casa, às vezes vou a um cinema, mas logo após o filme ao invés de buscar por alguém eu acabo sempre voltando para casa.

 

 

Nesses momentos parece até que eu tenho pouca energia e a gasto toda indo para o cinema.

 

 

Minha vida parece até um eterno inverno.

 

 

Eu olho para as garotas, sinto desejo por elas, mas quando olho para alguma em particular eu até tento me aproximar dela, mas logo desisto da idéia, e penso que o dia certo virá em que eu encontrarei aquela garota que viverá comigo pelo resto da vida.

 

 

Mas o pior é que eu já penso nisso há mais de dez anos!

 

 

Nossa que loucura!

 

 

E eu ainda não encontrei essa garota, o que é pior!

 

 

Os meus amigos me convidam para festas, mas eu sempre as recuso, sempre invento alguma desculpa para não ir a elas, mas quando alguém insiste muito eu respondo que tenho um compromisso para aquele dia e para àquela hora, e que farei o possível para ir à festa.

 

 

Mas no dia e no horário da festa eu fico em casa sentado em minha poltrona, com a sala normalmente na penumbra, fico pensando em meus amigos se divertindo e eu ali sozinho e sem ânimo para ir me divertir junto a eles, me sinto mal com isso, mas eu não sei o que acontece, eu simplesmente não consigo me levantar da poltrona e ir à festa.

 

 

Sinto algo por dentro que me causa um enorme conflito: metade quer que eu vá, mas a outra metade me diz para não ir, e esta metade é sempre quem ganha.

Ao final desses dias eu fico pensando comigo mesmo:

 

 

– Nesta hora a festa já acabou, e os meus amigos devem ter se divertido muito, acho que lá deveria ter muitas garotas.

 

Eu chacoalho a cabeça em sinal negativo, sinto uma enorme revolta por dentro de mim, tenho até vontade de me bater, e me pergunto:

 

– Imbecil, porque você não foi à festa?

 

Eu nunca tenho resposta para esta pergunta.

 

Eu sempre fico deprimido depois disso.

 

Certo dia eu me engracei com uma garota que trabalhava na mesma empresa em que eu trabalhava, ela era linda, tinha um rosto angelical e um corpo escultural, mas quem diz que eu conseguia me aproximar dela?

 

Sempre que eu a via no trabalho eu pensava:

 

– Agora eu vou para perto dela, puxo assunto, ficamos amigos e eu a convido para sairmos juntos.

 

Mas eu demorava tanto para me decidir ir até ela que a garota saia de perto, e eu ficava ali, querendo me bater pela demora em decidir me aproximar dela.

 

Eu procurei saber quem era ela, e fiquei sabendo que ela trabalhava no andar de cima ao meu, então eu passei a monitorar a hora que ela costumava chegar, assim eu forçava o encontro entre nós, às vezes eu chegava bem mais cedo que o meu horário habitual só para ficar na entrada esperando por ela.

 

Com isso eu consegui saber a que hora ela chegava, e passei a chegar todos os dias nesse horário, a partir desse dia nós sempre viajávamos no mesmo carro de elevador, eu descia antes que ela, mas nós sempre nos olhávamos.

 

Certo dia eu a cumprimentei, ela sorriu para mim e retribuiu o sorriso, esse dia foi maravilhoso, isso me incentivou a conversar com um garoto que trabalhava com ela e questionar sobre o nome dela, o rapaz me disse que ela se chamava Meg.

 

Os dias foram passando até que chegou o dia em que eu consegui chegar perto dela, consegui dizer uma “alo” para ela, mas eu estava tão nervoso que eu nem sei direito se ela ouviu, mas para mim aquilo foi uma vitória.

 

A partir de então eu passei a ficar ao lado dela, até o dia em que consegui falar algo com ela, fiz um comentário sobre algo relativo ao tempo, aquele dia estava muito chuvoso, e conversamos até o meu andar.

 

Os dias foram passando, tinha dias que eu conseguia falar algo com ela, mas tinha dias que eu não conseguia falar nada, eu era bem articulado nas palavras, mas ao me aproximar dela eu perdia toda essa articulação, e eu não conseguia pensar em nada, isso me aborrecia muito.

 

O final de ano estava chegando, o mês de dezembro irrompe com as ruas cobertas pela neve, o clima natalino já era “respirável”, a amabilidade e o amor estavam no ar, e eu desejava passar aquele Natal com alguma garota, eu estava decidido que aquele seria o Natal de minha vida, então fixei como meta pedir a garota em namoro, não seria fácil, mas eu iria fazer isso.

 

No meio daquela primeira semana eu tive a oportunidade com que eu sempre sonhei: eu a encontrei na lanchonete que havia no térreo do prédio onde nós trabalhávamos no meio da manhã, eu levei um choque quando a vi, ela estava sentada em uma pequena mesa e sozinha, aquele era o grande momento com que sempre sonhei.

 

Tomei coragem, deixei de lado o lanche que eu iria fazer e fui em direção para onde ela estava, assim que eu cheguei perto dela ela me reconheceu e me deu um sorriso, isso quase me derruba, mas a cumprimentei:

 

– Bom dia Meg, eu posso me sentar ao seu lado?

 

Ela sorri novamente para mim e responde amavelmente:

 

– Mas claro que sim.

 

Então eu me sentei, meu coração queria sair de meu peito, mas respirei fundo e comecei a conversar com ela, a conversa estava muito boa, eu até que consegui manter isso por algum tempo, mas dentro de mim vinha a idéia de que eu deveria me abrir com ela, dizer a ela que eu queria ter algo com ela, mas isso não saia, eu não conseguia falar, quando então ela me disse:

 

– Me desculpe, a conversa está ótima, mas eu tenho que voltar ao trabalho.

 

Ela então, subitamente, se levantou, sorriu para mim levou a bandeja ao balcão e voltou para o trabalho, e eu fiquei ali, parado, sem saber o que fazer.

 

Que sensação estranha que eu sentia naquele momento!

 

Fiquei ali por mais uns vinte minutos até me recobrar da frustração, então voltei ao trabalho, sem vontade alguma.

 

Quando o expediente se encerrou naquele dia eu ainda fiquei sentado à minha mesa por quase uma hora, eu olhava para a parede, eu não desejava vê-la, minha mente me dizia claramente que ela não tinha interesse algum em mim, então me levantei e voltei para casa.

 

Nem preciso dizer como foi o restante daquela noite: um terror!

 

No dia seguinte propositadamente eu cheguei mais tarde, eu não queria me encontrar com ela, então eu fiquei temeroso de me confrontar com Meg, eu fui para o meu andar e dali eu não sai o resto do dia, nem almoçar eu fui.

 

No final do expediente eu fiz a mesma coisa: fiquei até mais tarde e só depois eu fui embora, mas não tive vontade de voltar ao meu apartamento, então parei num bar e tomei uma boa dose de conhaque.

 

Aquela primeira semana de dezembro foi embora, um dia, sem que eu me desse conta do horário, eu acabei cruzando com ela no hall térreo do elevador, noz cruzamos os nossos olhares, ela sorriu para mim e logo em seguida voltou a olhar para a amiga com quem ela estava conversando.

 

Ali ficou claro que ela não tinha nenhum sentimento mais intenso por mim, então decidi que eu não mais iria pensar nela, eu tinha perdido mais uma batalha.

 

 A vida segue adiante, e eu passaria mais um Natal sozinho, minha família morava muito distante de mim, e eu não tinha muito bom relacionamento com eles, os meus amigos nem me convidam mais, pois eles sabem qual será a minha resposta, enfim, passarei mais um final de ano normal.

 

Mas há a possibilidade de passá-lo na praça central, pelo menos na passagem do ano, pois ali que se faz a contagem regressiva, muitas pessoas vão à praça, eu nunca fui, mas sempre desejei fazê-lo.

 

Neste ano eu irei à praça festejar a passagem do ano.

 

A semana do Natal começa, a data natalina se dará na sexta feira, eu comprei algumas coisas para a ceia, comprei um peru que eu o assarei, comprei uma garrafa de vinho tinto italiano, e algumas frutas.

 

Na quinta feira se dará o último dia de trabalho, só voltaremos na segunda feira, na última semana do ano, quando também só iremos trabalhar até a quinta feira, ao final do expediente daquele dia as pessoas se despedem desejando um ótimo Natal, eu sempre estou no telefone nesse momento de cumprimentos, mas neste ano eu quero receber e dar um “bom Natal” a todos, porém o expediente se encerra e no andar há juma enorme silêncio, um estranho silêncio.

 

Eu então me levanto e faço que vou até o bebedouro no saguão dos elevadores, mas não encontro ninguém no andar, eu olhos para todos os lados e não vejo ninguém por ali, eu confiro o meu relógio, podia ser que eu tivesse me enganado quanto a hora, porém vejo que a hora estava correta, então sem saber o que estava acontecendo eu volto para a minha sala, quando dou de cara com uma senhora que fazia a faxina de nosso andar, e quando ela me viu olhou assustada para mim e me diz:

 

– O que você está fazendo aqui rapaz?

 

– Todos estão na sala de reuniões do quinto andar trocando os presentes de amigo secreto, corra lá, vá beber um suco e comer um pedaço de bolo.

 

Então ela se vira e continua seu trabalho, eu volto para a minha sala.

 

Assim que chego nela me sento e penso:

 

– Não me convidaram para a festa do amigo secreto.

 

Nesse momento um sentimento profundo de tristeza me toma por completo, e em minha mente surge a explicação:

 

– Mas também nem adiantaria eles me convidarem, das outras vezes em que eles me convidaram eu nunca aceitei o convite.

 

Eu então peguei as minhas coisas, desliguei meu computador, decidi ir embora, e pelas escadas, eu não queria encontrar ninguém, assim que eu cheguei ao térreo as recepcionistas estavam tão ocupadas com suas conversas que nem me viram sair, eu estava invisível naquele dia.

 

As ruas estavam todas brancas, tomadas por uma espessa camada de neve, mais parecia algodão, eu caminhei até a estação do metrô, e logo eu estava em meu apartamento, o frio estava intenso, então fui direto ao banheiro e tomei um banho demorado e relaxante.

 

Coloquei uma roupa confortável e comecei a preparar a ceia de Natal, coloquei o peru no forno, o vinho já estava na geladeira, preparei um pouco de macarrão com queijo, as frutas eu as descasquei para facilitar, montei a mesa da sala com um prato, uma vela, eu ajeitei a taça para o vinho, fui até o aparelho de som e liguei o rádio.

 

A fragrância do peru invadiu o apartamento, seu cozimento deverá durar cerca de três horas, enquanto isso vou beber um pouco do vinho, ele estava delicioso, nesse momento eu escuto os parentes do vizinho chegarem eles sempre chegam fazendo muito barulho, e a festa deles dura até altas horas da madrugada, eu sempre acordo por causa do barulho deles nessas ocasiões, é muito chato isso.

 

O relógio marca onze horas da noite, a hora da ceia estava se aproximando, eu já havia bebido mais de um quarto de garrafa do vinho, fui à cozinha e tirei o peru do forno, ele estava cozido e lindo de se ver, mas ainda não era hora de comê-lo, então voltei para a sala sentei no sofá e tentei relaxar.

 

Acabei pegando no sono.

 

Acordei no dia seguinte por volta das nove horas da manhã, fui à cozinha e meu peru estava lá, intacto, eu tinha garantido comida por vários dias.

 

Eu preciso parara de “relaxar” antes da ceia de Natal, isso tem acontecido nos últimos anos e eu tenho perdido a ceia em todos eles.

 

A última semana do ano não foi diferente das demais, porém muitos colegas de trabalho tiraram férias, então a repartição estava vazia, em meu andar eu acho que só eu estava trabalhando, então a semana passou com muita tranqüilidade, monotonia e ansiedade.

 

Engraçado eu ter sentido aquela ansiedade por estar sozinho, eu vivia sozinho, mas nunca me senti daquele jeito, acho que eu estou mudando, sei lá.

 

A sexta feira dia trinta e um de dezembro chega, a noite o ano velho se despediria e o ano novo chegaria, mas eu não conseguia ver isso, todo “ano novo” era igual ao anterior, um dia um amigo me disse que nós não podemos esperar nada de novo do ano se nós não mudarmos as nossas atitudes, e eu concordo com isso.

Mas como eu faço isso?

 

Eu sempre tenho vontade de mudar, mas na hora eu dou para trás.

 

Mas, quem sabe este “ano novo” me incentive a mudar?

 

Não dizem que a esperança é a última que morre?

 

A noite chega junto com a neve, o frio estava intenso, a praça ficava próxima de meu prédio, eu posso ir andando até lá, então quando chegam onze horas eu coloco aquele meu casaco imenso e desço, a rua estava agitada, as pessoas iam e vinham de um lado para outro, a alegria era possível de ser vista nos olhos das pessoas, então fui direto à praça.

 

Ela já estava cheia, muita gente se abraçando, se beijando, felizes pela data especial, eu olhava para todos e sentia vontade de sentir o que elas estavam sentindo, mas para isso eu teria que mudar.

 

Os ponteiros do relógio avançam até que finalmente chega às onze horas e cinqüenta e nove minutos, e logo a contagem regressiva começa, e ao chegar no zero o “ano novo” chega, as pessoas se abraçam, se beijam, comemoram, eu olhava para tudo aquilo com admiração, então um casal de idosos que passavam ao meu lado me pedem para que pudessem me abraçar, e eu me deixei levar pelo clima e abracei aos dois, e antes deles irem mais para o centro da praça a velha senhora se aproximou mais de mim, me deu um beijo em meu rosto e me disse:

 

– Confie na Providência Divina, acredite que você conseguirá.

 

E os dois saem de perto de mim, e em minha mente ficou aquela frase, que a princípio me soou sem sentido, então eu resolvi ir mais para próximo de onde estava o relógio que marcou a passagem, e ali eu me senti como que abraçado por aquela multidão, as pessoas me diziam:

 

– Feliz Ano Novo.

 

– Muita felicidade para você.

 

– Muita paz em sua vida.

 

E eu comecei a me sentir diferente, e isso começou a me causar certo desconforto, então resolvi voltar para o m eu apartamento, eu não tinha feito nenhuma ceia, afinal de contas eu sempre relaxo nessas horas, mas eu estava com fome, então peguei um pedaço de pão e um pedaço de queijo e fiz um sanduíche, abri aquela garrafa de vinho que eu havia tomado no Natal e com eles eu fiz a minha ceia.

 

Eu fui para perto da janela da sala e fiquei olhando os fogos de artifício fazerem a sua pirotecnia nos céus de minha cidade, e logo eu estava relaxado, fui para minha cama e dormi.

 

O ano novo começou e na primeira semana de janeiro eu dou de cara com uma garota no elevador, ela era linda, e eu nunca a tinha visto por ali, fiquei sabendo que ela trabalhava no andar logo abaixo do meu, então decidi que eu tentaria a minha sorte com ela.

 

E assim eu voltei a minha rotina com as garotas, a minha velha rotina que se sucedia ano após ano, mês após mês, sem que eu realmente encontrasse alguém com quem eu decididamente passaria o resto de minha vida.

 

Mas, afinal de contas, eu sou um cara muito estranho!

Do Livro:
Contos e Descontos da Vida – Os Diversos Estados da Alma

Walter Possibom é médico, escritor, guitarrista da banda Delta Crucis – São Paulo – SP

 
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