Conto: Barata Cichetto – Copos de Requeijão

Barata Cichetto

“Sou mesmo um imenso pedaço de bosta!” — Pensei enquanto lavava os pratos, talhares e copos sujos que tinham mais de uma semana dentro da pia. A casa fedia sujeira, esperma e bosta. Dar descarga era um imenso sacrifício. O último banho tinha mais de uma semana também. Ao menos a conta de consumo de água chegaria bem baixa.


Há uma semana ela tinha ido embora sem falar sequer uma palavra. Levantara de manhã e colocara as coisas numa dessas sacolas com rodas e saia, abanando aquele rabo delicioso pela rua. Ainda sai no portão e vi aquela bunda virando a esquina. Não era a primeira vez que ela fazia aquilo. Se não me engano era a terceira. Talvez a quarta. Em quatro anos. É, era uma vez por ano, de fato, sempre perto da data de casamento. Era especialista em me deixar sozinho no dia em que seria para estarmos juntos, fodermos até cansar e depois dormir de conchinha.


De fato eu odiava dormir de conchinha. Me sufocava. Aliás, dormir agarrado é uma merda. E sou ainda mais cético: quem foi o desgraçado que inventou a cama de casal? Porra, para trepar, os corpos ocupam o mesmo espaço, então para que serve essa merda de cama de casal? Decerto para ser muito mais incomodado quando se briga e um fica dando bundada no outro. Uma provocação que acaba gerando mais briga ainda.


Uma vez, ainda em outro casamento, fiz uma lista sobre as vantagens e desvantagens de se dormir numa cama de casal. As desvantagens ganharam de lavada. Aliás, foi quase unânime. E nem me lembro de qual foi o item que coloquei como vantagem.


O fato agora é que eu tinha que limpar a porra da casa sozinho, cozinhar e comer sozinho, tomar banho sozinho e fazer sexo com minha mão. É uma merda bater punheta depois de velho. Punheta tem graça na adolescência, quando a gente nunca experimentou uma suculenta buceta, um cu daqueles apertadinhos. Puta que pariu, bater punheta com quase sessenta anos de idade é uma porra de uma sacanagem.


Ontem à noite bati uma punheta, e a foi daquelas punhetas de pau mole, que a gente esporra sem sentir merda nenhuma. Também, por mais que eu me concentrasse na vizinha gostosinha que passa de minissaia todo dia debaixo da minha janela, só conseguia pensar naquela filha da puta que tinha ido embora com aquele rabo empurrando a sacola de rodinhas. Bater punheta para ex só não é mais idiota que bater punheta pensando na atual. E também já fiz muito disso, nos dias que queria fodê-la, mas ela virava e roncava feito uma porca velha e eu estava com um tesão que poderia estourar- lhe as pregas.


“Desgraçada!” — Pensei, quando o copo escorregou da minha mão e se espatifou no granito do tampo da pia. Era um daqueles copos que eram comprados com requeijão no supermercado. Havia dúzias deles. Ela adora requeijão. Eu detesto requeijão, tem gosto de plástico derretido.


O copo se despedaçou e abriu um talho na minha mão. O sangue escorria no meio da espuma de detergente para o ralo. “A culpa disso é tua, sua maldita!”. É, se ela não tivesse ido embora, estaria lavando a merda da louça. Talvez fosse ela que tivesse se cortado, não eu. “Eu devia cortar é a tua garganta, sua filha da puta! Com esses cacos de vidro desses malditos copos de requeijão”. As coisas que a gente pensa quando está puto… Se a gente cometesse todos os crimes que nos passam pela cabeça quando está puto com algo, não teria ninguém mais solto.


O celular tocou. Era a desgraçada, que tinha ido embora empurrando aquele rabo pela esquina e que, por causa disso, eu tinha me cortado com a merda do copo de requeijão. Respirei fundo e atendi. Não queria mostrar nenhum sentimento, como se isso fosse possível. Ela deve ter pensado a mesma coisa, pois nem falou seu característico “Oi!”. Só pediu a senha do Netflix e desligou. Dei a senha errada. Não sei se de propósito, para que ela ligasse de novo, por algum instinto de vingança, ou só porque esqueci a correta mesmo.


Ela não ligou, e em vez disso, duas horas depois encostou um caminhão no portão de casa. O sujeito mal encarado tinha um documento dela. Ela queria todas as coisas da casa. Tudo mesmo. Até mesmo os gatos e os copos de requeijão, além dos móveis, eletrodomésticos, roupas. Tinha uma lista imensa de itens. Ela sabia de cor cada pequeno objeto que tinha dentro da casa. E o motorista tinha ordem de assinalar cada item que fosse sendo arrecadado. Cada coisa faltante seria convertido em uma multa em dinheiro. Os valores na frente do item.


“Que vadia filha de uma puta!” — Nem procurei disfarçar diante do motorista, que apenas meneou a cabeça e abriu a porta traseira do baú para colocar as coisas. Apontei a porta da casa. Do caminhão desceram outros dois sujeitos enormes, sem camisa e suados e se dirigiram para dentro. O motorista só tinha o trabalho de assinalar o que entrava no caminhão, sem levantar a cabeça da prancheta. A ultima coisa a ser colocada no caminhão foram os gatos.


Perguntei se estava tudo certo, e já ia voltando para dentro quando o motorista me chamou e disse que havia algo faltando: um copo. Um maldito copo de requeijão. Aquele mesmo maldito copo que pouco tempo antes tinha aberto um rasgo da minha mão e cujos cacos ainda estavam, cheios de sangue, sobre o granito do tampo da cozinha. Era um maldito e comum copo de requeijão. Um infeliz copo de vidro, mas na lista que o motorista me mostrou, cada copo estava valorizado com números absurdamente altos. Era algo como o preço de uma geladeira o que ela tinha colocado em cada um dos malditos copos de requeijão.


“Que desgraçada! Eu quebrei a merda do copo, agora há pouco. Olha o talho na minha mão.” O tal motorista não tinha nenhuma expressão e apenas me disse que teria que levar todos os itens ou o valor correspondente a cada um, que estavam na lista. Ele e os dois ajudantes me encaravam.


Entrei na casa, fui até a cozinha e apanhei cada um dos pedaços do copo quebrado e cheios de sangue. Juntei tudo e entreguei ao motorista. Ele quis retrucar pelo copo estar quebrado, mas argumentei que na lista não dizia que tinha que estar inteiro. “Além disso”, eu argui, “ainda ela vai ganhar de brinde uns pedaços de pele e meu sangue. Isso não está na sua lista.”.


O caminhão se foi, virando a mesma esquina que ela virara dias antes, com aquele bundão empurrando a sacola com rodas, levando tudo o que havia na casa, incluindo os gatos e os copos de requeijão.

Entrei em casa. Tudo vazio. A única coisa era a televisão, que por algum motivo tinham ficado fora da lista dela. Sentei no chão e liguei. Ainda bem que tinha lhe dado a senha errada do Netflix.


07/06/2018

Barata Cichetto nasceu em São Paulo, Capital e atualmente mora em Araraquara, É escritor, poeta, artista visual, webdesigner e webradialista. Tem 26 livros publicados, desses 14 de poesia. Desistiu de escrever em 2020 e então fundou o BarDoPoeta.. Politicamente define-se como Liberal, e poéticamente como Anarquista-monaquista. Ama Rock’nRoll e musica barulhenta em geral. Nasceu no Ano da Graça de Madonna, Michael Jackson e Bruce Dickinson;.

 
Compartilhe
  • 0
  • 0
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
Assinar
Notificar
guest


Atenção: O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais ao autor, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

 

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Site Criado Por Barata Cichetto - (16) 99248-0091