Conto: Barata Cichetto – A Lenda da Puta Sem Cabeça — Baseado Em Fatos (Su)rreais

Barata Cichetto

Contam que foi em um final de século, sem ser exato sobre qual, num lugar incerto entre o Mediterrâneo e Patagônia, que existiu uma mulher, cujo nome de batismo ou de certidão, ninguém conhece, mas que ganhou na história um título quase que imperial de Amásia Bagaxa Cocote Concubina Cortesã Dama Garota de Programa Marafona Messalina Meretriz Pública Pécora Piranha Rapariga Perdida Rameira Rascoa Rascoeira Tolerada Hetaira Bandarra Cachopa Polha Senhorinha Putéfia Barregã Cuarra Quenga Galdéria Vagabunda Vaca Vadia Vulgívaga da Vida Leya, ou simplesmente, como era conhecia na aldeia, a Puta Sem Cabeça.

 

Conta a história, que Leya nasceu de pais pobres, e especula-se que poderiam ter sido agricultores ou pescadores. Há quem afirme, que de fato a família era de gente poderosa, sendo o pai um político influente e a mãe uma dama da corte. De certo apenas que era uma menina, e que ostentava desde menina uma enorme disposição às brincadeiras eróticas, sendo conhecida na aldeia a alegria dos garotos imberbes.

 

Ainda na puberdade Leya tinha uma beleza invejada pelas mulheres e cobiçada pelos homens. Seu corpo, que mais parecia o de uma vistosa mulher, tinha traços e contornos de uma deusa, com formas tão perfeitas que pareciam terem sido esculpidas pelos mais talentosos artistas da época. Muito alta, com ancas largas e pernas muito longas, além de fartos e rígidos seios, além de uma pele alva e lisa feito uma seda tecida pelos mais hábeis tecelões do Oriente, a menina era vista por seus pais como uma grande preocupação, já sabiam não poderiam manter tal obra de arte feita de carne, no altar que pretendiam.

 

E foi antes que alcançasse a idade adulta, segundo a lenda converge, sem disparidades de interpretação, que a menina Leya, cujas intimidades eram conhecidas por quase todos os homens do vilarejo, despertou a paixão torrencial e proibida do Padre local, um homem de uma idade um tanto avançada, mas que nem por isso deixava de interpolar seu exercício de fé espiritual e divino com outro, bem carnal e humano. O santo homem, discreto como deveria, mas pervertido como não poderia, mantinha sob o silêncio imortal da Igreja, um séquito de amantes, todas as esposas dos mais proeminentes e poderosos homens do lugar.

 

Descreve-se o homem por baixo dos hábitos sagrados, como sendo, apesar da idade, como sendo majestoso e garboso, portador de uma presença quase angelical. Sua voz no altar era ouvida como a de um coro de anjos, e seu caminhar era seguido das janelas por homens e mulher, que nele tinham como a deidade da cidade. A lenda ainda conta, embora tenha diferenças em função da região em que é contada, que o tal Padre mantinha em sua alcova, certos instrumentos que seriam usados para um tipo de confissão um tanto heterodoxo.

 

Prossegue a lenda contando que Leya, apesar de pecadora jamais tinha colocado os joelhos no genuflexório da igreja, mas que começou a frequentar as missas dominicais, sempre a frente das matronas que de rosários nas mãos e véus na cabeça, se punham a acompanhar a celebração, o que causou enorme burburinho. O Padre, por sua feita, cada dia mais enfeitiçado pela formosura da moça, mal conseguia pronunciar as sacrossantas palavras, e era sempre percebido com os olhares que se desviavam da taça de vinho sagrado, e das hóstias da eucaristia, para as pernas e decote da beldade.

 

E foi, durante uma Sexta-Feira da Paixão, que o ato se consumou, ainda na sacristia, não às vistas dos santos, cujas imagens eram cobertas com panos roxos, mas decerto sob os olhares reprovadores do Cristo sangrando na parede. Naquela Páscoa, então, quando era comemorada a ressurreição, começou o martírio e procissão infernal de Leya, que se veria transformada, pela maldição, em um ser que seria a perdição da aldeia, punida por sua própria iniquidade. Nascia naquele dia a maldição da Puta Sem Cabeça.

 

A partir daquele dia, e sempre nas sextas-feiras, Leya se transformava: em lugar de sua cabeça, labaredas de fogo surgiam, e ela perambulava, por todos os cantos da cidade, seduzindo com os encantos que seu corpo majestoso permitia, a todos os homens, fossem eles de qualquer estado civil, cor, idade ou profissão. Enfeitiçados e subjugados, e por que não dizer aterrorizados, eram submetidos a toda sorte de devassidão, luxuria e pecado. Seus pênis eram sugados até que nenhuma gota de esperma restasse, suas forças exauridas por coitos que só terminavam quando a mulher se sentisse satisfeita, e muitos eram obrigados a sugar-lhe a vagina, até que suas línguas se imobilizassem em câimbras.

 

Naquelas noites, e até que o sol de sábado aparecesse, as famílias se trancavam em suas casas, exceto pelos homens, que furtivamente saiam pelas portas do fundos, em busca dos prazeres que todos os que tinham experimentados contavam como absolutamente divinos. Naquelas noites o que se ouvia pelas ruas, era um som parecido com um relinchado metálico, seguido de gemidos. As mulheres sabiam que naquela noite não poderiam contar com seus maridos, e muitas também se aproveitavam para trazer amantes às suas camas.

 

Aos domingos, na Missa, ainda celebrada pelo mesmo Padre, o alvoroço era grande, e todas as mulheres pediam que Deus lhes desse uma solução, e apenas o que sabiam é que aquilo era uma maldição, e que apenas o sangue de Leya ou a própria divina intervenção, feita por obra do religioso, os poderia livrar da eterna punição. Somente o sangue e Deus, cujo representante era o próprio causador, poderiam livrar a cidade do demônio com suas chamas de perversão, somente a Providência os poderia livrar da incidência e prevalência daquela doença.

 

Acontece que o Padre, idoso e vaidoso, não apenas não tinha pelos seus atos arrependimento, como continuava a usar de sua influência para satisfazer os próprio desejos, ainda mais agora, quando desesperadas e enciumadas, as mulheres tinham ficado mais suscetíveis, e buscavam no santo homem, a expiação não somente de seus desejos mais profanos, como a satisfação de suas mais subterrâneas lascívias. Secretamente, contam, muitas delas, que tinham habilidade com costura, criaram cabeças que, com retalhos coloridos em vermelho, laranja e amarelo, simulavam chamas, e que trajadas com esse adereço, realizavam as mais perversas fantasias.

 

O tempo foi passando, e tão rápido que pareceu nem existir, e as sextas-feiras se tornaram mais importantes para a cidade do que a própria missa de domingo. Até que um dia, que ninguém consegue precisar quando, numa dessas noites, o Padre, que poderia ser o único a romper a maldição, caiu morto aos pés de um crucifixo. O homem completamente exaurido, mas com um ar de felicidade, fora encontrado completamente nu, e há quem acrescente que fora, sem dúvida, a Puta Sem Cabeça a causa de sua morte.

 

Foi então que, empertigada, as cidade inteira se revoltou, ao menos suas mulheres. Era preciso dar um basta, destruir aquele demônio, que ousara profanar tão devotada população. Armados de tochas, pedaços de madeira, facões e enxadas, e até quem diga que com água benta e ramos de arruda, os homens partiram em busca da Puta Sem Cabeça, sabendo, mas fingindo não saber, que apenas na próxima sexta-feira a poderiam encontrar. A farsa era apenas para contentar-lhes as esposas, e em breve retornaram às suas casas, esperando que as coisas acalmassem nos próximos dias.

 

As mulheres, reunidas na igreja durante a semana, tinham resolvido que na noite de sexta-feira, seriam elas a empunhar os instrumentos da justiça divina, e dar cabo daquela monstruosidade. Afinal eram elas as maiores vítimas daquelas inusitadas circunstâncias, e o mal tinha que ser extinto. Quando o dia chegou partiram como numa procissão entoando cânticos religiosos pelas ruas, em busca de relinchos e gemidos que poderiam identificar a presença da maldita, mas o som parecia partir de todos os becos, portas e janelas da cidade. Elas sabiam, por conta do Bispo que tinha sido contatado, que agora que o padre tinha morrido, a única forma de acabar com a maldição seria retirar que fosse apenas uma gota do sangue da mulher.

 

Era quase nascer do sol quando ela foi encontrada, no salão principal da prefeitura, com o prefeito de joelhos sugando-lhe avidamente a vagina. Avançaram sobre a moça, com todos os tipos de instrumentos cortantes e perfurantes, e rapidamente todo o seu sangue ficou esparramado no assoalho, e as chamas que formavam sua cabeça foram aos poucos se apagando, até que um rosto, de uma beleza estonteante se revelou. E a essa revelação, alguns contam outros não, que o rosto revelado era ninguém menos que a própria filha do prefeito. O que é comum é que Amásia Bagaxa Cocote Concubina Cortesã Dama Garota de Programa Marafona Messalina Meretriz Pública Pécora Piranha Rapariga Perdida Rameira Rascoa Rascoeira Tolerada Hetaira Bandarra Cachopa Polha Senhorinha Putéfia Barregã Cuarra Quenga Galdéria Vagabunda Vaca Vadia Vulgívaga da Vida Leya, ou simplesmente, a Puta Sem Cabeça, como era conhecida na aldeia, estava morta.

 

Satisfeitas não apenas com o fato de sentirem que tinha feito a justiça divina, mas por terem livrado a cidade de uma mulher que trazia a cidade uma inquietação não desejada, as mulheres se recolherem a suas casas, e para junto de seus maridos. Tanto uns quanto outros, naquela noite, por não terem qualquer espécie de opção ou de desculpa, se entregaram entre si. Entretanto, poucas sabiam, e se sabiam não se importaram, de que a maldição era imposta a todas as mulheres que fornicassem com um Padre. E naquela noite, sem exceção, e por todas as sextas-feiras restantes na eternidade, na cidade inteira se ouviria apenas o som de relinchos metálicos e gemidos de perdição.

 

11/05/2019

Barata Cichetto nasceu em São Paulo, Capital e atualmente mora em Araraquara, É escritor, poeta, artista visual, webdesigner e webradialista. Tem 26 livros publicados, desses 14 de poesia. Desistiu de escrever em 2020 e então fundou o BarDoPoeta.. Politicamente define-se como Liberal, e poéticamente como Anarquista-monaquista. Ama Rock’nRoll e musica barulhenta em geral. Nasceu no Ano da Graça de Madonna, Michael Jackson e Bruce Dickinson;.

 
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