Conto: Aires Mourinho – Forte

Ela é rude, e seus punhos têm a força de mil canhões.


Passei o dia procurando algum sentido. As chinelas estavam atiradas – uma longe da outra – perto da mesinha. Aos poucos, o dia acabava. A geleira permanecia aberta e jorrava água de dentro dela. Saí de casa e andei alguns quarteirões até encontrar o Zé. Velho gentil e educado. Seu bar andava fechado há quase um ano.

─ Ele não abrirá nunca?


Perguntei. Zé, tirou um cigarro e o acendeu. Depois de ter me oferecido e eu recusado.


─ Um dia, ele abrirá. E tudo voltará ao normal, rapaz. ─ ele dizia, entre as baforadas de fumo que expelia. ─ vês aquelas cadeiras? Aquele chão? Há histórias aí que nunca morrerão. E só por isso é que tenho certeza que tudo voltará ao normal, em breve.


Velho esperançoso. Seus olhos não podiam ver o que vejo. Seus olhos eram olhos enganados com uma triste esperança.


─ É. Esperemos, Zé.

─ Mas, o que se passa? Pareces morto.

─ Desconfio que sim. Viver é tão raro e caro.

─ Tal como Oscar disse.

─ Diferente, Zé. Viver, nos últimos dias tem sido como morrer. O custo… é elevado.

─ Rapaz, eu já vivi muito. E sobrevivi a vários suicídios. E mulheres. Não sei do que falas. Mas sei que, a vida não é um acto contínuo. Tudo acaba.


O cigarro ia quase na metade. Eu podia concordar. Nosso tecto era um mar de estrelas. Umas mortas, e outras caminhando para isso. Olhei outra vez para o bar. E continuei procurando sentido. Deuses, raios. Estátuas. Homens sobre água. E o que o meu coração sussurrava vez outra, sempre que Zé falava.


─ Então, meu filho ─ ele continuou, deu uma última baforada e deitou o cigarro ─, viva a vida. Não parece restar muito dela nos últimos dias.


Zé despediu-se depois disso. Sua mulher, uma rapariga de 29 anos não gostava de o ver fumar dentro de casa. O cheiro ficava durante dias por toda casa. O dia parecia uma música de Ludovico. Outras vezes, em um segundo, podia mudar para algo mais triste e tingir cores ainda mais negras do que o escuro dessa rua vazia e escura que eu estava andando. Havia um cão mijando em um posto. Eu o via porque era o único lugar com algum tipo de luz. A luz estava em lugares estranhos, o problema era encontrá-la. Eram só mais alguns quarteirões até minha casa.


“Que sentido podia haver em um mundo queimando? ”  Pensei. As escadas eram uma subida interminável. Eu tinha Bukowski. E alguma luz em algum lugar estranho dentro de mim. Eu só tinha que encontrar o lugar. Mas, eu tinha que ter cuidado, é perigoso adentrar-se.  Subi as escadas até chegar no meu andar. A porta estava aberta, tal como deixei.  Antes de entrar, olhei para aquele lugar, e como desejei ter forças para aguentar aquilo. Como desejei ter algum pouco mais de vida. Acho que fiquei na porta chorando, enquanto os vizinhos batiam na parede e mandavam me calar. Eu sabia. A humanidade também estava acabando. Fiquei encarando o teto antes de entrar.


Fechei a porta e carreguei as chinelas até o quarto. Uma perto da outra, como costumavam estar. Arrumei as cadeiras no lugar e endireitei a toalha de mesa. Peguei o que sobrava do vaso das flores. Fechei a geleira. E enxuguei a água do chão. Sentei na mesa e comecei um diálogo dentro de mim:


“Que sentido pode haver em um mundo morrendo? Ou na vida, Zé? Ela gostava dessa mesa. E dos dias nascendo. E dos pássaros. Ela gostava dos círculos nos quadrados. E andar a pé. Ela gostava dos vestidos longos, e do mistério que isso podia trazer em um homem antigamente. Ela lia com alma. E escrevia poemas toda noite. Ela ouvia Belchior. E lia Baudelaire. E Fiódor. Seu poema favorito acontecia todos os dias. Que sentido há nisso, morrer quando se ama tanto a vida? ”


O monologo dentro de mim parara. Não havia sentido. Não haviam palavras. Agora só ela. Só havia ela, com uma corda no pescoço balançando de um lado e do outro na sala. Ela era rude. Rude e com os punhos com a força de um milhão de canhões. 


Agora, ela era só mais um corpo sem vida balançando na minha sala de estar.

Aires Mourinho – Poeta escritor, Luanda, Angola, criador da página Templo da Poesia

 
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