Conto: Aires Mourinho – [Baforadas]

─ Como foi?

─ Os livros sempre foram alguma espécie de paixão, eu traía a vida com eles algumas vezes.

─ Por isso decidiste escrever um livro?

─ Não…. Eu estava perdidamente apaixonado por uma mulher. Os poemas são sobre ela, e todas as outras que vieram. O livro é resultado disso.

─ E como isso correu?

─ Nada bem. A coisa nunca corre bem.

─ Tu voltas a escrever?

─ Não sei, talvez me apaixone oura vez.

─ Não voltaste a te apaixonar, Greg?

─ Voltei. Algumas raras vezes.

─ E como acabou?

─ A coisa nunca acaba bem ─ repeti.

─ Já pensaste no que correu mal?

─ Sempre.

─ Você estava errado? ─ ela sorriu e pegou o copo de água que estava ao lado. Os cartões com as perguntas acabaram sobre a saia que comprimia suas pernas.

─ Eu acho que sim.

─ Mudaste?

─ Não. Talvez… talvez tenha mudado. Eu acho que passei a me amar mais.

As luzes e as pessoas tornavam tudo mais difícil. Eu lembro que a TV era um lugar esquisito. Onde só determinado tipo de pessoas ia. Raramente alguém de jeito aparecia. Eram todos os mesmos.

─ Ah… passaste a te amar mais? Pessoas normais mudam depois de notarem o que deu errado.

─ Talvez eu não seja normal. Eu não queria desfigurar-me e olhar para o espelho saber quem elas eram, mas não saber quem eu era.

Ela olhou para o livro e o pegou. O folheou e voltou a pousar o livro no lugar. O cotidiano sob holofotes.

─ Tu estás sempre a pensar no que deu errado?

─ É, sempre… sempre penso que talvez esteja no lugar errado. Fazendo a coisa errado. Estudando a coisa errada. Amando a pessoa errada.

─ E tu estás?

─ Eu sempre amo a pessoa errada.

─ E o resto?

─ Não acho que quero saber a resposta disso.

─ Porque o amor é tão importante para ti?

─ Se eu fosse algum tipo de psicólogo, eu diria que a falta dele é um gatilho para todas as outras dores.

─ O que isso quer dizer?

─ Não sei, mas deve significar alguma coisa. É que o amor pode matar. E a falta dele te faz querer morrer, ou algo parecido.

Tirei um cigarro e o acendi.

─ Desculpa, mas tu não podes fazer isso aqui! ─ ela disse ─Não se fuma aqui dentro!

Meu casaco tinha uma mancha seca da pasta dentifrícia. Eu usava o mesmo calçado há dois anos. E àquele casaco ainda me protegia do frio. Eu sabia que eu era a primeira pessoa de jeito que pisava àquele antro vazio de almas.

─ Porquê?

─ Porque não. Estamos em direto. E não se fuma aqui!

Continuei a fumar. Depois de duas baforadas, apaguei o cigarro. Não queria aumentar as audiências.

─ Sabes, todos vocês estão na vossa zona de conforto. Eu não estou. E fumar me relaxaria. Todos vocês estão aqui, tratando tudo isso como um espetáculo. Nesse momento, há um deus olhando para todos nós e dizendo: “olha para eles. Eles se acham tão espertos. Olha esse aí, reclamando sobre o amor, olha para eles, patéticos. ” Nós somos o próprio espetáculo, os bichos de estimação de deus, brincando de faz de conta.

A coisa parou um pouco para os comercias. Acredito que quando repassarem a entrevista irão cortar essa parte. Depois de uns minutos voltamos a nos sentar. Meu editor ligou e disse para eu não foder com tudo dessa vez. “É a única forma de aumentar as vendas”, ele disse antes de desligar o telefone.

─ Mais uma vez. Eu vou insistir em uma pergunta ─ eu podia sentir o cheiro do cigarro vindo dela. Ela tinha tragado o meu cigarro. Ele já não estava comigo. ─ Porque você fala tanto de amor?

Tateei meus bolsos em busca de mais um cigarro, mas nada havia.

─ É a única coisa que acho que vale a pena escrever. Sabes, todas as outras coisas não mudaram. E provavelmente não mudarão. Há sempre uma minoria sendo fodida por políticos. Ou por políticas. Em qualquer parte do mundo. Os ricos continuam ricos. E alguns lugares a gente não pode ir. E negros continuam morrendo. E brancos também. As pessoas continuam se desumanizando. Eu acho.

─ E o amor não continua o mesmo?

─ O problema é por quem nos apaixonamos. Isso muda o jogo.

Lembrei de uma garota por quem eu em apaixonara. Ficamos durante um ou dois meses, depois ela foi. Isso tinha acabado comigo. Um tempo depois, eu me apaixonei pela terceira garota. Minha lista de paixões era curta. Mas eu nunca cheguei a entrar naquele vagão. Eu achava que conhecer uma pessoa era uma experiência única na vida. Saber pedaços dela. Mas àquele vagão, agora me parecia perigoso demais. Eu nunca voltava dele inteiro.

Talvez o amor fosse isso para mim. Uma viagem que não tem como sair dela inteiro.

A entrevista acabou. Eu fui para fora. E vi a poesia andando em mil mulheres. Alguns romances olhavam para mim. Andei até me afastar daquele lugar e pegar um táxi. Eu estava cansado do amor. E do jogo. Eu nunca ganhava.

 

Aires Mourinho – Poeta escritor, Luanda, Angola, criador da página Templo da Poesia

 
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Adélio

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