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Barata Cichetto – Tarso Torquato, Escritor

Barata Cichetto

Meu nome é Tarso Torquato e sou um escritor. Ah, pretensão minha essa, de me autodefinir como escritor. Não sou escritor, no máximo sou um sujeito que gosta de brincar, de jogar com palavras. Há pessoas que preferem videogames, outras baralho e muitas preferem o bom e velho jogo da sedução. Mas não eu, eu gosto de jogar com as palavras, como se fossem um daqueles antigos quebra— cabeças, onde partes de figuras deveriam se encaixar para formar um quadro final. Uma definição piegas essa, eu sei, mas é a que ocorre agora, mas é a que mais se aproxima com as brincadeiras mentais que faço diariamente antes de me sentar à frente do computador e começar a digitar uma história. Fico pegando palavras que escapam das bocas de transeuntes nas ruas, personagens de filmes, e até ditas por mim mesmo. Depois fico tentando encaixar umas às outras e assim formando frases com algum sentido, e posteriormente tenho um quadro completo. Nem sempre é um belo quadro, nem sempre é uma obra de arte, e muitas vezes nem faz muito sentido a imagem final, mas o simples prazer de juntar palavras é o que me move. O objetivo do jogo, ao menos para mim, é sempre o de jogar, ou melhor, brincar, já que não há como ganhar ou perder. O meu método é bem simples: ando pelas ruas de ouvidos bem atentos e sempre que passo por alguém capto automática uma ou duas palavras que a pessoa diz. Anoto— a mentalmente e sigo em frente. Ao final do dia, tenho tantas palavras soltas que seria capaz de escrever um dicionário.

 

Entretanto, essa minha mania, digamos assim, acabou por me colocar numa situação inusitada há um tempo, quando um sinal de trânsito, de travessia de pedestres, demorou demais a abrir e me possibilitou escutar não apenas uma ou duas palavras, mas uma frase inteira. Uma mulher, de cerca de cinquenta anos, bem trajada com desses modelos que imitam ternos masculinos e usando óculos de aros pesados, parada ao meu lado impaciente falando ao celular.

 

A frase era perturbadora, extremamente comprometedora, e eu fiz questão de decorá-la inteiramente, com toda entonação de palavras. Exatamente como fora pronunciada.

 

O farol abriu e ela saiu apressada, e quase correndo atravessou a rua. Apressei o passo para poder acompanhá-la, observando seu balançar de nádegas e tentando entender algo a mais daquela conversa. Andava quase colado a ela, que seguia rápido pelas calçadas, sem se preocupar em quase derrubar quem vinha na direção contrária. O matraquear do salto de sua sandália batendo na calçada e seus movimentos nervosos, trocando o celular de mão e de orelha, chamavam a atenção de algumas pessoas, e especialmente a minha, já que aquela frase ficara martelando na minha cabeça e eu queria saber mais. Entretanto, pelo burburinho das conversas ao redor, dos gritos dos vendedores nas portas das lojas e ruídos de veículos na rua, não conseguia entender mais do que uma ou outra palavra. 

 

Embora pensasse no problema que eu fatalmente teria se ela percebesse, decidi segui-la. Ela estava cada vez mais nervosa e andava mais rápido ainda, o que tornava a tarefa quase impossível. Suas coxas batiam uma contra as outras e os saltos altos da sandália nos tornozelos, e achei que a qualquer momento ela tomaria um tombo.

 

E foi realmente o que aconteceu. A mulher se esparramou na calçada, com a sandália de salto quebrado voando longe e o celular indo parar aos pés de um mendigo que esmolava à porta de uma loja de variedades. Num gesto automático dei um passo em sua direção e abaixei— me para ajudá-la a erguer-se. Ela xingava e perguntava pelo telefone, com os joelhos e cotovelos sangrando. Alguém arrancou o aparelho das mãos do mendigo e entregou a ela.

 

— A senhora está bem? Quer que chame o Resgate? — Perguntei. Ela não respondeu.

Uma pequena aglomeração se formou ao nosso redor e a mulher só sabia xingar e tentar usar o celular que aparentemente tinha sido danificado seriamente.

— Desgraçado! Filho da puta! Corno!

— Calma, senhora! A senhora não quer entrar ali no bar e tomar uma água?

— Ora, não quero merda nenhuma! Não quero água, nem porra nenhuma. Cadê minha sandália? Puta que pariu!

 

Um garoto maltrapilho tinha a sandália em uma das mãos e o salto na outra, e os entregou ambos à mulher, que jogou o salto no chão, ajeitou a saia e saiu andando, ainda tentando falar no celular. Passos à frente, aparentemente conseguiu fazer o celular funcionar, e repetiu num volume muito mais alto, a mesma frase, exatamente, que dissera antes, e que me fizera segui— la feito um cachorro pelas calçadas, esperando ganhar um pedaço de carne.

 

Continuei na minha perseguição, embora agora sob o visível mal estar que causava. Ela sabia da minha insistente presença e olhava o tempo todo para trás. Na próxima esquina, novamente com o farol vermelho para a travessia, novamente parou e se virou para mim:

 

— Por que o senhor anda me seguindo? O que deseja comigo?

— É sobre a frase que a senhora disse ao telefone lá atrás, e repetiu agora pouco…

Ela franziu a testa, ajeitou os óculos e me olhou franzindo os olhos, como se não estivesse realmente entendendo do que se tratava.

— Que frase? Do que está falando? Só pode ser maluco… Eu hein! — Ela fez uma pausa rápida, lambeu os lábios e, ainda com o celular colado à orelha, apontou para mim: — É melhor parar de me perseguir, ou eu chamo a polícia. Ora essa! Cada uma que aparece nessa cidade.

 

O farol abriu e ela atravessou tão rápido quanto lhe permitia usar uma sandália de quase dez centímetros de salto em apenas um dos pés. Era um movimento ao mesmo tempo engraçado e sensual, já que causava um rebolado inusitado. Eu tinha agora outro motivo para seguir aquela mulher, além da frase: tinha ficado excitado com aquela bunda sacolejante. Ignorei sua ordem e continuei a segui-la.

 

Tínhamos caminhado pouco mais de vinte metros quanto ela novamente estancou, e parecia não notar minha rebeldia. dobrou-se e retirou a incomoda sandália, e ainda falando no telefone, continuou a caminhar. Mantive-me a cerca de três metros dela até a próxima esquina, que ela atravessou mesmo com o sinal vermelho para pedestres, em meio a carros e xingamentos de motoristas. “Ai, olha onde anda, sua piranha!”, “Quer morrer, gostosa?!” e “Sua puta! Ainda arranja confusão aos outros!”, foram alguns dos comentários ditos em meio à buzinadas. Esperei o farol abrir sem perdê-la de vista, e depois apressei o passo até ficar quase colado a ela novamente.

— O senhor não desiste não? Que quer comigo, afinal? Dinheiro eu não carrego e o celular está danificado, então, que mais pode estar querendo ao me seguir por tanto tempo? Estupro? Ah, não tem jeito… — A mulher, sem soltar o celular, girou a cabeça a procura de alguma coisa. — Quando se precisa da polícia, nunca se encontra.

— Não precisa se preocupar comigo, não sou nenhum assaltante ou estuprador. Só quero mesmo que me fale a respeito da frase…

 

— Que frase, seu doido? Que frase eu tenha dito que o fez me perseguir desse jeito? Que porra de frase foi essa?

— Ah… Quando eu ia repetir, para que ela entendesse o porquê daquela frase ter me causado tanto efeito, um moleque passou correndo e lhe arrancou o celular da mão, deixando a marca de sujeira de seus dedos no pescoço branco dela.

— O desgraçado me roubou! Levou meu celular! Filho de uma puta! Maldito! Moleques dos infernos!

— Calma, senhora. Se quiser posso ir com a senhora até a delegacia. Se acalme!

— Calma porra nenhuma! Aquele infeliz me levou o celular, e eu estava resolvendo um assunto de máxima urgência. E agora.

— E esse assunto de urgência máxima dizia respeito à frase que disse lá atrás?

— Ah, que inferno! De novo o senhor com sua maldita frase. Nem sei de que está falando.

— Claro que sabe. Tornou a repeti-la outras duas vezes…

— Por que não me diz, então…

— Não… Uma ideia: quer usar o meu celular para continuar sua conversa?

— Posso? Acredite, é de…

— “Máxima urgência”. Entendo.

Enfiei a mão no bolso, e enquanto tateava pelo celular, olhava para o chão observando aquele belo par de pés descalços na calçada quente de cimento. Entreguei o aparelho junto com um comentário:

— Vai queimar os pés andando assim. Por que não sentamos naquele banco sob a árvore. Assim pode falar tranquila, sem ferir seus pés.

— Sim, obrigada!

Ela parecia mais calma, apanhou o aparelho e pude notar suas unhas longas e bem pintadas em mãos bem cuidadas. Nos sentamos no banco e ela acionou o aparelho, cruzou as pernas e começou a falar.

— Oi! É Virginia! Meu celular foi roubado. Um senhor emprestou o dele… Podemos continuar?

 

Ela se virava de costas, tentando fazer com que eu não pudesse escutar o que dizia, mas quando o fazia, a saia lhe subia e exibia cada vez mais de sua saia, deixando mais e mais a mostra suas coxas lisas e brancas. Ela repetiu durante os próximos cinco minutos a tal frase, mas agora aquilo não tinha mais a menor importância. Vez ou outra virava a cabeça em minha direção e fazia gesto com a mão, pedindo paciência pela demora em usar meu telefone. E eu respondia, também com gestos, que ficasse tranquila. Agora eu sabia seu nome, e tinha o tempo e o lugar apropriados para observá-la. Anotava mentalmente cada gesto dela, cada palavra, afinal, aquilo daria decerto um belo conto, que certamente eu escreveria ao chegar em casa. “Espero que um belo conto erótico”, pensei enquanto corria meus olhos pelas suas costas e descia até a bunda. Deixei a imaginação correr, e imaginei transando com ela, ali mesmo naquele banco de praça, enquanto ela falava ao telefone, e repetia aquela frase cada vez com mais excitação na voz.

 

Ah, o que são as palavras dentro da nossa imaginação. Que poderes mágicos elas tem quando se juntam dentro das paredes do nosso cérebro, e estão livres para serem elas próprias, agirem de forma totalmente livre. Quanta magia e sensualidade as palavras livres carregam, quando não estão à mercê de leis, julgamentos e moralidade. Elas ficam nuas e se entregam umas às outras, numa orgia, se completando e buscando mais. É uma pena termos que verbalizarmos as palavras pensadas, e aí elas perdem toda a magia.

 

Naquele momento, todas as palavras referentes a prazer e sexo me vinham à cabeça, e só o que eu conseguia pensar era sobre como eu as verbalizaria para Virginia para que não fosse tomado por maluco ou mesmo ir parar na cadeia, ou quem sabe tomar uma surra de uma mulher numa praça junto a uma rua de muito movimento. Ah, se ela pudesse ler meus pensamentos, e compreendê-los. Eu olhava fixamente para sua cabeça e imaginava todas aquelas palavras, acreditando que assim eu as pudesse transmitir a ela tudo o que eu livremente pensava. Vez ou outra ela parecia estar percebendo, pois passava a mão nos cabelos, na parte de trás da cabeça, como se quisesse ter certeza do que ouvia, ou se quisesse assimilar melhor.

 

Virginia continuava a tagarelar no celular e eu, dominado por um desejo incomensurável, passei a acariciar meu pau por cima das calças, sem me dar conta de que alguém poderia tachar minha atitude como ilegal e imoral. Quando ela repetia aquela bendita frase então, minha excitação tomava níveis absurdos, e as palavras mais sórdidas tomavam conta de minha mente e se juntavam. Podia ouvi-las gemendo, pedindo para que eu as deixasse sair e ir de encontro àquela mulher. Minhas palavras a desejavam, mas as dela ainda eram para quem fosse que falava ao celular. Palavras que na maioria da vezes eu não compreendia, mas que decerto eram de lascívia, pelo tom e trejeitos com que ela as ilustrava.

 

Finalmente Virgínia terminou sua ligação, virou— se para mim e estendeu o celular.

— Obrigada! — Sua voz era menos carregada agora, e parecia mais atenta a mim, menos irascível. Até mesmo seu olhar parecia mais adocicado. Decerto a conversa tinha tido um bom termo.

 

— Espero que tenha resolvido sua urgência máxima de forma agradável. — Eu tinha um milhão de palavras eróticas na cabeça, mas parecia que alguém tinha colocado uma porta de aço no caminho entre meu cérebro e minha boca. Só conseguia falar coisas bobas e insossas. Queria dizer que eu a queria foder, gozar, meter, chupar, enfiar meu pau na sua buceta, comer seu rabo, e coisas assim, mas só saiam palavras delicadas e idiotas como “Disponha” e outras banalidades, agradecimentos tolos que jamais me colocariam em cima ou embaixo daquele corpo. Repentinamente, a salvação me veio através de algo muito simples: a sua própria frase, repetida. A bendita frase que me carregara àquela situação:

 

— Quero foder com a primeira pessoa estranha que aparecer na minha frente hoje.

— O que é isso, senhor? O que está dizendo?

— Eu não estou dizendo, foi a senhora quem disse isso. Não lembra?

— Ah… Finalmente… A tal frase que eu disse parada esperando o farol abrir…

— Exatamente.

— Eu disse isso como …

— Que importa em que contexto disse, e por que disse.  As palavras quando reunidas em frases tem poder. Podem declarar uma guerra, salvar vidas, ou simplesmente despertar desejos incalculáveis.

— Era apenas uma expressão de ira, uma daquelas ameaças que a gente faz quando está nervosa, sem necessariamente desejo de cumprir.

— Usar palavras sem intenção prática pode se tornar perigoso. As palavras são seres vivos e podem se vingar.

— Podem? E de que forma esses seres vivos que chama podem fazer essa vingança?

— Fazendo com que sejam compreendidas e aplicadas. Sou um escritor, sei como torturar palavras até que confessem exatamente o que quero. Palavras são iguais a mulheres: fortes e independentes, mas dependendo de quem as manipula são capazes de demonstrar muito além do seu sentido mais estrito.

— Machista!

— Por quê? Porque eu falei em manipular mulheres e palavras? E se eu trocasse por homens? Ficaria contente? Não seja escrava dos sentidos ideológicos dados às palavras, de acordo com as conveniências. Como eu disse há pouco, as palavras podem se vingar por terem sido prostituídas.

— Prostituídas… Ah, entendi, o senhor pensa que sou uma prostituta sem cérebro, é isso? Por eu ter dito uma frase de desabafo totalmente inócua ao lado de uma pessoa que nunca conheci, isso me torna uma puta? É isso?

— Por que o preconceito?

— Preconceito? Eu?

— Sim, por que o preconceito contra putas?

— Não tenho precon…

— Analise a maneira como se referiu, como se putas fossem porcarias sem cérebro. Acha mesmo isso? Acha que chupar pintos e receber dinheiro por sexo abala o caráter de uma mulher? Pensa que dar o rabo reduz a capacidade cerebral? Não há nada na ciência sobre isso, Virginia… Aliás, Virginia é um belo nome… Virgem… Seria uma interessante uma puta com nome de Virginia. Eu conheci uma que se chamava Inocência.

 

A mulher deu uma gargalhada, mas sem perder a classe e a compostura. Era o tipo de mulher que é elegante mesmo quando está sendo escandalosa. Pude perceber os seios de médio volume balançando debaixo da blusa fina e os bicos se intumescerem. Aquilo decerto a excitara. Ela jogou a cabeça para trás e depois balançou os cabelos.

 

— O senhor é muito espirituoso. Gostei dessa!

— Tenho que ser, sou escritor, conforme lhe disse.

— E o senhor escritor tem nome?

— Tarso Torquato. Não sou um escritor famoso, nada como nosso querido conterrâneo Inácio, ou como Paulo Coelho, mas tenho alguns livros publicados.

— Que ótimo. Nunca conheci nenhum escritor, a não esses que postam besteiras na Internet.

— A Internet é um poço de mediocridade. Há mais escritores em Facebook do que leitores… Aliás, ali todos se consideram escritores, e não há portanto leitores… E não existem escritores sem leitores… Portanto…

— Gostaria de ler alguma coisa sua. Tem algum livro aí?

— Não, não tenho. Nunca ando com livros meus. Não sou daqueles que mal pode esperar para encontrar alguém a quem possa logo sacar um livro e escrever uma dedicatória idiota como se a pessoa fosse seu amigo de tempos.

— Uma pena. Gostaria de ler mesmo. Seus livros devem…

— Tenho em minha casa. Se quiser ir até lá qualquer hora, posso lhe entregar. Só não me peça dedicatórias e autógrafos. O que tenho a dizer está nos livros. Tenho minhas manias…

— E quando pode ser essa qualquer hora?

— Uma hora qualquer. Qualquer uma. A que quiser. Desde o agora até o nunca. É sua a decisão.

— Agora? É… Eu iria mesmo agora, mas estou sem sandálias… Estou descalça… E o que um escritor pensaria de uma mulher adentrando a sua casa com os pés nus?

— Ele não pensaria. E pediria que todo o resto do corpo da mulher estivesse feito seus pés.

— Excitante!

 

Entramos num táxi e desembarcamos em menos de quinze minutos na porta de minha casa. Nas próximas horas, todas as palavras de sacanagem que pudemos lembrar e dar vida se apoderaram de nós, e nós delas. Estávamos entregues à tanta luxuria que seria preciso criar um dicionário inteiro apenas com palavras sacanas, incluindo ai algumas que concebemos. Construíamos frases inteiras apenas com os nossos corpos, com direito a pontuação. Tínhamos exclamações e interrogações nas partes íntimas e vírgulas de fôlego para respirarmos entre as sentenças. Em poucas horas escrevemos um romance erótico, com inicio, meio e… Orgasmo. Apenas dois personagens, mas um único desejo; apenas um cenário mas um milhão de cenas possíveis. Libertamos as palavras e elas nos libertaram.

 

No final da tarde, Virgínia se virou na cama, me encarou firmemente e disse:

— Quero foder com a primeira pessoa estranha que aparecer na minha frente hoje.

— Sim, foi assim que começou…

— Assim começou e assim termina. Sempre termina assim.

— Assim?

— Quase assim. Realmente termina quando eu receber?

— Receber? Como assim?

— Ah, não diga que não entendeu… Achei que como escritor fosse mais esperto… São quinhentos contos.

— Quinhentos contos?

— Sim. Quatrocentos do programa e cem da sandália que eu quebrei.

— Sua puta!

— Sim, sou puta, sim. Algum preconceito contra putas?

— Mas não disse que era, muito menos falou o preço.

— Não falei por que não houve a pergunta. Acaso me perguntou?

— Realmente não. Certo. Tome o dinheiro. Mas antes, preciso lhe dizer que ainda não acabou, não.

— Acabou, sim.

— Não, só acaba quando a senhorita me pagar o livro.

— Pagar? Não era…

— Eu não disse que era, e ninguém perguntou o preço.

— O senhor me pegou. Tudo bem. E quanto é a porcaria do seu livro?

— Porcaria? Não creio que ficasse contente se eu dissesse que seu sexo foi uma porcaria. São quinhentos contos.

— Ficou maluco? Quinhentos contos por um livro? Ah…

— Não, são quinhentos pelas palavras escritas nele. O livro é de graça.

— Filho da puta! É um roubo cobrar tanto por um mero livro, mesmo o melhor do mundo.

— Muita gente acharia um roubo cobrar o mesmo por uma trepada, mesmo a melhor do mundo.

 

Enfurecida ela colocou a roupa, me deu o dinheiro e se foi, calçando os chinelos velhos que eu sempre deixava ao lado do box do banheiro.

 

 

25/06/2019

Barata Cichetto nasceu em São Paulo, Capital e atualmente mora em Araraquara, É escritor, poeta, artista visual, webdesigner e webradialista. Tem 26 livros publicados, desses 14 de poesia. Desistiu de escrever em 2020 e então fundou o BarDoPoeta.. Politicamente define-se como Liberal, e poéticamente como Anarquista-monaquista. Ama Rock’nRoll e musica barulhenta em geral. Nasceu no Ano da Graça de Madonna, Michael Jackson e Bruce Dickinson;.

 
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1 Comentário
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Aureo Alessandri

Bem legal !!!

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