Imagem: Internet (Sem Créditos Disponíveis)

Conto: Barata Cichetto – Aurora

Barata Cichetto


É quando a noite bafeja seu hálito fresco sobre a cidade, feito uma mãe a assoprar as queimaduras de um filho inconsequente no intuito de lhe diminuir a dor, que Aurora deixa seu apartamento de um quarto que é também todos os outros cômodos, e caminha lépida solene pelas calçadas amontoadas de sujeira em busca do Sol.

 

Aurora busca o Sol que por ela sempre espera quando a noite termina. Aurora tem a cor da noite nos cabelos, das estrelas no olhar e do desejo na pele. Mas Aurora não busca nem a proteção da noite, nem o brilho das estrelas, nem o desejo da carne. O que busca Aurora é apenas o dia. O Sol e seu calor, o Sol e seu brilho, o Sol e seu desejo.

 

E deixa ao chegar da noite, com a brisa embaraçando seus cabelos, o apartamento que é seu refúgio, sua trincheira e sua igreja. O balançar as ancas de Aurora enlouquece machos e fêmeas que pelas calçadas a seguem feito cachorro a cadelas no cio. E Aurora é sim uma cadela no cio. Um cio eterno, diuturno e soturno. Mas não o cio da carne, não o cio do orgasmo idiota e frívolo das bacantes e das putas e das cadelas em quem tropeça diariamente. Porque o cio de Aurora é coisa que transcende o carnal e transcende até mesmo o espiritual. Porque Aurora deseja o prazer do Dia transando com a Noite, do Sol com a Lua…

 

E diariamente ao deixar seu minúsculo apartamento Aurora espera chegar ao fim de sua busca. Mas todas as noites são idênticas e em todas elas existe o negrume, em todas as noites existe a incerteza e o pecado seguido do perdão. Em todas as noites existe o principio e existe o fim. Mas Aurora busca, caminha até machucar seus belos pés e caminha; caminha e procura com olhos fixos no horizonte aquilo que jamais, reconhece, poderá encontrar.

 

Aurora não tem história, não tem pecados nem tem porquês. A história de Aurora começa todos os dias quando a noite bafeja seu hálito fresco sobre a cidade… E acaba quando o Sol queima as nucas dos trabalhadores. Sempre, dia a dia, a história de Aurora começa e termina do mesmo jeito, repetindo, repetindo…

 

Mas num certo dia, Aurora decidiu que mudaria seu destino mudando sua história. — Mas podemos mudar nosso destino mudando nossa história, ou apenas podemos mudar nossa história mudando nosso destino?

 

— E então, naquele dia, deixou Aurora seu minúsculo apartamento com o cuidado ou o descuido de deixar a porta entreaberta, para que pudesse saber que aquele pequeno espaço ainda estaria a sua espera, ou para que alguém, finalmente pudesse penetrar sorrateiramente feito o Sol penetra nas frestas mais estreitas da uma janela.

 

E então, caminhou Aurora quase do mesmo jeito e quase da mesma forma de todos os dias, sem entretanto buscar o dia. E mais forte balançou suas ancas, e mais forte pisou o asfalto e mais forte enlouqueceu aos machos e as fêmeas. E procurou Aurora o orgasmo fácil das bacantes, entregando seu corpo a todos, machos e fêmeas que encontrou em seu caminho. E bebeu Aurora com as putas e os marinheiros da beira do porto. E saciou a sede dos cachorros, das cadelas e dos poetas. Saciou o desejo da Lua e das Estrelas, as putas do firmamento com seu brilho falso, inatingível. E matou Aurora a fome das lésbicas, das bichas e dos eunucos. Jogou jogos, pintou flores de preto e bordou um tapete de flores com seus cabelos. Foi pasto e foi grama, pisada e cuspida. E naquele dia Aurora foi! E foi aquilo que seu destino desejou. E o que sua história contou.

 

Nenhuma noite, nenhum dia começara e terminara daquela forma até então. E Aurora correu pelas ruas, nua e arranhada; machucada, ferida e drogada, porque a cidade a tinha possuído feito um cafetão, nojento e pervertido. E feito uma mãe possessiva, a tragara de volta ao ventre. E chorou Aurora antes do amanhecer. Sentada sozinha na beira da sarjeta. Seu pequeno apartamento tinha ficado tão distante que ela jamais encontraria o caminho de volta. Ou tão perto que ela não poderia enxergar?

 

Então seguiu Aurora as águas fétidas da sarjeta que corriam sobre as areias pútridas da beira do mar. Bebeu da urina dos gatos na praia e seguiu pulando ondas em direção ao chamado das deusas marinhas. Sereias de doces bundas e rabos de peixe. Mas as deusas nem os deuses do mar quiseram seu corpo e a devolveram nua, ás areias pegajosas da beira da praia, enquanto o mar era estuprado pelos cascos dos barcos de pescadores de pés descalços e barrigas enormes de cerveja.

 

Jamais retornaria Aurora ao refugio do seu minúsculo apartamento de um quarto que era o único cômodo. Seu corpo dilacerado pelos bicos famintos dos urubus e com crustáceos grudados em seu rosto, foi encontrado ainda durante o nascer do Sol por um pescador que, ainda com olhos inchados da noite sem dormir em busca do alimento em forma de peixes, jurara as autoridades ter visto o próprio Sol desviando daquele corpo de mulher que tinha a noite em seus cabelos e estrelas nos olhos…

 

E naquele apartamento, minúsculo de um quarto que era também todos os cômodos, o Sol penetra pela porta entreaberta e se deita solene e majestoso na cama que até a noite anterior pertencia a uma mulher chamada Aurora.

 

E ficou então, a partir daquele dia, o mundo ás escuras, porque o Sol nunca mais deixou aquele apartamento, a não ser quando chegava a noite e ele partia para cumprir o destino do qual Aurora fugira. E nunca mais o dia foi chamado de Dia. E nunca mais a noite foi chamada de Noite. E nunca mais o Sol foi chamado de Rei e a noite de puta.

 

Quanto a Aurora, seu corpo carcomido foi enterrado feito indigente, em vala comum em um cemitério na periferia da cidade. E nem o Sol sobre a lápide gelada de concreto deixou seu calor e sua luz, preso agora em um apartamento de um quarto que era todos os cômodos…

 

 

31/10/2010

 
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