Conto: Barata Cichetto – Aos Goles!

Barata Cichetto

— Aos goles! — Pediu a enfermeira. — Goles pequenos!

O remédio era tão ruim, amargo e pegajoso que lembrei até de minha mulher, ou melhor ex-mulher. Aquela desgraça que me jogou nessa merda de cama de hospital e foi embora com lésbica.

— Lentamente! Engula lentamente!

— Com que diabos alguém quer que a gente beba uma porcaria horrorosa daquelas “aos goles, lentamente”. Enfermeira sádica do caralho!

Dei um tapa na mão dela e o pequeno frasco estourou na parede com aquela meleca gosmenta parecendo catarro escorreu.

— Seu idiota! Perdemos o remédio. Sabe quanto custa esse medicamento! Se fosse pagar ia saber, mas como é do Estado…

— Com certeza custa mais caro que sua buceta!

— Acha mesmo que só por que está com câncer há três anos e tem poucos dias até morrer, que pode me ofender, é?!

— Ofender? Cê fica me torturando com essa merda de “aos goles, aos goles”, e eu que estou te ofendendo? Ah, se danar, sua gorda! Sua sapata do caralho!

— Isso é caso de processo! Homofobia é crime, sabia? E gordofobia, também.

— Me processa, sua idiota! Me processa!

— Seu machista cretino, homofóbico, gordofóbico e… Bicha enrustida!

— Bicha enrustida é teu pai! Aquele corno filho da puta.

A enfermeira me amarrou na cama. Era fácil, já que a porcaria da quimioterapia tinha me deixado muito fraco. Fosse em outros tempos… Depois entraram dois brutamontes de terno, com radiocomunicadores na cintura, e abriram à força minha boca, e a desgraçada enfiou uma talagada enorme daquela porcaria pela minha garganta.

— Aos goles, seu merda! Aos goles! Assim, assim mesmo! A titia gosta de pacientes calminhos.

— Chame o médico. Quero o doutor agora mesmo! Doutooooooooooooor!

Dez minutos depois, na porta, um sujeito de terno, gravata, cabelo penteado e com gel, tinha na mão uma pasta brilhante de couro. Atrás dele a robusta rolha de poço sorria:

— É ele, Doutor!

— O senhor é Doutor? Não sabia que médicos agora usavam ternos.

— Sou Doutor, sim. Doutor Cristiano M. P. F. de Almeida. — Ele pronunciava os pontos e até o ponto final. — Sou formado pela Universidade de Xiririca da Serra, e pós-graduado no Instituto Mula. Além do doutorado na Universidade Rousseff.

— Advogado…

— Bacharel em Direito, por gentileza!

— Certo. E o que um “devogado” quer comigo? Me obrigar a tomar aquela porcaria melequenta aos goles?

— O senhor está sendo processado por homofobia e gordofobia, além de um processo por maltratar funcionário público no cumprimento do dever.

— Processado? Por quem?

— Minha cliente aqui ao lado, enfermeira Diesel de Sousa, declarou que o senhor a chamou de “prostituta, obesa e lésbica”.

— Não, não chamei, não. Disse que a buceta dela era mais barata do que a merda do remédio, depois mandei ela se danar e xinguei ela de sapata.

— Isso é ofensa moral grave. Crime de preconceito, segundo a Lei é passível de pena de reclusão dois a cinco anos, além de multa. Além disso, tem a agravante de ter sido praticado contra um funcionário público, e pode aumentar em muito a sua pena. O senhor está encrencado, muito encrencado.

— Que estou fudido, disso não resta a menor dúvida. E eu ficaria muito feliz em poder cumprir a pena de não cinco, mas dez anos de prisão por chamar essa escrota de sapa gorda, mas acontece que não pretendo cumprir essa pena por motivos óbvios.

— Ninguém está acima da Lei, senhor. Caso seja condenado, a sentença será cumprida.

— Espero que a Justiça seja rápida no meu caso, então. Ou terão sérios problemas em me manter preso.

— O senhor pretende fugir da prisão? Isso não seria uma boa opção, já que recapturado sua pena poderá ser aumentada.

— Digamos que eu não pretendo fugir, mas garanto que a minha manutenção numa penitenciária tenha lá seus inconvenientes. O mau cheiro, por exemplo.

— Não se preocupe quanto a isso, temos um excelente sistema prisional e o senhor terá dinheiro a banho de sol diário e até mesmo peladas de futebol. Em algumas das nossas unidades, temos até mesmo shows de música. Semana passada na Penitenciária Dráuzio Varíola, tivemos a apresentação da Anita Cadillac, foi massa!

— Odeio a Anita Cadillac. Aquilo é uma puta… Não dá pra ser Iron Maiden?

— Outro processo, senhor. Está ofendendo moralmente uma figura publica. Siba que, entre outros clientes importantes represento também a senhora Cadillac, e aposto que ela irá adorar saber que o senhor a chamou de “prostituta”. O processo lhe renderá mais alguns anos de reclusão.

— Chamei de puta, não de prostituta. É bem diferente. Ademais, mais alguns anos não me fará diferença mesmo.

A enfermeira cochichou no ouvido do advogado, que balançou a cabeça e apanhou o celular onde digitou alguma coisa, depois ergueu a cabeça e de um passo á frente, quase me empalando com o bico dos sapatos:

— Minha cliente informa que o senhor também a molestou sexualmente quando se aproximou para lhe medicar.

— Bolinei? Quer dizer, passei a mão na bunda gorda dela, coisa assim? Ah, não, doutor isso não. Eu não passaria a mão nessa bunda preta.

— Agora o senhor está realmente ferrado. Agora temos crime de preconceito racial. Um crime hediondo, sem direito a qualquer tipo de atenuante. Sua pensa de reclusão decerto aumentou em muito.

— Sem problemas, não tenho nenhum problema quanto aos anos futuros, sobre onde estarei. Não mesmo. Acontece que eu não bolinei ninguém, isso não!

— Minha cliente afirma que sim. E isso é o que basta para lei.

— Ela diz que sim, eu digo que não, mas onde está a prova?

— Não é necessário prova. Ela afirma que o senhor a molestou, então, não é preciso provas. A palavra dela é o que importa.

— A dela vale como acusação, a minha não vele como defesa. Que merda! Como que posso provar que não fiz uma coisa? Como se prova o que não existe?

— Não se prova. Ela diz que o senhor fez, então está comprovado.

— Essa coisa me chamou de idiota!

— Idiota não consta como ofensa moral.

— Bem, muito bem, Doutor. Mas espero que o senhor agilize o processo, pois não devo ficar muito tempo à disposição da Justiça, não. E do jeito que os processos ocorrem lentamente… Meu tio morreu depois de dez anos esperando o resultado de um processo contra a ex-mulher dele que o roubou junto com o amante e ainda deixou o sujeito aleijado. Ele morreu e o processo nunca acabou.

— Em casos como o seu, existe celeridade processual. São crimes que contam com a rapidez necessária, para que a Justiça aconteça, afinal, temos dividas históricas com os afrodescendentes, com os homossexuais e com os obesos que precisam ser pagas rapidamente.

— Sabe qual é a divida histórica que eu gostaria de pagar, Doutor? Aquela trepada que eu dei com a puta da sua mãe há muitos anos e que resultou no nascimento de uma bicha escrota, e que não podia ser outra coisa senão um bosta de advogado.

— Agora seu caso está mesmo perdido. Qualquer Juiz adorará vê-lo preso o mais rápido possível. Acho bom o senhor arranjar um Advogado rapidamente.

Menos de meia hora depois a porta da enfermaria se abriu. Uma mulher trajada de toga segurava um martelo e era acompanhada por policiais e um grupo de umas dez ou doze pessoas. Atrás deles, o tal Advogado e outro homem de terno. Cadeiras e bancos foram sendo colocados em todos os lugares possíveis. A enfermeira entrou depois, escoltada por dois guardas e se sentou ao lado da mulher de toga.

— O Tribunal está sem seção, presidido pela Excelentíssima Juíza Carne Louca. Que o réu se levante!

— Ô meretríssima, creio que não será possível, já que esse leito está com defeito, e, além disso, estou amarrado.

— O réu tem algo a dizer em sua defesa?

— Tirando o fato de que essa megera sapata gorda e preta me torturava me fazendo engolir uma meleca nojenta e disse que eu era um canceroso idiota, nada tenho a declarar.

— O senhor declarou que não pretende cumprir as penas que este Tribunal o condenar, isso procede?

— Bem, senhora dona Juíza, não é que eu não pretenda. Pretender até que eu pretendia, mas acho que não será muito provável, não!

— O senhor está desacatando este Tribunal, e isso será levado em conta na sua sentença.

A enfermaria não tinha um milímetro de espaço. Um policial derrubou o suporte de soro que estava ligado no meu braço, a agulha se soltou e o sangue jorrou. Foi uma correria dos infernos. Desesperada, a Juíza batia com o martelo:

— O réu está sangrando. Possível tentativa de suicídio para fugir a condenação.

Uma enfermeira entrou correndo e foi até meu leito. Abriu minha boca, e enquanto dois guardas me seguravam, aplicou uma injeção e depois abriu minha boa na marra e enfiou aquela merda limbosa e amarga na minha garganta:

— Aos goles, senhor, aos goles!

— Aos goles da puta que te pariu! Sua branquela filha da puta! Aos goles vai ser a minha porra descendo pela sua goela quando eu enfiar meu pinto na tua boca. Sua vadia!

— O prisioneiro é perigoso. Guardas, amordacem-no!

A enfermeira, a primeira, me olhava com ódio e fazia gestos obscenos que diziam: “se fodeu, tomou no cu” e mordia os lábios. A Juíza a chamou ao banco das testemunhas, que era de fato a escadinha da cama hospitalar. Ela tropeçou no pinico antes de se sentar.

— Senhora dona Juíza, eu sou pobre, nasci da comunidade onde moro. Tenho doze filhos, e nenhum dos onze pais deles nunca me ajudaram, por que a maioria por que era de uns coitados que se tornaram assaltantes, traficantes…

A mulher deve ter contado sua historia durante horas, não sei, por que assim que a porcaria melequenta fez efeito eu dormi. Acordei com o martelo da Juíza batendo:

— O que o júri decidiu? O réu é culpado ou inocente?

Dois médicos e duas enfermeiras entraram no quarto correndo, tinham máscaras e tubos nas mãos. Todos se espremiam tentando passar por entre as pessoas que lotavam o quarto. A Juíza pedia calma, o Advogado se penteava e as pessoas do Júri tiravam fotos com o celular para decerto depois postar na Internet. A enfermeira gorda e preta e sapatão se juntou às outras e segurava outro frasco daquela porcaria.

A ultima coisa que lembro antes de morrer foi de tê-la mandado tomar no cu… Aos goles!

 

20/05/2019

 
Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
Assinar
Notificar
guest


Atenção: O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais ao autor, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

 

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Site Criado Por Barata Cichetto - (16) 99248-0091