Centípede, A Sociedade das Águas (Onde Anda Benjamim?)

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Barata Cichetto

Quando Benjamim nasceu ele tinha exatos trinta e três anos. E quando escrevo isso, estou sendo exato, pois não me refiro a uma pessoa que tinha tal idade à época do nascimento de Benjamim, mas a ele mesmo, o próprio Benjamim.

Seria um estranho caso? Sim, poderia ser um caso estranho, acaso não fosse essa apenas uma frase que me ocorreu numa madrugada insone. A maldita frase ficou ribombando dentro da minha cabeça igual aos trovões que não haviam naquela calma noite, que aliás nada tinha de estranha.

A não ser por um insistente som de uma folha metálica, ou coisa parecida, que pareciam as dobradiças do meu cérebro abrindo e fechando. A noite inteira. E aquele som, que não posso me referir como maldito ou bendito, causou-me com certeza, pensamentos aterrorizantes.

E o que faz um velho escritor, cansado de insistir num trabalho que não lhe recompensa em absolutamente nada, a não ser essas claustrofóbicas noites de insônia, que o faz contar cada minuto que passa no visor do rádio relógio de cabeceira, e perceber frases idiotas que espera e pretende serem a panaceia da sua literatura?

Sentei na cama. Minha mulher dormia um sono abundante, tranquilo e barulhento. Aquelas imensas doses de remédios providenciavam isso, além de uma bela conta mensal na farmácia da esquina. Há anos ele só conseguia dormir a custa de ao menos uma dezena de comprimidos engolidos à seco. Eu preferia mesmo a insônia, que de certa forma me era útil, pois por causa dela eu tinha escrito centenas, milhares de estórias.

Economicamente, a insônia é algo muito mais positivo, pois além de me provocar pensamentos e me fazer escrevê-lo, na ânsia de me livrar deles, ainda alimentava minha esperança de um dia ser um escritor com algum livro exposto na vitrine de alguma livraria da cidade. E assim receber algum trocado. Ao menos era a matemática que me dava conforto àquelas noites irritantes.

Apanhei o notebook que dormia sobre a cômoda, abri e comecei a digitar a tal frase que me acorrera, e que insistia em ficar martelando. A desgraçada ficava ali, grudada no meu cérebro, e junto com aquele maldito som de dobradiça me faziam pensar em acorrer aos comprimidos que minha mulher guardava numa caixa de plástico. Melhor não, pensei. Melhor é acender um cigarro e escrever logo essa maldita frase. Quem sabe assim ela me deixa em paz e eu posso dormir sossegado, ao menos por algumas horas.

Desci a cozinha com as duas gatas nos meus calcanhares, enchi a caneca de água e acendi o fogão. Um café me daria a concentração necessária para escrever, quem sabe, a grande história. Aquela que me daria a oportunidade de ser um escritor que daria entrevistas na televisão, participaria de tardes de autógrafo, coisas assim.

E eram esses os pensamentos recorrentes que me passavam pela cabeça enquanto esperava a água ferver. Era quase um filme. Em minha cabeça, frases e imagens de um apresentador perguntando sobre como eu começara a escrever, sobre meu processo de criação, e essa besteirada toda que perguntam a escritores famosos.

O som da água borbulhando na caneca me fez retornar à realidade. Preparei a garrafa térmica, coloquei o pó de café e coloquei a água. em poucos segundos, o cheiro do café inundou a cozinha. Minha boca salivou, pressentindo aquele sabor inigualável de um café quente sendo bebido. A melhor coisa do mundo, numa madrugada de insônia, é beber várias xícaras de café, pensei.

Tomei duas. Talvez três. Acendi o cigarro e subi para o quarto. Sentei-me na cama, olhei para as coxas de minha mulher que estavam descobertas e senti um enorme desejo. Mas depois de vários murmúrios ininteligíveis, e um compreensível chute no meu saco, percebi que não seria naquele momento que eu conseguiria algum tipo de prazer.

Não. Era melhor eu retornar a tal frase e escrevê-la de uma vez, para que, liberto daquele tormento, tal qual o corvo maldito de Poe a lhe dizer “Nunca Mais!” me tirava o sono. E então tentei ligar o computador: bateria descarregada. Desisti. Na manhã eu escreveria a tal frase, que decerto era o principio de meu romance milionário. Mas e se de manhã eu a esquecesse, como normalmente acontecia? A frase tinha uma construção perfeita para o início de um romance, e eu provavelmente não lembraria de sua sequencia exata. Entrei em pânico com essa ideia e tentei encontrar, na escuridão do quarto, uma folha de papel. Encontrei, mas não havia uma caneta.

Fiquei repetindo a frase. Primeiro mentalmente, depois em voz alta, para que não a esquece, caso viesse a dormir. Devo ter passado umas três ou quatro horas fazendo esse exercício, que só era interrompido para tentar entender de onde vinha o maldito som de dobradiça. Quando dei por conta, a claridade do dia já invadia o quarto iluminando os olhos dos bichos de pelúcia de minha mulher, que me davam bom dia de cima da prateleira de madeira defronte a cama.

Estiquei o braço em busca de outro cigarro no maço. Havia acabado. Olhei no relógio, seis da manhã em ponto. A padaria da esquina abria nesse horário. Vesti a roupa, passei a mão pelos cabelos e sai para a rua, bocejando e com os olhos ardendo pela falta de sono.

Os funcionários da padaria ainda estavam terminando os procedimentos de abertura, o pão cheirava a quente e tive que esperar longos minutos no caixa para comprar meus cigarros, enquanto senhoras de roupa de dormir pediam pão, leite, mortadela e presunto. O cheiro da mortadela sendo fatiada me embrulhou o estomago. Queria pegar logo meus cigarros e sair dali correndo. O cheiro de mofo das roupas de dormir me dava náuseas, mas a funcionária do caixa, ainda esperava a iniciação do sistema de computador para me atender. Eternos e nauseantes minutos.

Enquanto esperava, já um tanto impaciente, a frase “Quando Benjamim nasceu ele tinha exatos trinta e três anos…” martelava em minha cabeça. Não podia esquecê-la e ficava a todo momento repetindo. — Será que essas pessoas não entendem que preciso logo ir embora para escrever o livro da minha vida? — pensava, enquanto a fila no caixa da padaria aumentava.

Éramos seis pessoas agora. Eu era o primeiro, mas quando a funcionária começou a cobrar as compras, percebi bem ao meu lado, um senhor, muito idoso, com cabelos totalmente brancos, encarquilhado e apoiado numa bengala suja e velha. Ele me olhou, mas não disse nada. — Pode ir na minha frente, senhor, disse eu quando a funcionária começou a chamar.

— Bom dia, Senhor Benjamim! O que vai querer? O mesmo de sempre?
— Benjamim? — Quase gritei, com a funcionária dando um pulo, assustada, atrás do balcão. — Seu nome é Benjamim? — A pergunta que pareceu idiota a todos dentro da padaria, a mim era tudo, menos idiota.
— Sim, respondeu o ancião. Benjamim. Por causa do Franklin. Meu pai era fanático por eletricidade. Era eletricista de profissão. Eu também sou eletricista. O pobre homem morreu eletrocutado no dia em que eu nasci, em circunstâncias estranhas. Nunca me contaram exatamente como, mas é fato.

Eu não sabia o que fazer, qual seria a melhor reação. Se contava ao homem o porquê do meu espanto. Ele não pareceu se incomodar. Então era melhor eu ficar quieto, pegar meus cigarros e dar às costas àquele Benjamim de carne e osso, que, aliás, eu nunca tinha visto antes, embora fosse frequentador assíduo daquela padaria.

No entanto, como a curiosidade, especialmente quando acontece algo inesperado, é inerente ao ser humano, soltei a pergunta, pela qual eu me arrependeria pelo resto da minha existência:
— Me diga, senhor Benjamim, qual é sua idade?
— Eu tenho noventa e três anos, mas, mesmo que não acredite, eu nasci com trinta e três.

O velho disse isso e todos dentro da padaria riram alto. Todos. Menos ele.
E eu, que desmaiei.

Do Livro:
Desgraçados e Outras Novelas Curtas
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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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Eduardo Schloesser
04/03/2024 21:45

Ótimo conto, muito bem escrito e um final inesperado para coroar o sucesso! Congrats!