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Broken Mirrors

Renato Pittas

Prólogo

Tantos enganos nos cercam, misoginias, racismos, homossexualismo e outros ismos, modos de criminalização, vai por aí destruindo a privacidade inegável de cada vida, violam em nome de um conservadorismo autoritário, baseados em tradições opressoras ao desenvolvimento ético e moral pessoal, interesses voltados para a idiotização moral e um nome da polaridade provocada pela dita tradição bíblico moral, discurso qual os maquiavélicos se validam em nome de um ser transcendental.

Broken Mirrors

Na cidade, onde as sombras eram mais reais que as pessoas, vivia um jovem. Ele caminhava pelas ruas tortuosas, onde os prédios se inclinavam como se estivessem cochichando segredos uns aos outros. Cada esquina revelava um novo engano, uma nova faceta da cidade que parecia ser um reflexo distorcido da realidade.

Sabia que estava cercado por inúmeras formas de opressão. A misoginia, o racismo e a homofobia eram fantasmas que rondavam os becos, sussurrando palavras venenosas no ouvido de quem estivesse desavisado. Os modos de criminalização estavam por toda parte, como redes invisíveis prontas para capturar qualquer um que ousasse ser diferente.

Um dia, encontrou uma porta dourada no fim de um beco escuro. Sem pensar duas vezes, ele a abriu e entrou. Do outro lado, encontrou-se no Palácio dos Espelhos Quebrados, um lugar onde a realidade e a ilusão se entrelaçavam de maneiras impossíveis de descrever.

As paredes do palácio eram feitas de espelhos fragmentados, cada pedaço refletindo uma versão diferente do mundo. Em um espelho, ele viu um mundo onde todos eram iguais, vivendo em harmonia. Em outro, viu uma sociedade dominada por um conservadorismo autoritário, onde tradições opressoras sufocavam qualquer tentativa de desenvolvimento ético e moral.

Caminhou pelos corredores, sentindo o peso dos olhares dos espelhos quebrados. Ele percebeu que estava sendo observado, não por pessoas, mas por ideias, preconceitos e medos personificados. Cada reflexo era uma faceta de um sistema que buscava idiotizar a moralidade, promovendo uma polaridade nociva baseada em uma interpretação deturpada da tradição bíblico moral.

Em um canto do palácio, encontrou um espelho maior, quase intacto, exceto por uma rachadura no meio. Ao se aproximar, viu seu próprio reflexo se dividir em duas metades: uma representando a conformidade com os valores opressivos, e a outra a luta por liberdade e justiça. As duas metades começaram a conversar, debatendo sobre o significado de ser ético em um mundo tão corrompido.

A metade conformista falou sobre a necessidade de ordem e tradição, validando-se em nome de um ser transcendental. Alegava que apenas seguindo essas tradições, a sociedade poderia manter-se estável. A outra metade, porém, argumentava que a verdadeira moralidade vinha da empatia e do respeito pelo outro, independentemente de suas diferenças.

Ficou ali, ouvindo o debate entre suas duas metades, sentindo-se dividido. Sabia que a resposta não era simples. O palácio começou a tremer, como se a própria estrutura estivesse questionando sua existência. Os espelhos começaram a se despedaçar, caindo ao chão em mil fragmentos brilhantes.

Quando o último espelho caiu, encontrou-se de volta às ruas de Refletir. Mas algo havia mudado dentro dele. Ele compreendeu que, para mudar o mundo, era necessário enfrentar os espelhos quebrados da sociedade, desafiando as tradições opressoras e buscando uma nova ética baseada no amor e no respeito.

Assim, continuou sua jornada, decidido a transformar Refletir em um lugar onde todos pudessem ver seus verdadeiros reflexos, livres de enganos e opressões. Ele sabia que seria uma luta longa e difícil, mas estava preparado para enfrentar cada espelho quebrado em seu caminho, na esperança de um dia reconstruir um mundo mais justo e humano.

Prosseguiu em sua jornada, guiado pela recém-descoberta determinação de confrontar as sombras da cidade. Cada passo que dava reverberava pela cidade, ecoando como um desafio às estruturas opressoras que mantinham os cidadãos presos em espirais de ignorância e medo.

Encontrou aliados em lugares inesperados. A primeira, uma jovem ativista que lutava contra o racismo e a misoginia. Ela havia perdido a família para a brutalidade policial, e sua dor se transformara em um ardente desejo de justiça. Tornaram-se inseparáveis, compartilhando histórias de resistência e planos para desmantelar os sistemas de opressão.

Juntos, começaram a organizar reuniões secretas em porões escondidos e em parques à noite, longe dos olhos vigilantes dos agentes do conservadorismo autoritário. Cada reunião atraía mais pessoas – trabalhadores explorados, jovens marginalizados, artistas reprimidos. As ideias floresciam nesses encontros, como flores nascendo em meio ao asfalto rachado.

Um dia, descobriram um velho livro em uma biblioteca abandonada, intitulado “A Ética do Respeito”. O livro continha ensinamentos de pensadores que desafiavam as tradições opressoras e defendiam a valorização da diversidade e da empatia. Eles começaram a distribuir cópias do livro, escondendo-as em locais estratégicos para que a mensagem se espalhasse.
Enquanto isso, os maquiavélicos que controlavam a cidade começaram a sentir a mudança no ar. Eles intensificaram sua repressão, espalhando propaganda que demonizava Eles e seus aliados. Mas o movimento já havia criado raízes profundas. As pessoas estavam começando a ver através dos espelhos quebrados e a questionar a realidade que lhes era imposta.

Uma noite, enquanto Eles discutiam seus próximos passos, um grupo de mascarados invadiu seu esconderijo. Foram levados à força para uma prisão subterrânea, onde encontraram outros dissidentes. A prisão era um labirinto de escuridão e desespero, projetado para quebrar os espíritos mais fortes.

Mas não estavam dispostos a desistir. Mesmo na escuridão, eles encontraram maneiras de comunicar esperança e resistência. Ele desenhava mensagens nas paredes com pedaços de carvão, enquanto ela cantava canções de liberdade. Lentamente, começaram a ganhar a confiança dos outros prisioneiros, transformando o medo em solidariedade.

O tempo na prisão foi uma prova de fogo, mas também um catalisador para o movimento. Do lado de fora, seus aliados continuaram a lutar, organizando protestos e divulgando as mensagens que eles haviam iniciado. A cidade começou a acordar, com mais e mais pessoas se juntando à causa.

Finalmente, um levante irrompeu. As ruas encheram-se de manifestantes, desafiando as forças conservadoras com coragem e convicção. A prisão foi invadida, eles foram libertados. O palácio dos espelhos quebrados, símbolo da opressão, foi tomado pelo povo e transformado em um centro ias, cultura e aprendizado.

Agora líderes reconhecidos do movimento, continuaram a trabalhar incansavelmente para reconstruir Refletir. Eles sabiam que a luta estava longe de terminar, mas também sabiam que haviam acendido uma chama que não poderia mais ser apagada. Cada espelho quebrado era um passo em direção a um futuro onde todos pudessem ver seus verdadeiros reflexos – livres, iguais e respeitados.

E assim, a cidade começou a se transformar em um lugar onde a diversidade era celebrada, a empatia era a base das relações e a verdadeira ética florescia, guiada pelo respeito e pelo amor ao próximo. A jornada deles havia apenas começado, mas o horizonte agora brilhava com a promessa de um amanhã mais justo e humano.

Os anos passaram, mas a memória da luta permanecia viva. A cidade havia mudado, mas os ecos do conservadorismo autoritário ainda rondavam, como sombras persistentes que recusavam desaparecer completamente. A transformação não foi imediata, mas um processo lento e doloroso de desconstrução e reconstrução.

Agora com cabelos grisalhos, sentia o peso dos anos e das batalhas travadas. Se tornara uma figura emblemática, mas também um homem marcado por cicatrizes internas e externas. A luta contra os espelhos quebrados o havia transformado profundamente. Cada passo que dava era um lembrete dos sacrifícios feitos e das vidas perdidas pelo caminho.

Uma noite, enquanto caminhava pelos corredores agora renovados do antigo Palácio dos Espelhos Quebrados, foi tomado por um sentimento avassalador de desolação. Parou diante de um espelho ainda intacto, um dos poucos que sobreviveram à revolução. Ao olhar seu reflexo, não viu apenas um homem envelhecido, mas todas as versões de si mesmo que haviam lutado, sofrido e crescido.

O espelho parecia sussurrar, trazendo de volta vozes do passado. Ele ouviu os gritos de injustiça, os clamores por liberdade, os sussurros de resistência. Mas, acima de tudo, ouviu sua própria voz interna, dividida entre a exaustão e a esperança. As rachaduras do espelho refletiam as fraturas de sua própria alma, cada uma contando uma história de dor e superação.

Sentiu uma mão suave em seu ombro. Era ela, agora uma líder respeitada, cujos olhos ainda brilhavam com a mesma chama de outrora. Ela o abraçou e, juntos, olharam para o espelho. “Estamos tão perto.”, ela disse, com uma voz suave mas firme. “Mas a verdadeira transformação começa dentro de nós.”

Essas palavras penetraram profundamente. Compreendeu que a luta externa era apenas uma parte da batalha. A verdadeira revolução era psicológica, uma transformação interna que exigia confrontar os próprios demônios, os próprios preconceitos e medos. A ética e a moralidade que eles buscavam construir no mundo externo precisavam, primeiro, ser cultivadas em seus corações.

Decidido a enfrentar essa nova fase da luta, começou a promover círculos de introspecção e cura entre os cidadãos. Eles incentivaram todos a olhar para seus próprios espelhos internos, a confrontar suas sombras e a construir uma ética baseada na empatia e no respeito genuíno.

As sessões foram intensas. As pessoas choravam, riam, gritavam. Elas confrontavam os traumas de suas vidas, as injustiças que haviam sofrido e perpetuado. Foi um processo doloroso, mas necessário. Lentamente, Refletir começou a se curar de dentro para fora. As sombras começaram a desaparecer, substituídas por uma luz de compreensão e aceitação.

Sentiu uma paz crescente em seu coração. Sabia que a luta nunca terminaria completamente, mas também sabia que havia plantado sementes de mudança profunda. Olhou novamente para o espelho, e desta vez, viu um reflexo completo, harmonioso. As rachaduras ainda estavam lá, mas agora eram parte de uma imagem maior e mais bonita.

A cidade se transformou em um farol de esperança e resiliência. A cidade tornou-se um exemplo de como, ao enfrentar nossos próprios espelhos quebrados, podemos construir um mundo mais justo e compassivo. Eles, continuuaram a guiar sua comunidade com sabedoria e amor, sabendo que a verdadeira revolução começa no coração de cada um.

Não apenas como uma cidade, mas como um símbolo eterno da luta e da transformação. As vozes dos que lutaram e dos que amaram ecoavam pelas ruas, lembrando a todos que a verdadeira mudança começa dentro de cada um de nós.

Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador.
Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs

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