Pintura em Tela, by Barata 2020

Borrões

Compartilhe!

Barata Cichetto


1 –

Quero pintar. Com as tintas que tenho. Que de onde venho. Se chama tintura. Quero fazer da pintura. Meu retrato mais fiel. Da infidelidade literária. Pinto tão mal quanto escrevo. Mas não devo. Me preocupar. Que se preocupem os outros. Que não sabem escrever. Nem sabem pintar. Só lamentar. Um lamento frouxo. Feito piada de Grouxo. Marx. E eu. Que não sofro nenhum mal. Que possa lamentar. A não ser a respeito de não me respeitar. E agora ao completar. Sessenta e dois. Deixo o depois para depois. Antes de me lamentar. E se não for por dois. Que seja por outros dois. Ou quatro. Ou nenhum. Quero apenas pintar. Da cor que pintar. A dor. A flor. E o que for. De pintar. Um quadro esquizofrênico. Não acadêmico. Endêmico. Feito doença. Feito crença. Feito poesia de pintar. Sou pintor. Talvez ator. Quiçá um cantor. Desafinado. Cansado. Mas sempre inspirado. A pintar. A jogar merda no ventilador. Tinta na tela. E palavras no papel. Sou. E que não for que fique. Fico comigo. Ou como disse Pessoa. Com todos os meus comigos. Na tela. Cheia de borrões. Sem sentido. Porque tenho sentido. Que preciso pintar. Seja o que for. De se pintar. Borrões!

Pintura Em Tela - Barata 2020

2 –

Eu quero pintar numa tela o teu rosto. Mas será por desgosto, não por afeição. Quero pintar sua face, apenas por disfarce de minha aflição. Pintar teu sorriso, mas não por alegria, mas por contradição. Quero pintar num quadro a tua cara. De descarada. Quero pintar teu perfil. De vermelho sangue. Com corte nos lábios. Quero te pintar. Jogar tinta no teu corpo. Como uma tela de linho. E esparramar vinho. No teu cobertor. Ejacular minha tinta na tua pele, mijar na tua cara. Feito cachorro de pintor. Pintar flores sem cores. Apenas dores. Flores mortas. Secas e fedorentas. Pintar de frente, como quem desenha uma serpente. E te pintar sem cor, porque roubou minhas cores, minha paleta. E pintar com o liquido da minha punheta. Tua buceta oca. Sem prazer nem remédio. Te pintar sem tintas, transparente feito tua sina. Tua moral assassina. Com jeito de falsa menina. Quero te pintar. Escorregadia e crua. Feito pizza mal assada. E escrever “Vadia” na tela. E “Puta” na tua testa. É o que resta. A quem não presta nem para ser modelo de um pintor falido. Fudido e mal pago. E ainda quero pintar tua estampa na minha tela. Tão bela e tão cruel. Quanto uma megera. A Gioconda do Bixiga, a Madalena do Gólgota, a Marylin Monroe de saia levantada na Estação Anhangabaú. Quero te pintar. De roxo! Da cor das tuas olheiras. Quero riscar tua pele com faca. Desenhar um coração sangrando. Flechado. Fechado. E escrever dentro dele. Com teu próprio sangue: “Amor de pica é o que fica!” Quero pintar. Com tinta transparente. Teu couro de serpente. E de repente. Ser conivente. Com teu pecado. Da cor da maçã. Quero te pintar da cor do sol. E cobrir com um lençol. Feito obra de estátua inacabada. Ou feito cadáver insepulto na estrada.

25/06/2020

Do Livro:
Pornomatopéias
À Venda Pela Plataforma UICLAP
https://loja.uiclap.com/titulo/ua47842/

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

5 1 Vote
Avaliação do Artigo
Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários