Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 8

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Barata Cichetto


Nos idos de 1975, ao que me lembro, meu eterno amigo Gordo, me perguntou se já tinha escutado o Kaleidoscópio.. Não tinha, mas a partir daí, de segunda a sexta-feira eu ia dormir as duas da manhã, depois de terminado o programa. Com um rádio de pilha sintonizando a Rádio América, uma rádio pertencente à Igreja Católica, e ouvindo Black Sabbath, Supertramp, Yes, Genesis e brasileiros como Novos Bahianos, Platô, Walter Franco etc. Um parênteses aqui com relação aos termos usados: um agrupamento de músicos não era ainda chamado de “banda”, que chegou depois, mas sim de “conjunto”. Além disso, sempre uma voz pausada, o totalmente chapado Jacques ainda oferecia entrevistas com artistas “underground”. Algumas das que jamais esqueci foram com o casal de poetas Nano e Gê, que eu logo eu viria a encontrar e conhecer Yara, filha deles e que fora a inspiração de uma das músicas do Walter. Nessas entrevistas também Valdir Zwetsch (Se não estou enganado, atualmente diretor de Jornalismo da Record), na época ainda um cabeludo jornalista que lançara um livro que eu adquiriria no lançamento na Livraria Brasiliense, da Rua Barão de Itapetininga, chamado “O Fabricante de Sonhos”.

O Kaleidoscópio foi o responsável pela minha queda de produtividade como “Office Boy” e “Arquivista”, porque ir dormir as duas da manhã e acordar as 6 diariamente derruba qualquer um. Mas durante anos convivi com essa rotina, com exceção das sextas-feiras, quando colocávamos um rádio maior na calçada e ficávamos escutando até o fim, bebendo caipirinha e contando histórias. Exceto também um dia no mês, quando o Kaleidoscópio perdia audiência para as “Sessões Malditas” do Cine Metro, na Avenida São João, onde eram exibidos filmes de Rock, como “Janis”, “Zabriskie Point”, “Woodstock”, etc. E para ali, onde hoje infelizmente é a sede de uma seita crente, ia eu. A galera era pirada, assistíamos aos filmes sentados no chão, todo mundo fumando e tomando umas dentro da sala de projeção mesmo, e depois saíamos e perambulávamos pelas ruas do centro até amanhecer. Nesses momentos surgiram poemas, musicas, namoros, transas, papos, amizades…

Cinema é um capitulo importante em minha história. Além das sessões malditas acima citadas, existiam inúmeras opções na época: O Cine SESC da Augusta era um espaço muito legal, que tinha uma área no fundo da plateia em que tinha um bar e gente podia comer, beber e fumar enquanto assistia ao filme, pois havia um vidro em toda a extensão que nos permitia ver a tela. Alto falantes eram espalhados pela área. Ali eu me lembro de ter assisto “O Fantasma do Rock”, uma versão Rock do “Fantasma da Ópera” e “Joe Cocker e a Turma da Pesada” (The Mad Dogs and Englismen). Outro espaço fantástico era o Cine Biju, na Praça Roosevelt, um cinema bem pequeno, mas com uma programação enorme de filmes de arte. Foi lá que assisti em duas oportunidades “Corrida Contra o Destino” (“Vanishing Point”), além de alguns filmes de Godard (chatos), Glauber Rocha (idem) e Felini (não… esse genial). E mesmo no circuito comercial, as salas de cinema exibiam filmes de Rock, como Tommy, que eu assisti 27 vezes, quase todas no Cine Barão, e quase todas acompanhado de minha amiga lésbica Yaracy. Assistíamos à sessão e íamos pra lanchonete da Mesbla onde ficávamos até o fim da noite discutindo personagens, cantando musicas, analisando hipóteses para diversificações… Enfim…

Mas, além dos filmes de Rock eu assistia de tudo na tela. Trabalhava na recém inaugurada Nova Paulista, que tinha dezenas de salas e eu costumava ir de segunda a sexta diariamente a um cinema diferente, isso depois de jogar “Pinball”, num dos muitos “Fliperamas” que ali existiam, na esteira da moda lançada por “Tommy”. A Avenida Paulista sempre foi um marco da cidade e ali também se concentram inúmeras livrarias, como a ainda existente e gigantesca Cultura no Conjunto Nacional e outras menores onde eu adquiria livros e revistas como a “Rock, a História e a Glória”, “Musica do Planeta Terra” (do genial Julio Barroso) e tabloides como “Movimento”, “Opinião” e “O Repórter”. De uma delas era particularmente assíduo, na entrada do recém inaugurado Edifício Sir Winston Churchill (quase em frente ao conhecido na época como o “Prédio da Gazeta” e hoje como “Prédio do Objetivo”) onde também ficava a dupla de cinemas “Gemini”. Não recordo o nome da livraria, mas comprei ali muitas publicações “underground”, como a Revista “Versus”, (a quem eu faria uma justa homenagem muitos anos depois colocando o nome numa publicação minha) e quadrinhos como “Rango” e “Fradim”. Foi ali que tomei contato com o “Cogumelo Atômico”, feito em Brusque, SC e cujo editor “Luís Tout Court” viria a ser um grande amigo, e parceiro em algumas das minhas coisas, como na edição do meu primeiro livro, mimeografado, de poesias chamado “Arquíloco” e do único numero do meu “jornalzinho” (não eram chamados de “fanzine”, não), o “Pipoca”.

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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