Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 7

Compartilhe!

Barata Cichetto


Segundo algumas fontes, a máquina de escrever foi inventada em 1714, mas só foi descoberta por mim cerca de 260 depois. E foi a maior invenção da humanidade até hoje. Nada se compara, àquele que gosta de escrever, ao telec-te-tec-tec dos tipos metálicos de letras invertidas presos à ponta de hastes também metálicas que, quando pressionadas as teclas correspondentes, são empurradas de encontro a uma folha de papel presa a um cilindro de borracha. O som é produzido pelo impacto no papel e é aumentado quando se deixa solta a haste feita para deixar o papel rente ao rolo. E era assim que eu gostava de datilografar, com essa haste solta para “amplificar” o som. E foi com esse instrumento que imprimi a maior parte dos meus escritos, poemas e contos até o final da década de 1980. Criei um dispositivo que consistia simplesmente de uma tábua apoiada nos dois braços de uma poltrona sobre o qual era colocada a máquina. As folhas de papel, no chão mesmo, ao lado do cinzeiro e da garrafa de café. Eram meus companheiros inseparáveis, a máquina de escrever, o cinzeiro e a garrafa de café. Minha máquina de escrever era um tanto diferente, tinha um “design moderno”, era vermelha e tinha por nome original “Valentine”, que eu traduzi para Valentina, que era o nome de uma bibliotecária por quem eu era apaixonado. Valentina, a bibliotecária, era meio gordinha, usava óculos fundo-de-garrafa, mas eu tinha um enorme tesão por ela. Era meu sonho de consumo: Sexo e Livros. E eu ia até aquela biblioteca quase todo dia, pegar algum livro e ver Valentina. Devorava os livros rapidamente para poder ir até a biblioteca. Devorava os livros e queria devorar a bibliotecária. Tinha sonhos eróticos, de transar com Valentina sobre uma pilha de livros, comê-la entre as estantes. Mas nunca cheguei a transformar em realidade o que lia nos livros de Henry Miller que pegava.

Entre poesias e contos, também criei um fichário que cabiam umas quinhentas folhas, onde era datilografadas e catalogadas letras de musica, sempre com um código ligado ao catálogo de discos. Todos os meus LPs eram codificados com um numero e letra e organizados com uma etiqueta adesiva colada no topo da capa. Então tinha que ficar com a “minha” Valentina mesmo. E assim, noites e noites apertava as teclas pretas com fúria, com tesão, imaginando que aquelas teclas eram os mamilos de Valentina, a bibliotecária, que aquele som era dos seus gemidos de prazer…. Um dia criei coragem e mostrei a Valentina uma de minhas poesias. Ela ficou vermelha feito a máquina de escrever, pois sempre escrevi coisas um tanto pesadas e fortes. E aquele era um poema com conteúdo erótico forte, decididamente inspirado nela. Valentina, a bibliotecária, baixou os olhos e não proferiu uma palavra. Entregou-me o livro que eu fora buscar (“Zero” de Ignácio de Loyola Brandão) e saiu, balançando aquela bundona por entre as estantes dos livros. Dois dias depois tinha lido o livro e fui devolver. Valentina não estava mais lá… Em seu lugar uma velhota horrorosa, magra e de cabelo loiro tingido… Nunca mais a vi. E durante anos fiquei pensando se fora minha poesia que expulsara Valentina da mim… A poesia era a culpada??? Nunca mais voltei àquela biblioteca e fiquei bom tempo sem escrever poesia. Valentina, a Máquina de Escrever, entretanto me causava outros prazeres, e até o dia que despencou de cima do meu dispositivo e despedaçou-se no chão, foi minha companheira de farras e orgias, regadas a café e cigarros e agora estava ali, no chão, em pedaços… E seria também a Poesia, a culpada daquilo?

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Conteúdo Protegido. Cópia Proibida!