Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 6

Barata Cichetto


Nesses anos começaram a acontecer de fato apresentações de artistas internacionais, como Rick Wakeman. Com sua Viagem ao Centro da Terra na integra, em 1975 no horroroso Ginásio da Portuguesa de Desportos. Rick Wakeman estava no auge da carreira, ao lançar discos absolutamente irretocáveis, como “As Seis Esposas de Henrique VIII” e “Arthur” e acabara de lançar o que seria considerado por muitos como sua obra prima, o disco “Jornada ao Centro da Terra”, baseado num livro de Julio Verne. No Brasil existia um lance chamado de Projeto Aquárius, uma pífia tentativa de tentar aproximar as pessoas da musica erudita. E para uma das apresentações daquele ano, tinham cogitado a banda Yes. Mas como essa banda inglesa tinha o cachê alto demais, optaram por Wakeman, que tinha feito parte dela e que estava sendo muito bem aceito pelo publico em sua carreira solo. Foram realizados dois shows em São Paulo e um no Rio de Janeiro, no Estádio do Maracanã. Todos com repertórios diferentes. O que presenciei, foi a segunda apresentação em São Paulo, onde Rick, trajado de um manto branco brilhante, longos e louros cabelos criando frisson na mulherada, e acompanhado de sua banda e ainda a Orquestra Sinfônica Brasileira, regida pelo Maestro Isaac Karabtcheviski e o Coral da OSB, tocaram na íntegra a Viagem de Arn Sacknussen. Para a parte narrada, traduzida em bom português, foi chamado o ator, dono de uma voz poderosa, Paulo Autran, que fez a narração sentado em uma espécie de trono, de vime.

Tento ser fiel às minhas lembranças… E o simples fato de buscar em minha memória por elas é por horas, um exercício extremamente doloroso, embora prazeroso. E dizem os estudiosos da mente humana que dor e prazer são irmãs gêmeas, no que concordo plenamente. E o cérebro humano sempre usa da associação e nas lembranças é ela quem nos proporciona o fio condutor para chegarmos a um resultado. Então: Rick Wakeman > Dor > Prazer > Gêmeas = Cristiane, irmã gêmea de Cristina, ambas conhecidas por Cris, era estudante de medicina e adorava a dor. A irmã era prostituta e acredita-se, adorava o prazer. E ambas eram fanáticas por Rick Wakeman. E foi por estar contando sobre o show do instrumentista inglês que eu presenciara, foi que acabei tendo um caso com a primeira das gêmeas. Muito magra e alta, ela usava óculos fundo de garrafa, que a principio a faziam parecer uma mulher feia. Puro disfarce, pois quando ela retirava os óculos, percebia-se que era uma mulher muito linda, com olhos doces e profundos. Mas o fato é que ela quase nunca os tirava, em parte por ser muito míope, em parte por ser aquilo uma atitude de pura sedução, de seu jogo de prazer… E dor.

A primeira transa com Cris foi no quarto que ela dividia com a irmã. As paredes cheias não de pôsteres de astros do Rock ou do cinema, mas de esqueletos, fotos da anatomia humana, detalhes de fígados, intestinos e outras escatologias. E ao som de “Arthur” de Rick Wakeman transamos. Ela se recusava a retirar os óculos, dizia que jamais os tirava, a não ser pra dormir ou tomar banho. E eu transaria com ela até trajada de astronauta ou de escafandro. Não tinha um fio de pelo em todo o corpo, a não ser cabelos, cílios e sobrancelhas. E mesmo assim muito ralos, o que era um fator adicional de tesão. Depois de um delicioso primeiro ato, ela ficou em pé, retirou os óculos e quase gritou: “Agora sou eu que vou comer você!” Pulou em cima de mim e começou a morder meu pescoço, ombro, braços e pernas… Quase decepou meu pinto e minhas bolas. Deixei as coisas acontecerem e confesso que foi uma das melhores trepadas de minha existência.

Depois desse dia, saímos apenas mais umas três vezes, com ela repetindo esse “ritual”, com uma violência cada vez maior. Era impressionante como parecia mais e mais excitada proporcionalmente ao grau de dor que impunha. Um dia ela me chamou à sua casa. Eu andava um tanto preocupado com os rumos daquela “loucura”. Não por temer a dor e as consequências daqueles atos, mas, de fato por temer estar gostando demais daquilo. Sentei na cama e comecei a falar que queria acabar com aquilo e coisas assim. Ela estava de shorts bem curto e sentou sobre minha perna e começou um jogo de sedução. Sentia algo molhado em minha perna e então percebi que seu melado ultrapassava os limites da calcinha e do short e escorria pela minha coxa. Aquele dia fui parar em um Pronto Socorro, com dificuldade em explicar ao médico sobre que raça de cachorro tinha me mordido com tanta força… No ombro e nas costas…

Encontrei-a apenas mais uma vez, quando ela me convidou a ir até a Faculdade onde estudava. Tinha um trabalho que seria feito exatamente na área onde são estudados os cadáveres. Olhando para ela ali, com as mãos sujas de sangue, cortando pedaços de corpos, por trás daqueles óculos, senti um arrepio que percorreu minha espinha inteira. Dei as costas e desapareci. Afinal o limite entre o prazer e a dor é o que nos distingue… Do que mesmo? Poucos anos depois fui assistir “O Império dos Sentidos” e então compreendi melhor a “anatomia” da mente de Cristiane. Anos depois fiquei sabendo das gêmeas: a primeira Cris tinha se formado médica e tornara-se lésbica. A segunda teria sido morta por um cliente, numa briga por drogas.

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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