Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 5

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Barata Cichetto


A Led Slay era uma criança habitando um antigo empório… E minha morada e namorada de fim de semana.. E no auge dos meus 15 para 16 anos um presente, o maior dos presentes que os deuses do Rock, a quem eu começara a cultuar me dariam: “Alice Cooper no Brasil”. O real primeiro show de uma banda de Rock por estes lados.. Janeiro de 1974, depois de dormir a porta do Anhembi, ser quase massacrado e ficar a cerca de uns 500 metros do palco e não conseguir ver absolutamente um milímetro da ponta da cauda de Kachina fui pra casa feliz e orgulhoso… E no dia seguinte sentia-me tão bem, que depois do trabalho como continuo do Banco Commercio e Indústria de São Paulo, de paletó e gravata, fui parar num puteiro da Avenida São João…

De fato, aquele dia de Janeiro de 1974 era o da minha “inauguração” de macho. Embora tivessem existido algumas brincadeiras eróticas, totalmente inocentes, com algumas primas e vizinhas, sexo ainda algo que eu desconhecia. É importante lembrar que naqueles tempos os meios de informação eram totalmente exíguos e proibidos. As revistas eróticas não podiam mostrar as duas partes da bunda e os mamilos tinham que ser raspados e, tanto nelas quanto nos filmes eróticos, exibir pelos pubianos era totalmente proibido. As cenas de sexo eram apenas sugeridas. A “Educação Sexual” da Geração Maldita era feita por intermédio dos proibidos “Catecismos”, pequenas revistas, mal impressas e desenhados, basicamente de autoria de tal “Zéfiro” , que eram vendidas às escondidas por jornaleiros que as escondiam em fundos falsos de pisos da banca. Os mais endinheirados podiam comprar revistas “suecas” coloridas, vendidas no mesmo esquema “criminoso”.

E então, lá fui eu, em direção à Avenida São João. Em frente ao conhecido como “Prédio da Pirani”, que tinha incendiado pouco tempo antes, as putas ficavam encostadas chamando aos clientes. Entre elas, Dalma, uma mulata de corpo liso, brilhante e cabelos cortados rentes, bunda grande e minúsculos peitos. Minutos depois estava eu, no 20º andar do Edifício Século XX, um prédio que abrigava quitinetes que eram alugadas e usada pelas “meninas da rua”, completamente pelado, vermelho e tremendo que nem tomate ao vento. Tateando aquele corpo moreno na quase total escuridão. A procura da buceta. É, eu nem sabia direito onde era… Ela percebeu minha inexperiência e tratou de guiar aquele moleque magrelo e desajeitado pelos caminhos do prazer. E que prazer! Talvez por ter percebido que eu era um “cabaço”, Dalma se esmerou em seu trabalho, dando tudo o que tinha para mostrar o quão deliciosos eram os prazeres da carne. E garanto que conseguiu. A partir daquele dia, a Avenida São João, quase esquina com a Ipiranga seria meu lugar preferido e, mesmo antes de Caetano compor “Sampa”, muitas coisas aconteceram em meu coração, e em outras partes do meu corpo, nas suas calçadas mijadas, prédios imundos e esquinas tortas lotadas de putas.

A partir daquele final de mês, o perigo do Rock tomou outras formas, dentro daquela humilde… O dinheiro do meu pagamento no Banco, sempre e totalmente entregue a minha mãe passaria a ter, digamos, desfalques substanciais, transformados em LPs e Compactos… Além de revistas como Rolling Stone (a edição brasileira que durou pouco e era dirigida pelo genial filósofo Luiz Carlos Maciel), POP e posteriormente a melhor de todas de todos os tempos, a Rock, a História e a Glória, editada por Ana Maria Bahiana, Tarik e Okky de Souza e Ezequiel Neves (que na época assinava como Zeca Jagger e nem sabia que um dia Cazuza apareceria em sua vida, achando que o Made In Brazil era o Rolling Stones brasileiro)…

E foi nessa época em que a maior banda de Rock do mundo surgiu… Hein?? Não, não estou falando de Led Zeppelin (esta sim uma das maiores), ou Pink Floyd (com certeza a maior). Estou falando da “Porta de Emergência”. Não conhece? Ah… Não lhe culpo não… Essa banda seria a maior banda de Rock do mundo, acaso houvesse existido. Como qualquer roqueiro que se preza, eu também criei minha “banda imaginária”. O nome eu tirei das minhas andanças de ônibus e a formação consistia em: Eu Mesmo hora na guitarra e voz, hora no baixo, outras apenas na voz, meu amigo Gordo na Bateria e ah, quem mais aparecesse ou fosse imaginado para as outras “posições”. Cheguei até a compor uma música (completinha) que tinha um refrão: “Eu quero uma saída/preciso de uma porta/saída de emergência/porta de emergência”.. E ai entrava um “riff” de guitarra. Um Rock bem pesadinho, mas que nunca foi tocado em lugar nenhum por uma simples questão: nenhum de nós nunca aprendeu a tocar nenhum instrumento… E essa banda se desfez… Antes mesmo de existir…

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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