Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 32

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Barata Cichetto


Até 2000 ou 2001 eu pouco conhecia da obra do poeta e escritor alemão-americano Charles Bukowski. A não se por um ou outro conto ou poema lido em alguma publicação literária. Mas, comecei a me interessar mais fortemente por sua obra quando um correspondente me chamou de Baratowski, que segundo ele seria “Barata Bukowski”. Mas eu nem sabia que estaria prestes a viver uma experiência digna de um personagem Bukowskiano. Carolina era pequena, mas tinha um corpo bem feito, ancas largas e peitos grandes. Morena, cabelos muito curtos. Conheci-a em um Salão de Rock e iniciamos um romance digno de “Crônicas do Amor Louco”… Quase uma criança na idade e na aparência, mas de uma disposição e um apetite sexual que deixaria corada até mesmo Messalina, Carolina desde o inicio confessara ter também apetite por mulheres, o que não causou em mim nenhuma sensação de repulsa. Meu relacionamento com Yaracy tinha me dado compreensão suficiente sobre o assunto. Ao menos foi o que imaginei.

E no principio era o Tesão, apenas o Tesão bailava nos campos floridos… Vivíamos nus e transávamos o tempo inteiro, sempre ao som de “Status Quo” e “Pink Floyd” que ela gostava muito. (Aliás, tenho que reiterar neste ponto o que falei sobre Pink Floyd: se o querido leitor ou leitora nunca transou ao som de “The Dark Side Of The Moon” ou “Meddle”, ou não sabe o que é transar, ou não sabe o que é Pink Floyd.) E ela tinha tanto tesão que quando ficava por cima eu sentia o melado escorrer pelas minhas pernas. Sem contar os gritos na hora do gozo, que eram tão altos que em inúmeras oportunidades tivemos que atender vizinhos reclamando do barulho.

Mas depois se fez o verbo.. E o verbo se fez sob a forma de uma antiga namorada. A partir de então as coisas entre eu e Carolina começaram a mudar. Um dia, domingo, depois passarmos a tarde inteira bebendo e escutando Rock, decidimos ir até um Bar de Rock que conhecíamos e na lanchonete da esquina continuamos a beber e dentro do bar da casa continuamos. Num determinado momento, Carolina subiu no palco e ameaçou tirar a roupa. Era hora de ir embora, pensei. Subimos no ônibus e o caminho inteiro ela permaneceu calada. Ao chegarmos, ela deitou na cama, mas minutos depois levantou, foi até a estante onde estavam meus CDs e sem porque algum começou a atirá-los no chão. O tapete da sala ficou forrado de Pink Floyd, Jethro Tull, Led Zeppelin, Deep Purple, Janis Joplin… Enfim uma decoração bastante inusitada. Ato contínuo ela, descalça, começou a pisotear os CDs e falando: “Quer saber o que eu faço?!” Eu quero essa porcaria toda!” . Não entendi porra nenhuma porque não tínhamos tido nenhuma discussão, nada mesmo. Ela cortou os pés nas lascas de plástico e ainda assim, apenas de calcinha abriu a porta e saiu pelo corredor em direção à rua. Tive que usar força para conseguir segurá-la. Coloquei-a sentada numa cadeira e procurei acalmá-la, dando chá, que ela obviamente vomitou… E sobre os restos dos meus discos… Depois acendeu um cigarro, colocou os pés sobre a mesa do computador e começou a proferir ameaças, injurias e palavrões. Isso tudo referindo-se a ela mesma na terceira pessoa do singular, como se possessa por algum espírito. Fiquei atarantado, sem saber o que fazer. Sentei-a no sofá, e tentei acariciar sua cabeça no que ela segurou meus cabelos e começou a puxar, bater no meu rosto e dizer: “Ela é minha, ela não vai ficar contigo, ela é minha!”. Depois apanhou o batom e começou a pintar a testa, as bochechas, meu rosto,, minhas pernas. Horas depois, consegui deitá-la sobre a cama, o que a “despertou”. “O que aconteceu, onde estou?”… Coisas assim. “Não lembra?” , “Não, não lembro. A ultima coisa que lembro é que estávamos no bar, e eu em cima do palco…” O dia amanhecia e eu passara uma noite de um terror que nunca tinha experimentado. Ela ainda quis transar, mas eu disse que estava cansado. Esperei ela dormir e fui recolher os restos da minha coleção de CDs e limpar a sujeira que tinha ficado. Dos quase 200 CDs que eu tinha, sobram uns 50 inteiros. Todos os outros estavam quebrados. E mesmo desses, uns 10 ainda fui obrigado a comprar caixas de plástico. Lá pelo meio da tarde Carolina acordou, disse que estava com fome. Preparei um café, tomamos silenciosamente e passamos até o meio da noite transando freneticamente. Tinha medo de tocar naquele assunto e ela, claro, não tinha interesse. Em poucos dias eu entenderia por que.

Desde essa noite, nosso relacionamento foi deteriorando e passamos a beber mais, trepar mais e também a brigar mais. Era uma coisa tentando compensar a outra, mas por vezes fazíamos as três coisas ao mesmo tempo. Suas atitudes, sempre intempestivas foram se tornando irracionais, a ponto de, sob qualquer pretexto ela apagar um cigarro na minha perna, morder meu rosto quando perdia uma discussão. Nunca admiti encostar a mão em uma mulher, mesmo quando toda a razão estivesse comigo. Mas com Carolina estava perdendo a paciência. Um dia falei a ela: “Olhe o tamanho da minha mão, é maior que sua cabeça inteira. E estou perdendo a paciência contigo.” Mas como era de seu costume, Carolina ria e depois partia para a sedução, sempre com alguma coisa diferente. Num desses dias em que acabáramos de transar e começáramos uma briga, bebendo o tempo inteiro dos dois atos, ela me disse que precisava me confessar algo. “Sim!”… Imaginei que ela fosse falar algo sobre o Dia da Destruição dos Discos, mas ela foi seca e direta:”Eu prefiro mulher!”. “É?” Ela adorava Maria Rita e sabia que eu detestava, e mesmo por isso, levantou, apanhou entre seus CDs (claro que os dela ela não quebrara) e colocou um CD da filha mais chata da chata da Elis Regina. “Sabia que ela é lésbica também?” “Não, não sabia, nem interesso em saber… Mas porque ‘também’?”, “Porque eu sou… Também. E quero falar, eu tenho saído com a minha antiga namorada sempre que posso… (Silêncio) E não quero mais saber de homem, acho que é melhor tu ir embora…”. Ok, mas já que você está confessando isso, me tira uma duvida: naquele dia, aquele que …” , “Aquele dia? Ah, sim, era tudo teatro. Achei que fosse te chocar tanto que no dia seguinte, cê ia pegar suas coisas e ir embora.”

Não tinha o que falar, apenas arrumei minhas coisas e fui embora. Duas horas depois meu celular tocou, era ela perguntando onde eu estava, e pedindo pra eu voltar. Troquei de roupa e no meio da madrugada cheguei ao apartamento. Ela me recebeu de calcinha e correu ao telefone onde continuou uma tranquila conversa que seria com a tal ex-não-tão-ex namorada. “… Então, cuide-se bem, o Lu esta aqui.. É, a gente se ama…Tchau. Beijo”. E assim terminou o diálogo. Se é que tinha realmente do outro lado da linha.

“Gosta disso, né?!” Perguntou colocando no aparelho o CD “Wish Were Here”, do Pink Floyd. “Sim, sabes que sim!”, “Eu sabia. Foi ela quem me deu. E eu falei que ia transar contigo escutando isso… E sabe o que ela disse?”, “Não, não sei.”, “Ai que delicia! Foi que ela disse”…E quando os primeiros e mágicos acordes de “Shine On Crazy Diamnod” encheram o quarto, Carolina pulou sobre mim, arrancou minhas calças e começou a chupar meu pinto… Transamos, tomamos umas garrafas e dormimos. Quando acordamos o mau humor nela era claro.. Aliás, suas mudanças de humor eram repentinas, muito repentinas e inexplicáveis. Ficamos mais algumas semanas, mas um dia, o derradeiro, depois de uma briga porque ela queria passar a noite numa festa de umas amigas lésbicas, incluído a tal ex-não-ex, discutimos por horas e horas sem parar (sem transar e sem beber), e quando ela pela terceira vez apagou um cigarro na minha perna, eu dei um tapa em seu rosto atirando-a sobre a cama e disse: “Então é assim, é assim que quer lembrar de mim, né?!”. Arrumei minhas coisas e desapareci. Mas, poucas semanas depois fiquei sabendo que ela estava de novo romance… E não era com mulher, não. Eu tinha trocado o numero do meu telefone, mas mesmo assim, não sei como ela descobriu. E um ou dias depois de eu saber de seu novo caso, ela começou a ligar no meio da madrugada, à noite, de manhã bem cedo. Não tinha coragem de xingar, despachar… E ao mesmo tempo meu racional queria saber onde ela queria chegar. Os papos foram esquentando e um dia eu perguntei se ela não queria transar comigo. Em principio disse que não, porque eu iria achar tínhamos reatado e ela não queria isso. Disse que não, que apenas queria transar com ela, daquela forma maluca de antes. “Promete que é apenas transar mesmo?” “Sim, eu prometo, sim!”

Saímos e fomos a um motel. Transamos e eu fiz questão de submetê-la a uma serie de caprichos eróticos, exigindo coisas que nem mesmo nas transas mais embebedadas que tivéramos eu pedia. E ela foi concordando com todos os meus pedidos. Até mesmo o anal, que ela sempre negara acabou aceitando. Depois de algumas horas de loucuras eróticas ela dormiu. Silenciosamente fui até o banheiro, tomei um banho, coloquei a roupa, desci as escadas e sai. Era noite e fui direto pra cama ao chegar ao quarto onde dormia. Acordei as 6 da manhã com o telefone tocando. Era ela. “Oi, tudo bem?”, “Tudo, quem é?”, “Sou eu, a Carolina… Cê me deixou só….” , “Olha, escuta aqui, cê não está com outra pessoa?”, “Sim, estou.”, “Então porque não fica quieta e transa com ele… Agora imagino o que fazia quando estava comigo… Me faz um favor, não me procura mais não.” . E desliguei o telefone. Nunca mais ela ligou, nunca mais fiquei sabendo nada dela. Mas aquele CD do Pink Floyd, eu coloquei entre minhas coisas e tenho até agora comigo…

 

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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