Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 3

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Barata Cichetto


No principio de 1970, inicio do período de aulas, onde eu cursava a 2ª Série do ginásio, que hoje seria a 6ª série. Travei amizade com um camarada de nome Airton que gostava muito de desenhar. Um dia, num intervalo de aulas ele desenhava um retrato com lápis de cor azul escuro… Era uma mulher com a cabeça jogada pra trás e segurando um microfone… “Quem é?” “Janis Joplin, não conhece?” “Não!” “Ela morreu ano passado, cantava demais.”. Paixão de primeira. Naquela semana, procurei um amigo que tinha muitos discos e perguntei sobre Janis. Ele esticou o braço, e de uma pilha no chão pegou um disco, “Kozmic Blues…” Colocou pra rodar… E acho que nem preciso contar sobre as sensações daquele momento…

1970 foi um ano intenso, dramático e emocionante. A mim, ao Brasil e ao mundo. No Brasil a Ditadura Militar atingia o auge da linha dura, com o General Médici tentando parecer popular posando para fotos simulando estar escutando futebol num rádio de pilhas. Era ano de Copa do Mundo e a maioria não tinha consciência dos fatos que aconteciam, tanto nos bastidores do poder, quanto da guerrilha que nesse ano sequestrara um cônsul e um embaixador em troca da libertação de presos políticos. Na metade do ano, o Brasil ganharia pela terceira vez a Taça Jules Rimet, que lhe daria direito à posse definitiva, se não fosse roubada da sede da CBF anos depois.

Naquele ano, por algum motivo que não conheço, meus pais decidiram me matricular no Colégio Oswaldo Catalano, no Tatuapé, distante cerca de 8 quilômetros de minha casa. E lá ia eu, no auge dos meus 12 anos, com uma mala pesada, lotada de livros e cadernos, a bordo de ônibus apinhados de gente. As finais da Copa, desde 1958, ano em que nasci sempre aconteciam nos dias do meu aniversário e naquele ano não fora diferente, mas no dia 21 de Junho, dia da final entre Brasil e Itália, a escola marcou a apresentação de uma quadrilha, com a obrigação de todos os alunos participarem. Eu sempre fui muito tímido e além do mais a parceira a mim destinada era uma horrorosa. Mas não tinha jeito. A tal quadrilha de festa junina aconteceu poucos minutos depois do término do jogo e nem pude, ao contrário da maioria, festejar. Aquilo foi um horror e ao que lembro errei todos os passos ensaiados para a tal dança. Sempre odiei essas coisas, e odiava aquela escola, pois apesar de seu uma escola pública, tinha entre os alunos uma maioria de filhinhos de papai. Naquela época, quando ter um carro era luxo, eu era um dos únicos a ir para casa a pé. Eram ricos a maioria… E verdadeiros bandidos, alguns… Lembro de uma dupla, Wagner e Jayme, que sentavam atrás de mim e passavam o tempo inteiro das aulas dando “estilingadas” com os dedos na minha orelha e tapas na minha cabeça. Uma dupla de marginais mesmo. Batiam em todos dentro da escola e chegaram a abusar sexualmente de um garoto de nome Wladimir, na frente de todos, no vestiário da educação física. Ninguém reclamava, ninguém fazia nada, pois se dizia que eram filhos de gente “grande”.

E é claro que o inevitável aconteceu. Eu sempre fora excelente aluno e dois anos consecutivos, durante o primário, considerado o melhor aluno da escola, mas naquele ano, acabaria repetindo. E a justificativa da escola foi que eu era muito novo para estar na série seguinte. Mas aquele ano ficou mesmo marcado em minha memória por um fato que até hoje nunca consegui explicação.

Conforme relatei, sempre fui um ótimo aluno, sendo que até então nunca tinha faltado um dia sequer às aulas. Mas num sábado que era de reposição de aulas ou coisa parecida, decidi que não iria à escola. Chamei um amigo e como ficáramos sabendo da inauguração de um tobogã no Tatuapé fomos conferir. Pegamos um ônibus no bairro do Jardim Popular onde morávamos, em direção ao tal parque, mas eu me enganei e acabamos descendo alguns pontos antes, onde atualmente é a estação Tatuapé do Metrô. Caminhamos alguns metros pela Radial Leste e quando chegamos no inicio do Viaduto, avistei um garoto com uniforme do Catalano. O lugar na época tinha uma abertura nos muros da estrada de ferro que servia de passagem aos que vinham da parte de baixo, onde inclusive ficava a escola. No auge do meu dia de malandragem, decidi brincar com ele e me aproximei. “Cê estuda no Catalano?”, “Sim, estudo, sim!”, “Em que série?”, “Na 2ª. ‘O’.”, “Ah, não, nessa sala eu estudo e nunca vi você lá.”, “È que teve umas mudanças lá na escola hoje”. Eu e meu amigo continuamos nosso caminho ao tal tobogã, mas eu fiquei um pouco preocupado, certo de que ao chegar à escola na segunda-feira, existiriam mudanças, novos colegas de sala, essas coisas. Mas, ao chegar à escola na segunda-feira, nada! Nenhuma mudança tinha ocorrido, absolutamente nada tinha mudado. Os colegas, a sala, os professores eram os mesmos. Perguntei a algumas pessoas sobre o que ocorrera no sábado e todos foram unânimes de falar que nada, além de aulas chatas tinha acontecido. Passei os próximos dias, semanas, meses procurando aquele garoto, cujo rosto até hoje tenho em minha memória, mas nunca o vi naquela escola. O amigo que estava comigo ainda confirmou aquele encontro e eu cheguei a ir ao colégio em horário diferente do que estudava para procurá-lo. A única informação que tive é que naquele local teriam morrido muitas crianças, atropeladas por trens…

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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