Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 23

Compartilhe!

Barata Cichetto


Entre os poucos momentos de tributo aos Deuses do Rock, preciso falar sobre a apresentação do Van Halen em São Paulo, em 1983. Precisamente em final de Janeiro. Na época eu morava numa quitinete bem no centro de São Paulo e o show aconteceu no Ibirapuera. Eu não conhecia muito de Van Halen e, na realidade, fui porque tinha ficado sabendo que a abertura seria da Patrulha do Espaço, que há algum tempo eu não via… Aliás, não tinha assistido nenhuma apresentação deles com o baixista Sérgio Santana. E, à revelia de minha mulher na época, compareci. Aliás, inventei uma história sobre hora extra no trabalho e fui. Nunca lhe contei isso e só agora, quase trinta anos depois, ao ler este texto é que ela irá ficar sabendo. Não tenho muita lembrança dos shows em si, mesmo porque sai antes de terminar a apresentação do Van Halen. Só lembro de umas pessoas comentando ao meu lado sobre o quão bom era o Van Halen, quando o show ainda era da Patrulha do Espaço.

E neste ponto abro um buraco no tempo para falar sobre a Patrulha do Espaço que, em minha existência como Rocker sempre teve ligações muito fortes. Conhecia o trabalho do Rolando Castello Junior como batera do clássico primeiro disco do Made In Brazil… E lembrava bem do nome, porque eu tinha um vizinho, mentiroso pra cacete, que tinha o sonho de tocar bateria. Nunca ninguém viu a bateria dele, mas ele contava, com riqueza de detalhes, que era ele o “Júnior do Made”. Detalhe: o “Júnior do Made” era loiro, de cabelos enrolados… E meu vizinho é mulato, quase negro… Era motivo de risos dos mais antenados e de reverência, aos mais afobados.. Mas o fato é que, desde o Concerto Latino Americano de Rock, eu passara a estar presente em quase todos os shows deles, como no Ginásio do Palmeiras, ainda como “Arnaldo e a Patrulha do Espaço”, Teatro São Pedro, Teatro 13 de Maio… E até mesmo no Led Slay e Playcenter… Uma quantidade enorme. Mas tem um que nunca saiu da minha cabeça, embora eu não lembre exatamente o ano… Teatro do SESC Vila Nova, uma apresentação d abanda numa segunda-feira… Num determinado momento, o genial multi-instrumentista Manito (Ex-Incriveis e Som Nosso de Cada Dia), estava na plateia e foi chamado ao palco. Apanha uma flauta e começa a solar, acompanhando um tema instrumental. O publico foi ao delírio, urrando, o que causou possivelmente uma crise de ciúmes, ou sei lá o que, no guitarrista Dudu Chermont, que espatifou uma caríssima SG Azul no palco. Um camarada ao meu lado ainda tentou ficar com uma parte do braço do instrumento, mas um segurança lhe arrancou das mãos.

Decidi colocar o presente tópico neste ponto, pois além da admiração pelo trabalho, acredito termos pontos em comum. Um deles, o fato de a banda entre 1985 e 1999 ter ido para o estaleiro como eu… Perdemos então o que seria considerado o “boom” o Rock Brasil, com o acontecimento do primeiro Rock In Rio e a explosão de inúmeros festivais internacionais. Coincidentemente, a partir de 1999 a banda retorna aos ares e pouco tempo depois, de certa forma, passo a fazer parte, mesmo que apenas como um colaborador, da tripulação da Nave Ave.

Em Janeiro de 2001, aconteceu uma apresentação, na verdade uma pequena temporada, da Patrulha no CCSP. E rumei para lá, numa sexta-feira. Depois do show deles, desci ao camarim e fui cumprimentar os músicos da banda e presenteei Rolando com uma camiseta de A Barata, retribuído com o recém lançado disco da banda “Chronophagia”. A partir desse episódio, nasceu uma amizade e uma admiração muito maiores. Dias depois estava eu na casa dele oferecendo meus serviços como criador de sites… Ele mandou chamar Luiz Domingues (aquele mesmo, da Chave do Sol, das cartas…) e Rodrigo Hid e falamos, falamos, falamos… O site acabou ficando em segundo plano, mas no final da conversa, Rolando me convidou a ser “Manager” da banda, participando das “tours” e etc. Semana seguinte lá estava eu, embarcando no “Azulão”, um ônibus Mercedez Benz ano 1976, pilotado por um camarada que parecia “vestir” o ônibus, de tanto que o conhecia. O “Alemão”, como era conhecido, era uma figura de uma disposição e competência sem paralelo. E lá fui eu, embarcando na primeira de uma série de jornadas para dentro dos intestinos do Rock’n’Roll. Sim, porque apenas quem conhece a estrada, literalmente, pode dizer que conhecer o Rock. A adrenalina, a batalha, os detalhes de montagem de equipamento, de palco, de infraestrutura, enfim todos os detalhes que precedem e sucedem um show de Rock são algo que, ninguém que não viveu pode entender. E assim, durante cerca de quatro anos percorremos estradas que nos levaram a muitas cidades do interior de São Paulo, como São Carlos, São José, Catanduva, Jaboticabal, Jales, Limeira, Sorocaba, Bauru… e muitas outras, além de inúmeras cidades do Sul do Brasil, como Joaçaba, Lajes, Concórdia e outras, em Santa Catarina. A cada uma delas uma história e uma bagagem cada dia mais repleta de experiências humanas e roqueiras… Nessa época escrevi uma série de artigos com o nome “Diário de Bordo, Data Estelar”, onde contava os detalhes, nem todos, de cada uma das viagens.

Em final de 2002, Rolando estava um pouco desanimado com os rumos do Rock e para onde estes levariam sua banda. Disse que tinha material inédito gravado, mas não tinha disposição de soltar. Ele me mostrou uma cópia da “master” e eu fui para casa com aquilo na cabeça. Cheguei em meu apartamento e, não lembro bem como nem porque, tinha um antigo compacto simples sobre minha mesa de trabalho. Olhei para aquilo e tive um “insight”, sentei na frente do computador e horas depois, já dentro da madrugada tinha em minhas mãos um protótipo, com uma arte minha colada sobre aquele compacto antigo. O nome, que também era o conceito: “.ComPacto”, assim mesmo grafado, com o ponto antes do nome e o “P” maiúsculo, fazendo um jogo com “.Com”, “Pacto”, “Com pacto”, “Compacto”… e no dia seguinte, logo de manhã liguei para Rolando e fui a sua casa, onde expus o conceito e mostrei minha ideia, de fazer um CD, mas usando o formato de capa de um compacto simples, de vinil antigo. E ai, as mangas foram arregaçadas e começamos a trabalhar. Pegamos um desenho que ele tinha e colocamos na capa. Algumas fotos em preto e branco na contracapa… Fiz todas as artes da capa e montei o encarte. Encarte esse que foi recortado e dobrado por mim e pelo “Roadie”, Samuel Wagner na sala da casa de Rolando na Aclimação. Para a capa fomos, eu e Rolando, na quase extinta fábrica da Continental Discos, na Avenida do Estado, onde um funcionário disse que ainda tinha a antiga faca de corte usada nos compactos, o que daria àquele projeto um toque não apenas “vintage”, mas totalmente autêntico. Essa ideia causou grande impacto, tanto em lojistas quanto na imprensa especializada. Uma ideia que podia não ser a mais original do mundo, mas que, decerto era muito boa. E de tão boa foi copiada por outras pessoas, como os discos da banda Exxótica, que a partir dali foram todos feitos nesse formato. Acabei ficando muito chateado nessa época, até mesmo com os integrantes da Patrulha do Espaço, porque nunca admitiram em entrevistas que a ideia, tanto da capa, quanto do próprio nome do disco tinha sido minha, auferindo todos os louros de uma pequena glória qual eu teria direito. E muito mais ainda, quando um dia, encontrei com o dono da banda Exxótica numa loja da Galeria Nova Barão, a Jardim Elétrico dos irmãos Alpendre, que me disse: “Eu copiei mesmo, coisa boa é pra ser copiada… E vou fazer todos os discos do Exxótica assim!” Na época, existiu um abalo na amizade com Rolando por causa disso, pois o “Reverendo” disse que tinha sido autorizado por ele a fazer daquela forma.

Mas, disco feito e lançado começamos uma verdadeira “tour de force” para divulgação, percorrendo, eu e Luiz Domingues, os pontos de venda e deixando os CDs. Há tempos que Junior vinha manifestando o desejo de tocar novamente na Led Slay. Como naquele momento eu era uma figura presente dentro da Led Slay (a ponto de ser confundido como um dos donos), até por ser o criador e o mantenedor do site da casa e tendo livre acesso aos donos, Sandro e Alberto, tratei de realizar esse desejo. E assim aconteceu, em Março de 2003, uma apresentação fantástica da Patrulha do Espaço para o lançamento de “.ComPacto”. Foi uma autêntica Festa de Rock, pois além dos músicos da banda, foi chamada a Alexandra “Joplin” Silveira e Dudu Chermont, que após sérios problemas de saúde estava se recuperando. Particularmente a participação de Dudu foi algo emocionante por todos os pontos de vista. No final de sua participação, atrás do palco, eu o cumprimentei e disse estar feliz com seu retorno à musica. Dudu sorria feliz feito uma criança e dizia: “Como é bom tocar, como é bom tocar!”. Mas, poucos meses depois, Dudu Chermont foi encontrado morto, sozinho, em sua casa…

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Conteúdo Protegido. Cópia Proibida!