Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 22

Compartilhe!

Barata Cichetto


Ilustrando o final do último capítulo, a citação ao horroroso “Departamento de Censura e Diversões Públicas”, lembrei de alguns fatos que presenciei envolvendo censura e perseguição nesse período que, oficialmente durou de 1964 a 1985, mas que estou absolutamente certo em perceber que se estende, com outras armas e em outros flancos até os dias de hoje. Apenas com uma forma diferente de ação. Um ato do então presidente, General Médici criou a censura prévia a qualquer manifestação artística, a fim de resguardar o país, principalmente daquilo que era conhecido como “Ameaça Comunista” e “em nome da moral e dos bons costumes”. Sem nenhum critério ou ideologia, todos os artistas, pensadores, filósofos tiveram suas obras proibidas de chegar a seus destinos. E é claro, que o Rock, e a Musica de forma geral, não escapariam ilesos.

A censura, feito a justiça é totalmente cega e isenta de valores éticos. Sempre é uma questão de ótica individual e totalmente ligada a valores éticos e morais dos indivíduos que as exercem. A justiça, argumentam, é baseada nas leis que… Bem, essa ladainha é tão falsa quanto a premissa da censura: pode ser, e é, deturpada de acordo com interesses sempre próprios. Então eu quero aqui alargar o horizonte e falar sobre casos de censura das diversas formas, desde a mais tradicional, com a proibição por parte de um governo à circulação de ideias de qualquer forma e magnitude, passando pela autocensura do tipo “ah, eu não vou falar tal coisa que pode ser censurado/eu não vou publicar tal livro de tal autor, que pode ser censurado” chegando àquela que é de cunho comercial, ou seja a “Censura Econômica”, causada pela mais cruel das ditaduras, a Econômica.

Tirando as centenas e centenas de musicas proibidas pela Censura, particularmente durante a época mais dura do Regime Militar, entre final dos anos 60 até o final dos 70, que impediram as pessoas o acesso à obras de músicos como o citado Geraldo Vandré, que teve apenas umas poucas; Taiguara, que teve quase 100 e mesmo Raul Seixas, o inusitado foi a censura a algumas capas de discos, como a da capa do disco “Joia”, de Caetano Veloso e ao disco da banda UFO, que teve a capa de um disco mais atual trocada pela do disco anterior. (“No Heavy Petting” e “Forced”), sem que o disco em si acompanhasse essa troca. Ou seja, lançaram um disco com capa de outro. Mas isso não se sabe se foi por qual tipo de censura, se a oficial, a do medo de ser censurado ou a do medo de não vender. É um claro exemplo das “censuras”. Qualquer disco que tivesse imagem de nudez, total ou parcial não era lançado, ou tinha capa tarjada, trocada, modificada ou simplesmente tinha o lançamento impedido. E embora nos jornais existisse a figura do Censor, presente fisicamente, e todas as obras artísticas devessem ser enviadas a Brasília para aprovação, o fato é que muita gente mal intencionada usou da Censura Militar para seus próprio métodos e medos escusos, conforme eu falei no inicio desse tópico.

Um outro exemplo: em 1978 a banda Rainbow, de Ritchie Blackmore lançara um disco ao vivo, o terceiro de sua carreira, chamado “Rainbow On Stage”. Claro que corri a comprar pois sempre fui grande admirador do trabalho dele, como de Dio, na época o cantor. Ao chegar em casa e começar a escutar o disco, comecei a perceber coisas estranhas, como músicas cortadas abruptamente. lendo atentamente a ficha técnica do disco, vi que existiam referencias à faixas que simplesmente não constavam do disco. No final um “Total Time” que demonstrava que aquele deveria ser um disco duplo. Um olhar mais atento ainda, á lombada: “A Two Record Set”, ou seja: cadê o disco??? Me senti enganado e achei que poderia ser uma tramoia da loja. Dia seguinte voltei a loja e o vendedor, que já era meu amigo me explicou que, realmente, o disco original era um disco duplo, mas que no Brasil a gravadora tinha lançado simples… Tinham cortado musicas em qualquer ponto, retirado musicas inteiras… E nem sequer o cuidado de ao menos corrigir a ficha técnica. E naquele mês, o orçamento daquela casa humilde, tararitatata, ficaria menor ainda, pois fui a uma loja no que é a atual Galeria do Rock e encomendei o importado… Uma fortuna e seis meses para chegar..

E era comum esse tipo de absurdos perpetrados nem sempre pela Ditadura Militar, mas pela Ditadura Econômica. O trabalho de criação do quarto disco do Led Zeppelin, que oficialmente não tem nome, embora muitos apelidos, é algo de extrema criatividade. Quem já viu essa capa em vinil entende melhor o que falo, pois em CD tudo foi descaracterizado. O que prevalece na capa é a imagem de um velho com um feixe de lenha às costas. Olhando atentamente percebemos que aquilo é um quadro… Ao abrirmos a capa dupla, percebemos que se trata de um quadro em uma parede parcialmente demolida e ao fundo a imagem de uma cidade. Na parte interna, o desenho famoso e altamente copiado do Eremita (nãããããããão, aquilo não é um bruxo nem um mago), segurado uma lanterna, no topo de uma vila. Dentro um envelope que contem os famosos símbolos (nem todos esotéricos, aliás) dos membros da banda. E a letra de Stairway to Heaven. O detalhe é que não existe na capa, propositalmente, nenhuma inscrição, nenhum nome, nada que identifique. Esta era intenção de Jimmy Page. Uma criação artística que no Brasil teve a intervenção econômica da gravadora que: escreveu “Led Zeppelin” e colocou um selo amarelo canário com a inscrição: “Incluindo Stairway To Heaven” na capa. Na contracapa os nomes das musicas e os símbolos. Isso tudo numa capa simples, jogando fora a arte do Eremita e o envelope interior. Garanto que nenhum general nem ninguém ligado aos militares teve nada a ver com isso… Mas o fato é que as gravadora perpetraram verdadeiros crimes contra a arte nas edições de discos no Brasil, crimes tão grande quanto a Liberdade quanto os dos militares, apenas com a “sutil” diferença de não ter matado ninguém. Percebem as diferenças e semelhanças entre os diversos tipos de censura e ditadura?

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Conteúdo Protegido. Cópia Proibida!