Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 21

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Barata Cichetto


Mas ainda, como que respirando por aparelhos dentro de mim, o Rock ainda exigia, pedia oxigênio. E esse oxigênio foi dado no dia 21 de março de 1981, quando da apresentação da banda inglesa Queen, no estádio do Morumbi, com Love of My Life, sendo cantada a plenos pulmões pelo público e com direito a isqueiros acesos em todo o estádio. A esquisitice ficou por conta do trecho de “opera”, de Bohemian Rapsody, quando o palco ficou às escuras, os músicos saíram entrando uma gravação…

Mas foi pouco o ar… Não acreditava mais naquilo, me sentia tão traído quanto no fim do relacionamento com Ângela. E foi então que conheci então minha primeira mulher. E dentro de 3 meses estávamos casados. Os próximos 15 anos foram de dedicação a filhos, casa, sobrevivência… E o Rock tomou então um papel secundário, pois embora continuasse a escutar, ainda comprando um ou outro disco ou CD posteriormente, era preciso manter uma família e educar filhos. Mas mesmo nestes anos, uma ou outra passagem ainda aconteceria, pois o Rock, uma vez que entrou nas suas veias não sai e hora ou outra lhe cobra tributo. E o tributo foi pago em 1983.

No principio desse ano, minha mulher engravidara. Ao chegar em casa com a noticia eu disse: ´”E Raul!!”. O nome que tinha a um filho seria Ian e ela estranhou, mas algo me empurrava mais e mais a esse nome. E eu passava a desenhar o nome de diversas formas. E ao desenhar invertido resultou em “Luar” e aquilo me deu a certeza de que tinha que ser esse nome. Poucos meses depois Raul Seixas lançaria seu disco pela gravadora Eldorado. Nos dias que saiu, fui a uma loja e comprei, em fita cassete. Cheguei em casa e fui escutar.. E o susto pela musica que falava exatamente isso: “Luar é meu nome aos avessos…”

Em 1987 o nascimento de Ian e a luta pela subsistência da família me afastou mais ainda do Rock. Nesse período, apenas poucos shows, como Jethro Tull, Titãs e Lobão no Olympia e também poucas aquisições de gravações, a maioria em fita cassete, porque toca-discos já não tinha mais… As revistas foram rareando e tendo seu lugar tomado por revistas de informática, embalagens e outras úteis ao meu trabalho profissional como projetista de brinquedos numa grande indústria do ramo. O grosso das musicas que escutava eram nas FMs de Rock que aumentaram em numero consideravelmente, com o surgimento da 97 FM, da 89 e da Brasil 2000. Nessa época, a Ditadura Militar recrudescia, algumas coisas podiam ser faladas e cantadas, mas eu naquele momento era prisioneiro de uma prisão que eu mesmo construíra e a censura não era do “Departamento de Censura e Diversões Públicas”, mas sim de dentro de mim mesmo, com um torturador insano invisível a enfiar minha cabeça dentro de um barril e gritar; “Confessa!”… Mas efetivamente eu não queria confessar.

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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