Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 20

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Barata Cichetto


Mas o andar natural deste texto já me carregou, e ao leitor, a uma época adiante, por volta de 1980, e acabei pulando uma fase importante, dentro do universo do Rock. E dentro dessas lembranças não poderia deixar de citar um dos shows mais peculiares que presenciei. Em 1977 Raul Seixas estreava na gravadora WEA e lançara o disco “O Dia Em Que a Terra Parou”. O show de lançamento aconteceria em uma temporada no Teatro Bandeirantes. E lá fui eu, no dia da estreia. Fila enorme na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, eu bem no inicio, próximo a portaria, de onde dava para escutar a passagem de som (depois descobri que não era bem a passagem de som, mas uma pré-audição a Censores, obrigatória nos tempos de botas e de chumbo). As portas foram abertas e sentei na primeira fila, bem frente ao palco. Raul entrou, sem barba, uma roupa inteira branca e botas altas. E como sempre, completamente bêbado. Depois de algumas musicas, a banda toca a introdução da musica titulo, e depois de alguns minutos de enrolação diz: “Pára, pára, pára… Eu não lembro a letra dessa porra… Não vou cantar essa não… Alguém aí sabe a letra?”. Um camarada sentado ao meu lado levanta e grita: “Eu sei!”. E Raul: “Então sobe aqui e manda ver!”.. O cara, lógico, sentiu-se no Céu e fez o que o mestre mandou. Raul desceu e sentou-se no lugar dele, ao meu lado… E dormiu.. Enquanto o cara cantava, ou ao menos tentava cantar “O Dia….” repetindo o refrão em lugar de qualquer coisa que não lembrava. A banda, visivelmente desesperada, procurava manter a moral… A musica acabou, o camarada desceu do palco e ficou ali parado, vendo Raul Seixas dormir…. O guitarrista olhava desesperado e ali eu, num gesto meio que desesperado, cutuquei o braço de Raul e disse: “Ai, mano, acorda aí… O show….”. Ele deu um salto nas botas e subiu correndo ao palco continuando como se nada tivesse acontecido… Este foi um dos poucos, cerca de uns três ou quatro shows que assisti de Raul Seixas, pois muito embora gostasse muito de sua musica e tivesse todos os discos, nunca gostei dessas atitudes dele em shows, sempre bêbado, lançando discursos pseudo-intelectuais quando esquecia a letra de uma musica.. Por aí… Mas decerto que foi um dos shows mais interessantes que presenciei.

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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