Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 19

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Barata Cichetto


Em 1980 eu trabalhava numa loja, como balconista, vendendo artigos esportivos. Um dia, ao retornar para casa tive uma visão… A visão de anjo, sob a forma de mulher. Loira, linda, cabelos encaracolados abaixo dos ombros, alta, com uma bunda redonda e perfeita. Não acreditei quando a percebi olhando fixamente para mim. Tinha passado na minha loja de discos predileta e comprado entre outros, o disco “Curved Air Live”. Tinha escutado na casa de meu amigo James e ficara impressionado com a musicalidade e principalmente a voz de Sonja Kristina… Estava louco para chegar em casa e escutar minha nova paixão. Sonja era linda e cantava muito…

Mas, a visão daquele anjo humano mudou meus planos. Passei do meu ponto, decidido a ir até onde ela descesse, que poderia ser até no Inferno… Desci e comecei a acompanhá-la, tentando puxar conversa. Não foi difícil apesar da minha timidez, porque o Anjo começou… Justamente observando o disco que eu carregava. Disse adorar Curved Air.. “Puxa! Mesmo?”, “Sim…” E daí, depois de uma série de blá-blá-blás sobre Rock e de saber que ela era professora de português, embora trabalhasse numa fábrica de produtos eletrônicos, ter um irmão paraplégico e uma mãe doente mental… Pouco mais de meia hora, estávamos grudados feito carrapatos, com ela encostada na porta de aço de um bar fechado, ao lado de sua casa, fazendo um barulho desgraçado. Minhas mãos grudadas naquela bunda redonda, minha língua que ia tão rápido do pescoço á boca que eu mal conseguia respirar. Transamos ali, e eu nem sei se alguém, até mesmo o paraplégico do irmão ou a doida da mãe, tenha visto. Ela arrumou a bolsa no ombro, recompôs a roupa e saiu andando… “Hey, qual seu nome?”, “Aparecida!”, “A Santa?”, Tentei brincar. “Não, a outra!”, “Vamos sair no sábado”. “Não, não posso. Não posso deixar minha mãe e meu irmão sozinhos.”. Relutante me deu o telefone. Liguei no outro dia e marcamos no sábado… Estaria ali, seco e sem carnes se a tivesse esperando até hoje… Passei uns três anos apaixonado, procurando em cada um dos rostos dentro daquele ônibus o meu anjo, mas nunca mais a encontrei. A não ser, um dia, trinta anos depois, num supermercado: “Oi!”, “Oi,” “Fiquei esperando aquele dia e nos próximos…”, “Eu sei!”, “Porque não apareceu?” , “Não sei, mas nunca esqueci de …!” (Silêncio) “Nem eu…”, “Tchau!”, “Tchau!”

Eu tinha dado um salto em termos de forma de escutar musica, tendo comprado um potente “3 em 1” Sony. Como nunca tive um quarto próprio, dormia em uma cama de abrir que eu colocara bem junto ao aparelho de som, para que ao acordar a primeira coisa que fazia era ligar o som na Bandeirantes FM, que na época tinha uma programação totalmente voltada pra Rock e entre seus apresentadores, o genial Antônio Celso.

E assim aconteceu na manhã do dia 9 de Dezembro de 1980… “Confirmando a noticia dada durante toda a noite, John Lennon morreu assassinato ontem à noite na porta do Edifício Dakota, em Nova York, onde residia.” Aquilo foi uma bomba… Como? Lennon estava morto?? E a chance à paz??? E o mundo da “irmandade dos homens”??? E durante aquele dia, o mundo parecia ter acabado. Todos os sonhos pareciam terem se transformado em pesadelo… A noite, noticias nos jornais de TV mostravam detalhes…

Mas algo ali me marcou de uma forma tão forte quando a própria morte de um dos meus maiores ídolos: a notícia de ele e Yoko tinham, no mesmo edifício, aliás, o mais caro de Nova York, um apartamento apenas para guardar casacos de pele… Então, onde estavam aqueles conceitos que Lennon pregava sobre viver com menos posses, sobre igualdade entre pobre e ricos e tal…? Enfim, naquele dia me senti morto duas vezes. E aquele dia ficaria marcado na minha existência como um divisor de águas sobre os conceitos do Rock.

E pra mim, de certa forma, aquele foi o dia em que o Rock morreu. E meus discos não tinham mais a importância que sempre tiveram… E naquele dia e por algum tempo eu os odiei. E odiei tanto, que no final daquele ano de 1980, logo após publicar o meu livro de poesias mimeografado, vendi todos os cerca de 600 LPs que tinha, juntamente com o aparelho de som. Um dia inteiro carregando discos em sacolas de feira até a Wop Bop, loja onde eu comprara uma boa parte deles. Não acreditava mais no Rock, não acreditava mais na musica… John Lennon mentira e fora assassinado… E assim, no inicio de 1981 não sabia aonde ir, que estrada pegar, que bandeira erguer…

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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