Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 15

Compartilhe!

Barata Cichetto


Ainda dentro desses anos, que decerto foram os mais prolíficos e criativos da história da Rock, ao menos no Brasil em que tudo demorava muito a acontecer, os anos 1977 e 78, tenho agora em mente a chegada do Movimento Punk (se é que o Punk alguma vez, em alguma parte do mundo foi um movimento, ao menos na acepção correta da palavra). O Punk ao que conta a história surgiu na Inglaterra com bandas como Sex Pistols por volta de 1976. No Brasil, as primeiras, segundo os “historiadores”, em 1978 com Restos de Nada, Cólera, Condutores de Cadáver e Olho Seco, seguidas por Garotos Podres, Ratos de Porão, Inocentes. A coisa tomou forma e corpo com shows dessas e outras bandas que aconteciam nos domingos à tarde, no Metrô São Bento, que não durou muito tempo por causa das brigas que começaram a ser frequentes.

Mas o que pouca gente fala, talvez por desconhecimento, é a existência de uma banda que surgiu em Minas, possivelmente antes disso, em Minas Gerais chamada Banda do Lixo. E fui a um show dessa banda em São Paulo, não consigo precisar a data exata, mas com certeza foi no ano de 1978, no Teatro Célia Helena, na Liberdade. Um teatro minúsculo. Na memória estão alguns fatos: o vocalista usava botas de saltos enormes e ainda no começo da apresentação, o saldo de um dos pés soltou e ele passou o restante do tempo “mancando”; uma das músicas que eles apresentaram foi uma “Versão Punk” de “Páre o Casamento” de Wanderléia; no final do show, havia montes e montes de sacos de lixo recolhidos na calçada, que foi usado como arma numa “guerra de lixo”, instigada pelos membros da banda, que depois tomou conta da Rua Barão de Iguape.

O Punk parecia ser a panaceia do Rock e, tanto aqui quanto na Inglaterra e EUA, muitas bandas foram alçadas à categoria de Punk, sem nem saber do que se tratava. Era a máquina de ganhar dinheiro fazendo exatamente o contrário daquilo que o tal “Movimento” pregava. Um dos exemplos disso, que aliás gerou um erro que até hoje é repetido pelos menos informados, que é considerar o Joelho de Porco como uma banda Punk. Assisti dezenas de shows do Joelho e tinha o primeiro discos deles (“São Paulo 1554/Hoje”) e a banda poderia ser tudo, menos uma banda de Punk Rock. Qual foi o fato gerador? Nessa levada de Punk, a Som Livre, gravadora pertencente á Globo, contratou o conjunto e começou a veicular um comercial na TV com mais ou menos o seguinte texto, numa narração em tom satírico: “Joélho de Pórco, o primeiro conjunto de Pãnk Róck do Brasil”. Além disso, o Joelho era uma banda tipicamente paulista, nos temas e letras, e a gravadora os fez mudar a letra e o título de “Se Você Vai de Xaxado Eu Vou de Rock’nRoll” para “Rio de Janeiro City”, para tentar conquistar o público carioca.

O Punk, aos meus ouvidos já acostumados com Led Zeppelin e Pink Floyd, Janis e Cocker, e ao Rock Progressivo de forma geral, nunca agradou muito, nem como música, nem como “Movimento” e tenho comigo a opinião que foi o responsável direito pela criação dos subgêneros e da existência dos rótulos dentro do Rock. Até então tudo era Rock, mas a partir daí começaram a dividir em rótulos e isso acabou criando rachas e rusgas dentro de algo que parecia uno e indivisível… Em outras palavras, o Punk, que se pretendia como algo revolucionário acabou sendo o responsável direto pelo fim do Rock como Movimento Sociocultural.

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Conteúdo Protegido. Cópia Proibida!