Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 14

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Barata Cichetto


“Não encontro as palavras/A surpresa das coisas me confunde…)” – “Poemas de Exorcismo”. Em 1978 ainda se tinha um pouco daquele sonho dos Hippies, em criar uma sociedade igualitária e pensante, onde o sexo, a cultura e a música teriam papel de destaque na formação das bases sociais. E foi naquele ano que comprei um livro que viria a mudar minha maneira de pensar o mundo, ou ao menos sedimentá-la. O livro “A Morte Organizada” de Luiz Carlos Maciel, do qual tinha lido alguma coisa no Pasquim e na Rolling Stone Brasileira. E O livro me ganhava logo nas citações de abertura, com Buda, I-Ching e Castaneda. Em “Encruzilhada da Contracultura”, ele iniciava da seguinte forma: “O sonho acabou? o diagnóstico de John Lennon implica em sua própria negação; a síntese é o caos. Os sonhos acabam, o pesadelo continua.” A seguir, textos sobre contracultura, existencialismo e Rock. A análise de “Espesso Como Um Tijolo”, sobre “Thick as A Brick” do Jethro Tull, da maneira como ela é contada no próprio disco – como se fosse o trabalho de um garoto de 8 anos -, é analisada por Maciel de forma esplêndida, num dos melhores textos sobre Rock que já li. “Origem da Ciência”, direto da fonte de Allan Watts, desmascarando o mito da ciência como verdade absoluta. A partir de “A Morte Organizada”, minha mente abriu feito um paraquedas, e foi uma questão de pouco tempo para que eu buscasse nas prateleiras dos sebos e das bibliotecas, autores como Huxley, Orwell, Nietzche e abocanhasse como os peitos de uma donzela, o pensamento crítico de um dos gurus de Maciel, Alan Watts, cujo livro “Tabu” mexia com todas as estruturas morais e sociais vigentes. “O Rock resiste à pressão crescente exercida pelos meios de comunicação com a massa, em benefício da Morte Organizada.”

Em 1978 ainda não existia a Galeria do Rock… É, nem sempre ela esteve lá… Ao menos não existia da forma como conhecemos em seu auge a partir do final dos anos 1980 e adiante. Em Janeiro desse ano eu conseguira um trabalho temporário como entregador de IPTU, da Prefeitura de São Paulo. A maioria das pessoas que prestavam esse serviço era de “alternativos”. Músicos, poetas etc.. E foi lá que comecei amizades com muita gente “doidera”… Dentre esses conhecidos um, que tenho sempre em consideração em minha história e faço questão absoluta de não esquecer foi um cidadão que acabou ficando conhecido como “Nego Dito”, e que tinha o nome na época apenas de Itamar Assumpção. Pouco tempo antes eu tinha assistido uma apresentação de Jorge Mautner e me chamara a atenção o baixista da banda, que tinha um estilo digamos “estranho” de tocar. Saíamos em grupos para a entrega dos carnês de imposto e numa das conversas, disse que eu o conhecia. E ele ficou surpreso. Eu disse: “Você não é o baixista do Jorge Mautner?” A partir daí nos próximos meses, sempre que podíamos entabulávamos longas conversas sobre musica. Itamar sempre foi muito culto e inteligente e já naquela época detinha muitas opiniões firmes contra o “estado de coisas” da musica “… Itamar criou muito, pensou muito e deixou um legado espetacular.. Eu nunca mais o vi, e nunca fui a um show dele, mas uma espécie de recompensa chegou-me muitos anos depois, quando meu filho, desenhista, foi convidado a participar de uma homenagem a ele com a criação de um retrato que foi entregue à comovida viúva.

Mas também entre esses amigos que conquistei dentro do trabalho de entregador de impostos, lembro-me particularmente de James Dionísio, um camarada cheio de tiques, que usava um óculos de lentes verdes enormes, tipo “fundo-de-garrafa” mesmo, e era a cara do Ian Paice. James era fanático por Rock progressivo e me mostrou uma das coisas mais lindas que escutei: o disco “Curved Air Live”, da banda Curved Air. E foi por causa da indicação dele e em sua companhia que comecei a conhecer melhor os meandros da compra de discos usados. Até então, minha fonte de discos eram as grande lojas do ramo, como a Bruno Blois da Rua Pamplona e a Breno Rossi da 24 de Maio. Mas James era conhecedor de umas “bocadas” num subsolo de prédio na Praça da Sé, Rua José Bonifácio… E.. umas lojas “fodas” numa Galeria na Avenida São João… Essas lojas eram no máximo umas quatro ou cinco: a Punk Rock, a Grilo Falante, a Woop Boop de René Ferri, a meu ver este sim – sem nenhum demérito ao grande Luís Calanca – pioneiro da Galeria do Rock. E mais uma ou duas que não recordo o nome agora. E ali, nos próximos anos eu passaria a deixar parte de meu salário com a compra de discos, para o desespero e consequente fúria, de minha mãe, que via com desespero um filho com um cabelo nunca cortado, chinelos de pneu, calças surradas e rasgadas… Mas com caixotes de laranja improvisados como estante de discos, cada vez mais cheios.

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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