Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 12

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Barata Cichetto


Ao contrário da maioria das pessoas com quem convivia, nunca curti nenhum tipo de drogas. Experimentei maconha duas vezes, e além de não ter tido nenhum “barato”, detestei o cheiro da erva e ficava enojado de ver aquela “bagana” toda babada, circulando entre os dedos e bocas de um monte de gente. As drogas químicas eram muito raras, porque caras, por essas bandas e eu também nunca precisei nem quis ficar louco artificialmente. Afinal, segundo alguns amigos meus, eu já nascera “doido”. E uma das “desculpas” perfeitas que encontrei para não usar drogas e ao mesmo tempo não ser taxado de “careta” pelos amigos, estava na música “Alucinação”, feita por Belchior. “A minha alucinação é suportar o dia a dia, e meu delírio é a experiência com coisas reais.” Era 1976 e eu tinha 18 anos. E também foi graças a Belchior que eu conheci mais “malucas” que meus olhos e meu pinto penetraram…

Jane, aliás, Janete, era uma negra, linda, muito alta e magra. Quando a conheci, num festival no Teatro Bandeirantes, onde entre outras atrações, aconteceria o show de Belchior, senti algo que nunca sentira. Janete dançava e pulava, e gritava e se atirava no chão, totalmente fora do ritmo da musica, totalmente fora de órbita… Cheguei perto dela e ela simplesmente se atirou sobre mim e me abraçou. Não largou mais durante o resto da noite. Acordei no início da tarde num um cortiço próximo, com parte das roupas rasgadas e um monte de hematomas pelo corpo e Janete com a cabeça enfiada dentro de uma privada imunda. Ela ergueu a cabeça e pediu uma toalha, enxugou o vômito e me olhou como se fosse me matar. Depois pulou sobre mim, do mesmo jeito que pulava dentro do teatro, mas abocanhou meu pinto e ficou ali, um tempo enorme, sugando-o quase que infantilmente até dormir.

Quando a noite chegou, com fome, com frio e sede, acordei Janete e perguntei se tinha algo para comer. Comemos batata frita com pão e tomamos refresco, num silêncio de incomodar. “Tem som?”, “Tem aquele três-em-um ali, mas só funciona o gravador.” Abri minha bolsa de couro, pois sempre carregava algumas fitas e saquei a ultima aquisição “Rock’nRoll Animal”. Coloquei no aparelho e enquanto rolava a introdução do show perguntei; “Como é seu nome, mesmo?” “Janete!”… “Ah, sim, agora lembrei.. Te chamei de ‘Sweet Jane’ ontem a noite.”, “Hein?!” e a voz rasgada de Lou Reed encheu o cortiço: “Standing on the corner, suitcase in my hand, Jack is in his corset, and Jane is in her vest, and, me…”, seguida das outras musicas do disco. Quando chegou em “Lady Day” eu disse: “Sweet Jane, você minha Lady Day. Aliás minha Lady Night”. E depois disso, confesso que me senti um verdadeiro personagem de musica de Lou Reed. Alguma musica que ainda não teria sido composta, algo como uma mistura entre “Vicious”, “Venus In Furs” e “Walk On The Wild Side”. Jane era uma pantera saltando sobre mim, pulando, chupando.. E em meio a toda aquela exibição de contorcionismo erótico, fumava um cigarro de maconha atrás do outro. Sai dali no dia seguinte, já uma segunda-feira, perdi o dia de trabalho e quase o emprego por causa disso. E quanto á “Sweet Jane”, nunca mais a encontrei… Acho que ela ainda deve estar por ai… Pergunte a Lou Reed…

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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