Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 11

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Barata Cichetto


Em 1976 havia um enorme movimento cultural ao redor do Rock. Ao menos em São Paulo. Centenas de ótimas bandas faziam seus concertos em todos os lugares, da Tenda do Calvário ao Parque da Aclimação, do Teatro Bandeirantes ao Ginásio da Portuguesa, do Teatro Municipal.. Hein? Do Teatro Municipal?? É, sim! Duas das mais proeminentes bandas de Rock da época, quase lendas vivas, eram o Terço e Os Mutantes. E num dado momento desse ano, as duas se reuniram no palco do Teatro Municipal de São Paulo para tocar… Beatles…. Foi um alvoroço de gente, confusão na entrada e um bando de velhos encarquilhados criticando aqueles cabeludos tocando musica barulhenta em pleno palco sagrado do Municipal. E trajados com uniformes de “Seargent Peppers” se revezaram com seus repertórios próprios, para depois, na terceira parte do show, unirem os oito músicos e tocarem repertório dos Fabfour. Inesquecível, mesmo. Lembro de estar na primeira fila, bem a frente de Sergio Dias.. E da imagem da ponta muito fina da bota que ele usava bem a frente do meu nariz… Imagens, fotografias mentais que sobreviveram ao tempo…

Mas falando de bandas de Rock brasileiras, é interessante notar um fato muito importante. Embora na chegada do Rock a essas terras tenha sido sob a forma de “covers” (o primeiro Rock gravado aqui foi “Rock Around The Clock” de Bill Halley pela cantora Nora Ney), e posteriormente de versões, particularmente de músicas dos Beatles e outras bandas inglesas e americanas de sucesso, feito pelos expoentes da Jovem Guarda, o Rock feito e tocado nos clubes, bares e teatros e mesmo o Rock gravado, tinha letras em português, criações que, embora calcados no modelo original de assuntos cotidianos, como sexo, velocidade, bebida, eram cantadas em português. Quase todas as bandas que fizeram a história do Rock Brasil cantavam na língua que herdamos de Camões. Made In Brazil, O Terço, Mutantes, Golpe de Estado, Harppia, Secos e Molhados, Salário Mínimo, Patrulha do Espaço… Enfim quase que cem por cento delas compunham em português. Até meados dos anos 80, sequer existia o termo “Cover”. E quando começou isso? Difícil saber a resposta, se é que existe uma. Mas existiu um fato gerador nisso e o que arrisco agora é apenas um palpite, baseado em fatos ocorridos e em observações pessoais.

Com a “moda” do Rock, deflagrada a partir do sucesso de apresentações do Queen, em 1981, Van Halen e Kiss, 1983 e posteriormente o Rock In Rio, em 85, a mídia e as casas e bares onde bandas e artistas se apresentavam, precisavam urgentemente suprir os ávidos ouvintes dessas bandas com algo que não fosse apenas o disco. E assim, alguns artistas também de olho na grana que isso representava, aliada a preguiça ou falta de talento para compor repertório próprio, embarcaram na canoa que passava naquele rio e que se imaginava desaguar num mar de tranquilidade e prosperidade. Até então, sequer existia o termo “cover”. E isso foi com certeza a pedra que começou a sepultar o Rock feito no Brasil, pois os espaços para as bandas “autorais” foram diminuindo gradativamente, até praticamente desaparecer num tempo menor que 20 anos. E diminuir e desaparecer da mesma forma que o publico e os cachês pagos a músicos…

Foi mais ou menos nessa época que conhecera uma revistinha chamada “Sarrumor”, editada por Laerte Julio, que depois viria a ser conhecido por Laerte Sarrumor e fundaria a banda “Língua de Trapo”. E começamos a trocar correspondência, que num determinado momento passou a ser respondida por um, na época, iniciante baixista chamado Luiz Antônio Domingues, que logo seria conhecido como “Tigueis”, da Chave do Sol, Língua de Trapo etc. Em uma dessas cartas, Luiz me chamava a atenção a alguém que fazia um trabalho muito interessante que se apresentara num Festival da TV Cultura chamado, se não me estou enganado “Festival Universitário da MPB”. O nome (conforme entendi pela grafia dele era “Amigo Barnabé”… Era Arrigo Barnabé, que lançaria logo em seguida um dos trabalhos mais criativos da época “Clara Crocodilo”. Pouco tempo depois, Arrigo, acompanhado de uma banda da qual faziam parte entre outros Tetê Espíndola, Vânia Bastos e um time de músicos de uma competência extraordinária, fazia uma apresentação história num teatro da Rua Augusta… E é claro, com minha sempre solitária presença.

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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