Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Parágrafo 1

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Barata Cichetto


Minha geração foi uma das mais malditas de todos os tempos. E se não de todos os tempos, ao menos a maldita das malditas do Século XX. As gerações nascidas na primeira metade do Século criaram o rádio e a televisão, fizeram ou participaram de duas guerras mundiais e inúmeras revoluções culturais e artísticas ao redor do mundo. Evoluíram a medicina, os esportes, a política e as artes em geral. E foram essas gerações que criaram o Rock’n’Roll, uma espécie de filho bastardo do Blues com o Folk, como querem alguns historiadores, ou do o Jazz, como desejam outros. E principalmente, a geração nascida da Guerra (a Segunda Guerra Mundial) deu ao mundo gênios das artes e particularmente do Rock, como Janis, Syd Barrett, Hendrix, Pete Towshend, Zappa… Menos por acaso e muito certamente por terem sido gerados e trazidos ao mundo a meio a tanto medo, angustia e temor, essa geração carregou o mundo ao seu mais alto grau de evolução cultural e artística. Ao menos por um tempo, ao menos até serem mortos ou engolidos por uma guerra diferente daquela que os vira nascer, uma guerra em o que o importa não é quantos mortos resultam de uma ação, mas sim de quanto se ganha com ela.

Então, uma geração nascida entre 10 e 15 anos após o término daquele conflito que condenou milhões de seres humanos à morte e a humilhação supremas, surge a minha maldita geração. Em principio seria mais fácil nascer sem o temor de bombas e tiros sobre a cabeça, mas o temor dentro do qual nascemos era… O temor do “nada”. E particularmente no Brasil, terra sem nenhuma herança cultural forte, sem nenhum passado de lutas, um dos poucos países do mundo cuja “independência” não fora conquistada pelas armas, mas sim pela atitude vaidosa de um pseudo-imperador mulherengo, aquela geração nascida a partir da segunda metade dos anos 1950 até a primeira dos 60, fora determinada como a geração do medo… De tudo. Essa geração nasceu junto com o Rock’n’Roll, que pressupunha a luta por “igualdade, liberdade e fraternidade”, mas logo aprendeu que essas coisas tinham sentidos distintos, em dois momentos da história: 1 – Proibidos, 2 – Comercializáveis.

A Geração Maldita, termo que doravante usarei ao me referir a minha geração, que hoje, nos primeiros anos da segunda década do Século XXI atingiu meio século de existência, era jovem demais para ter ido á Woodstock, por exemplo. Mas se tornou velha e dependente demais das sementes plantadas naquela fazenda americana, em 1969. No Brasil, essa Geração Maldita foi criança e adolescente alimentada pelo chumbo dos fuzis, o aço das baionetas e as porradas na boca dadas por “soldados armados, fardados ou não”, como cantara Geraldo Vandré. Todos nós, aliás, apenas “caminhando e cantando e seguindo a canção… Braços dados ou não”. Tínhamos apenas a herança de um sonho que não construíramos, tínhamos apenas a missão de continuar uma “guerra” na qual não tínhamos dado um tiro sequer. Em 1º de Abril de 1964, quando a maioria de nós ainda estava no Grupo Escolar, militares meteram o pé na porta de uma democracia já combalida e começaram a carregar um país inteiro, na época de cerca de uns 70 milhões de pessoas, a uma realidade de mentiras, dor, tortura e medo.

E crescemos assim, no medo, na angustia, na proibição de tudo, na educação fraudulenta e podre baseada nas estruturas mais doentias das mentes militares, com um ufanismo enfiado literalmente garganta abaixo. Corria muito sangue pelas ruas, daqueles que se dispunham, até mesmo com o risco de suas próprias vidas, a lutar contra aquilo… Mas nós, nós da Geração Maldita éramos apenas crianças, e de nada sabíamos, nem podíamos saber. Então, o que restara àquela Geração? Rock, apenas o Rock… Ao menos àqueles de classes menos favorecidas, pois a chamada MPB, queiram, gostem ou não, sempre foi elitista e nunca Popular, sempre refletiu os desejos e sentimentos de uma Classe Média. Uma classe que no Brasil sempre foi sinônimo da Síndrome das Varizes, ou seja, sempre pensou tinha sangue azul quando era mesmo portador de varizes. E o Rock dizia que era igual a nós. E não nos restava outro caminho a não ser… Segui-lo.

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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