Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Direito de Herança

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Barata Cichetto


Acho o Direito de Herança uma das coisas mais sórdidas e injustas que o sistema capitalista criou. Filhos, esposas e etc., recebendo dinheiro por algo no qual nem sempre (aliás na maioria das vezes) participou. Esse tal direito tornou milionários muitos preguiçosos. Seres que, enquanto o pai ou marido se arrebentava de trabalhar tinham vidas totalmente dedicadas à vagabundagem. E depois da morte do sujeito, passaram a mão em quantias vultosas em bens e dinheiro. E quando tratamos de arte, então, a coisa piora em quinhentos por cento. A maioria dos artistas, principalmente escritores e poetas, foram humilhados e rechaçados em suas próprias famílias. Foram tachados de preguiçosos, folgados e vagabundos. Mas aí, quando mortos, essa mesma família recebe por frutos que, se dependesse inteiramente dela, nunca teriam amadurecido. São casos clássicos de direitos de herança na literatura, particularmente. Franz Kafka por exemplo, nunca ganhou porra nenhuma com seus escritos e mandou, à beira da morte, que seu melhor amigo queimasse seus livros. Max Brod, o tal amigo, não cumpriu o chamado ultimo desejo de um moribundo, e o mundo então conheceu a obra magnífica de Kafka. Mas, não sei se ele ou quem mais ganhou, mas o fato é que muita gente lucrou e lucra com aquelas obras. Raul Seixas morreu sozinho, implorando pelo retorno de uma companheira que atualmente ganha um monte de dinheiro em cima do nome daquele a quem ela desprezou. E como essas, um monte de outras referências a isso. E mesmo comigo. Meus pais sempre me rotularam de esquisito e preguiçoso… “Esse aí, ah, ele é poeta..” Num tom descaso e como querendo dizer: “Ah, esse aí, Ah, esse é um bandido!”. Minha primeira mulher me “obrigou” a jogar fora uma mala cheia de poesias e, depois de 15 anos, quando retornei a escrever, passou a afirmar que odiava o personagem principal de “O Feijão e o Sonho”, tachando a ele, e por tabela a mim, de “irresponsável”. Um detalhe: trabalho desde os 12 anos, quando comecei a ajudar meu avô empurrando um carrinho de vasos pesado pelas ruas. E nunca, com exceção de algumas épocas em que fiquei desempregado por poucos meses, deixei de trabalhar e manter família. Mas é certo que, acaso minha poesia, minha literatura rendesse um bom dinheiro, as coisas seriam diferentes. Filhos? Ah, filhos querem pais bem sucedidos, gordos, carecas e ricos para que possam confrontar, confortar e no fim… Serem idênticos… Enfim, é justo que após a morte, essas pessoas obtenham lucro com algo do qual, além de não terem participação alguma, sempre execraram? Sou da seguinte opinião: o “lucro” de um trabalho artístico deve ser dado apenas e tão somente ao artista enquanto pagamento por seu trabalho. Morto o artista, o lucro advindo da venda de seu trabalho deveria ser administrado por um fundo destinado ao financiamento de outras obras artísticas, assim mantendo-se, alimentando-se a arte da própria arte.. Isso é um assunto complexo e extenso, reconheço, mas de minha parte, é meu desejo que, acaso um dia, minhas obras tenham algum rendimento pecuniário, que seja ele destinado ao financiamento de outras. Nada mais! Se meus filhos desejam obter algum rendimento sobre arte, que façam suas próprias, usando a herança maior que poderia lhes dar: a genética e o incentivo às artes, à leitura e ao pensamento livre.

 

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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