Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll – Cinemas de Rua

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Barata Cichetto


No centro da Penha, onde morei a maior parte de minha infância, a adolescência inteira e parte da vida adulta, chegaram a existir 4 cinemas num quadrilátero de menos de um quilômetro. O Penha Príncipe, Penha Palace, que depois mudou de nome para Penharama, o Júpiter e o São Geraldo. No lugar dos três primeiros estão lojas e o São Geraldo virou um estacionamento e um cartório, onde a bilheteria é o caixa e as outras instalações estão praticamente intocadas. O Penharama era enorme e tinha uma “qualidade”, que era deixar a molecada entrar em filmes proibidos para menores. Mesmo nos outros bairros mais distantes existiam cinemas, como o Saturno na Vila Granada. A Avenida Celso Garcia, que hoje é recordista na presença de igrejas evangélicas, com mais de 20 em menos de dois quilômetros, talvez tenha esse recorde também, nos anos 1970 e 80, com relação ao numero de cinemas.

Mas era a região central que concentrava a maior densidade de cinemas de rua. Art Palacio, Ipiranga, Marabá, que foi recentemente restaurado e o único a ainda resistir, Regina, Metro que tinha duas salas e onde aconteciam as Sessões Malditas de sexta à noite e hoje é a sede de uma igreja neopentecostal, Comodoro Cinemarama, cinema enorme, com tela gigante e som realista, que parecia nos colocar dentro do filme; Cinespacial que era redondo e tinha três telas no alto, Dom José que ainda existe, mas como cinema pornô, Coral, República, Marrocos, Barão, Olido, Paissandu, Metrópole, o belíssimo Ouro com uma decoração imitando uma rua de Ouro Preto, Belas Artes Centro, Arouche especializado em cinema político, e maravilhoso Cine Bijou, na Praça Roosevelt que exibia filmes de arte.

A maior parte desses cinemas eram enormes, para 1.000, 2.000 lugares. As sessões eram duplas, e além dos dois filmes ainda exibiam curtas metragens e reportagens sobre futebol, política e vida social, o famigerado “Canal 100”, de Primo Carbonari, nos intervalos. E sem contar a existência do chamado “Lanterninha”, que de uniforme e portando uma lanterna, guiava os que chegavam no meio das sessões até os melhores lugares, iluminando o caminho e o assento, além de zelar pela disciplina. As salas não tinham ar condicionado, quando muito um ventilador barulhento e as poltronas em muitos casos eram de madeira pura. A projeção então era bem precária, fazendo com que muita gente não gostasse de assistir filme nacional por não entender o que era dito. O problema não eram as produções, mas a péssima qualidade dos projetores, em muitos casos.

Milhares e milhares de horas de minha existência, dos 10, 12 anos e até os 30 e poucos, passei dentro desses cinemas. Cheguei a assistir seis filmes num único dia em três cinemas diferentes. E desde a primeira vez que entrei em um cinema, com cerca de 6 anos de idade com meu pai para assistir “Paixão de Cristo”, passando pela primeira vez que fui sozinho, com cerca de 10 anos assistir “300 de Esparta”, passando por momentos de extremo prazer cinéfilo, como as sessões no Bijou e nos Arouche, a magia dos cinemas de Rua, particularmente do Centro de São Paulo, é algo que apenas quem saiu em muitos momentos com coceira por causa de pulgas ou com chicletes grudados nas calças deixados nas poltronas por moleques, mas com todos os sentidos deliciados com a sétima arte, sabem entender.

Do Livro: Barata: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll (Uma Autobiografia Não Autorizada)
Editor’A Barata Artesanal, 2012
(ESGOTADO)

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Viveu a vida entre Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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