Barata Cichetto – Perdidos no Espaço

Compartilhe!

Barata Cichetto


Acordo tarde, mas nem tanto. Um gosto de merda em minha língua,
Tenho que parar de beber, segundo minha mãe, ou morro á míngua.
Em lugar das pernas enroscadas, e cabelos presos entre meus dedos,
Dois pares de patas de um cachorro pulguento e dois pares de medos.

Por quantos medos são feitos uma noite de solidão, eis a questão,
Mas a resposta chega sob a forma de dor de barriga e indigestão.
Sou poeta panfletário do Século XIX, decretaram em tom histérico,
Mas não tenho idade de morrer de tuberculose ou tremor colérico.

Agora o espelho mostra um homem de barba comprida e grisalha,
O tempo é tão é cruel, frio e perigoso quanto o fio de uma navalha.
Imaginar que amores são maiores que o tempo é total absurdo,
Porque o egoísmo é cego, o desejo é mudo e o coração… Surdo!

Castro e Augusto morreram antes de mim e não conhecem minha dor,
Mas a dor deles conheci, bem antes da era egoísta do computador.
Agora o Banquete dos Mendigos, mesas fartas de comidas estragadas;
Ruas são mesas de banquete em que a comida são putas embriagadas.

Ontem transei com um par de putas, uma delas dentro do banheiro,
Queridas putas, parem de fingir que o que gostam é do dinheiro!
Tenham compaixão de meu pinto, queridas putas sem eira nem desejo;
Leiam a poesia e chupem minha língua, que depois lhes dou um beijo.

Gasto o salto de minhas botas em asfaltos negros cheios de putas peladas;
Minha alma gasta, esfarela feito areia no árido deserto de almas geladas.
Cheiro de perfume barato. Ah, flores mortas são transformadas em perfume:
A essência é a indecência. Então conte comigo, que eu engulo seu estrume!

Não quero saber detalhes de sua infância, não conte, é preferível
Carregar uma história nas costas, um fardo pessoal e intransferível.
E não quero a sua dor, apenas seu gozo e seu melado entre as pernas,
Pois amores e mentiras morrem, mas putas e poesias elas são eternas!

Tenho dor no braço de tanto bater punheta! É tão bom chupar uma buceta!
Estou cansado, deixa eu dormir que amanhã tenho que matar outro capeta.
Acordo cedo que o Danado acorda de madrugada, junto com as freiras
Mas, apenas queria saber porque sempre morro antes, às sextas-feiras.

27/08/2009

Do Livro: Memórias Arrependidas de Um Poeta Sem Pudor
Antologia Poética, de 1978 a 2024
Para Comprar: https://loja.uiclap.com/titulo/ua46272/

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

5 1 Vote
Avaliação do Artigo
Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários