Barata Cichetto – Eu Morte

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Barata Cichetto


Chego na calada da noite ou em pleno dia perfeito
E na luz ou escuridão tomo o que é meu por direito
Em silêncio ou no barulho da cidade, um grito surdo
Sorrateiramente ou com escândalo, nada é absurdo.

Com muito sangue escorrido ou sem uma gota sequer
Pelo veneno, pelo esperma, ou outro liquido qualquer
Chego com o gozo e o riso e também com lágrimas
De alegria ou prazer, não me importam tuas lástimas.

Chego com precisão cirúrgica e no tempo que escolho
E feito a mão do carrasco ou do médico, vidas recolho
E não adianta chamar-me por amada e dar-me beijos
Pois chego-te apenas quando afloram os meus desejos.

Quando me tiveres a frente não te preocupes com rezas
Não sou o que nelas tanto temes e que tanto desprezas?
E se fosse eu deixar de carregar aos crentes e aos loucos
Sobraria em meu embornal a presença de muito poucos.

De pouco ou nada adianta perguntares por meu preço:
Seu dinheiro pode comprar putas, mas não meu apreço
E eu que, nem lésbica nem bicha, cobro um único valor
O do seu corpo sem movimento, enrijecido e sem calor.

E aos que pensam me enganar, os estúpidos suicidas
Apertando gatilhos ou tomando frascos de formicidas
Que guardem sua prepotência e a sua vontade de final
Para o momento em que eu decida seu momento ideal.

Quando seu momento estiver a sua frente não implore
Pois não ofereço fé nem misericórdia, então não chore
E nem reze pedindo a seus deuses perdão aos pecados
Pois seus deuses são meros portadores de meus recados.

Também não imagine, nem creia na mentira da igreja
Que dos meus braços retorna aquele que assim deseja
E acredite que de mim teus deuses não te podem salvar
Nem de uma eternidade sem anjos e demônios te livrar.

Chego quando quero, fico apenas o tempo que preciso
E parto quando desejo, levando ao espelho e a Narciso
As belas roupas ou mesmo sua nudez e vontade de sexo
Não impedem que por minha vaidade mate teu reflexo.

E por falar em vaidade, quero falar-te sobre uma beleza
Aquela que não enxergas no espelho e que é a natureza
Então mostro-te no último momento ao meu próprio rosto
Porque que assim não terias por mim um eterno desgosto.

Quando chego é comum falarem que o ser comigo partiu
Mas não apareço, estou sempre desde que a mãe o pariu
E ninguém parte comigo, pois partir é ir a algum lugar
Mas não há nenhum, pois não tenho casa para alugar.

Falam muito de minhas roupas, de meus negros mantos
E às minhas vestes tecem odes, hinos e até belos cantos
Mas não uso roupas e não carrego foices ou algo risível
Estou sempre à vista, presente e palpável, mas invisível.

Não tenho nada a falar, nada pergunto, nada eu vejo
Eu não faço sexo, não dou prazer nem quero um beijo
Nem carne e nem osso, nem alma e nem espírito eu sei
E não sou aquilo que pensas, mas apenas o que pensei.

Não faço programa, não barganho nem faço vingança
E por minha justiça não poupo ao velho, nem a criança
Afinal não sou prostituta, nem bicha, lésbica ou consorte
E desprezo qualquer sentido de moral, justiça e de sorte.

Hermafrodita, maldito, bendita, mulher e homem, amém
E afinal não tenho forma e não sou nada e nem ninguém
Mas deixo que chamem por mulher por consolo materno
Embora não seja macho nem fêmea, aquilo que é eterno.

Não sou primeira nem a última, vegetal ou sequer mineral
E não estou em nada, nem no vácuo ou no espaço sideral
A embriaguez, a timidez e os versos não te afastam de mim
Pois em todos os universos sou a única portadora do seu fim.

19/05/2013

Do Livro: Memórias Arrependidas de Um Poeta Sem Pudor
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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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