Foto: Pexels - Yan Krukau

As Pupilas do Senhor Leitor

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Barata Cichetto


Não é por me gabar, mas sou efetivamente um Texto inteligente, e creio que, até o presente momento o caríssimo Leitor, nunca colocou os olhos em algo dotado de tamanha inteligência, quanto encontrará, finalmente, em mim.

Aliás, por falar em olhos, percebo suas pupilas um tanto dilatadas, sinal que o fascínio aliado à ansiedade por conhecer-me lhe tomaram a mente. É possível também que suas mãos estejam tremendo ao segurar o livro e virar suas páginas. Sinto-as suar em contato com minhas letras.

Sou mais exatamente uma crônica, que é como deve ser definido meu gênero, ― que fique bem claro que não sou macho ou fêmea, refiro-me a mim mesmo no masculino, bem como a si, apenas por uma questão de generalidade estético-literário. Meu papel, portanto, a partir dessa definição é contar-lhe uma história de forma ágil e rápida, e com uma quantidade reduzida de personagens. Então, postos à luz esses conceitos, levo a cabo a história que terá apenas nós dois, eu e o querido leitor, protagonistas e antagonistas desta história que não é a de ninguém senão nossa, minha e sua. É a nossa história.

E nossa história começou em uma livraria, onde o senhor ficou intrigado com meu título e resolveu levar o livro para casa, depois de pagar e pedir àquela moça bonita do caixa e embrulhar para presente, quando então pensei que eu seria ofertado a algum amigo, namorada, esposa ou mãe, mas fiquei ali, na sua estante, quieto e ignorado a espera de que, em algum momento, eu pudesse ser levado a sua mesa ou cama, o a qualquer lugar, e fosse lido.

Não sei quanto tempo se passou, pois a mim ele nada significa, pois posso ficar esquecido num canto durante semanas, meses, anos e até séculos, sem que nada se modifique, sem envelhecer ou deteriorar-se, permanecendo o mesmo, exatamente como no momento em que fui criado. Com o passar do tempo, algumas de minhas palavras podem perder seu sentido original e mudar a grafia, mas eu permanecerei na essência exatamente o mesmo. É essa a característica maior da minha espécie, a literatura, que é permanecer, independente de qualquer maior mudança na estrutura do mundo, intocável.

Ainda na livraria percebi rapidamente seu olhar curioso quando chegou ao meu nome no alto da página: “As Pupilas do Senhor Leitor”, decerto lembrando, acaso conheça, um grande clássico português, e imaginando tratar-se de uma paródia, mas efetivamente surpreso com o fato de eu falar diretamente a sua pessoa. Confesso que fiquei muito feliz, ao ter seus olhos diretamente sobre mim, e percebeu em seus lábios um sorriso malicioso.

Interessante essa nossa história, e até percebo certa dose de misticismo pairando sobre ela, pois me parece que nos atraímos mutuamente: eu poderia neste momento estar sendo lido por qualquer outro leitor, mas não, são apenas a seus olhos e sentidos que encanto, ou ao menos tento encantar. É claro que não fui escrito com intenção de agradá-lo pessoalmente, já que até alguns minutos não nos conhecíamos, mas como qualquer ser vivente como efetivamente sou, tenho a personalidade voltada a agradar a quem lhe trata com carinho, e portanto espero ser de seu inteiro agrado.

Tenho apenas uma mágoa, que é não poder saber, como sabe de mim, os pensamentos, apenas posso aperceber-lhe sentimentos de acordo com o movimento de suas pupilas, da rua respiração quente sobre as páginas onde habito, e as expressões de seus lábios. E sem quer parecer dramático, pois que não sou um desses contos melodramáticos com histórias amorosas, nem piegas como em estórias da carochinha, preciso lhe dizer que tenho uma única certeza, que foram, aliás, a razão maior da minha criação: sem o teu olhar eu não existo. Então, a única coisa que lhe peço é o que qualquer amante lhe pediria, que é respeito e atenção.

Pode ser que quando terminar de me conhecer fique desapontado comigo, o que é perfeitamente normal, pois por melhor que eu seja, por melhor que esteja trajado, e por mais corretas que sejam as palavras que ensejo, sempre há o seu momento, ou mesmo a capacidade de compreender-me. E a isso não daremos a nenhum de nós dois um voto de desonra e descrédito, já que havemos de praticar o respeito mutuo. Temos também que considerar outro fator inerente às relações entre seres vivos, que diz que o conhecimento pode trazer consequências más, como a frustração ou o enfado. Em qualquer desses casos, fique tranquilo, e não tenha consigo qualquer preocupação em esquecer-se de mim completamente. De fato, espero apenas que, enquanto durar nossa relação, possa lhe ser útil, trazendo-lhe entretenimento e distração, e quem sabe, até mesmo alguma contribuição.

Por fim, peço-lhe que quando eu não mais lhe for útil, que não faça comigo como fazem com as pessoas, e não me deixe abandonado num canto da sua estante, abandonado, e me entregue a outro, sem se preocupar em resgatar o papel de presente com o qual saiu comigo da livraria, ansioso. Me entregue a outro leitor, a quem eu possa, quem sabe, dilatar as pupilas.

14/05/2019

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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