As Histórias de Tom Croos – Stacie – Capítulo 1

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Walter Possibom


Saint Peckkie era uma cidade enorme, em sua região central abrigava um mar de edifício comerciais que conferiam a cidade um aspecto acinzentado e até mesmo sombrio.

Nessa cidade ficava a sede da maioria das grandes empresas do país, o que caracteriza a cidade como um centro financeiro por excelência. ~

O crescimento da cidade obrigou a que os edifícios residenciais fossem construídos em sua periferia, restando poucos edifícios dessa natureza no centro da cidade, com isso o transporte coletivo foi enormemente desenvolvido, principalmente o metrô, o qual era o principal meio de transporte de todos.

Em meio a tantos prédios e escritórios localizava-se o escritório da Companhia Agrícola Sunyseed, a principal empresa de agronegócios do país, nela é que Stacie trabalhava.

Ela era uma garota linda em seus vinte e três anos, ela tinha olhos verdes e cabelos aloirados, ela trabalhava na área contábil da empresa, tinha um trabalho de grande responsabilidade. Mas ela era vista como uma garota estranha, pois ela sempre almoçava sozinha, em horário diferente dos demais, jamais comia junto de alguém, e por mais que estivesse quente ela sempre usava camisas com mangas longas e calças.

Alguns a consideram uma garota exótica outros a consideram louca, apesar de todos que trabalham com ela a terem como uma excelente profissional, ela era muito inteligente e sempre conseguia soluções brilhantes para os problemas que levavam a ela.

Esses foram os motivos dela, tão jovem, já ter um cargo importante: seu chefe tinha completa confiança nela, pois ela era uma funcionária extremamente eficiente e resolvia todos os problemas com facilidade e rapidez.

A sexta feira estava quente, ela trabalha até as oito horas da noite, quando então termina os relatórios da semana, ela desliga o seu computador, guarda suas coisas na gaveta, pega sua bolsa e sai de sua sala, onde estava sozinha, todos já tinham ido embora, o que era uma rotina quase diária.
Ela desce pelo elevador, mostrava-se algo nervosa, passa pela portaria e é cumprimentada pelo porteiro e ganha as ruas.

Assim que sai ela olha para cima fecha os olhos e inspira profundamente, solta lentamente o ar dos pulmões, olha para frente abre os olhos e começa a caminhar.

Após um tempo de caminhada ela chega ao Meaningless Pub, ela desce as suas escadas, o ambiente era um tanto dark, sua iluminação era baixa, ela vai até o balcão e senta n uma cadeira, logo chega o barman e diz:
— Boa noite Stacie.
— O mesmo de sempre?
Ela olha para o jovem sorri e diz:
— Sim Joe.

Sem demora o jovem trabalhador pega um copo, coloca-o à frente dela, se vira e pega uma garrafa de Old Crow Kentucky Straight Bourbon e enche o copo, coloca um guardanapo ao lado do copo sorri para ela e se afasta.

O primeiro gole é grande, então repousa o copo abaixa a cabeça fecha os olhos e busca a paz dentro dela mesmo.

Fica assim por algum tempo, então dá outro gole na bebida, faz um aceno ao amigo Joe que responde a ela acenando positivo com a cabeça, ela volta a dar outro gole até que termina com todo o conteúdo do copo.

Joe imediatamente se aproxima dela pega o copo, passa um pano sobre o balcão e sai. Não demora muito e ele volta com um hambúrguer num prato com batatas fritas, repousa no balcão em frente a ela, se volta pega uma garrafa de cerveja abre e a coloca no balcão, junto a um copo, ao lado do sanduiche.

Em seguida se retira.

Stacie faz o seu jantar ali.

Assim que ela termina ela paga cumprimenta a Joe e se retira do pub.

Vai à estação do metrô e logo pega um carro que a leva ao lado norte da cidade, ela desce e no mesmo quarteirão ela entra num edifício, sobe até o vigésimo andar e entra em seu apartamento.

Joga sua bolsa sobre a poltrona e se joga no sofá, ali ela fica olhando para o teto por vários minutos.

Seu rosto era inexpressivo, ela olhava fixamente, então, de repente, ela se levanta, vai até uma prateleira pega um disco do Lou Reed e deixa a música rolar e volta ao sofá.

O disco chega o seu final, ela então se levanta, desliga o aparelho e vai ao quarto.

Lentamente vai tirando sua roupa, e aos poucos ela vai mostrando as inúmeras cicatrizes de cortes lineares e paralelos que tinha pelos braços e pelas pernas, sinais de muito sofrimento.

Assim que ela tira toda a roupa ela vai até o armário e de dentro dele tira um estilete, volta à cama e senta nela, Stacie olhava para o nada, então se levanta e vai ao banheiro.

Enche sua banheira com água e se deita nela.

Então seus braços se elevam para cima do nível da água e com o estilete em sua mão direita ela faz mais dois cortes em seu antebraço esquerdo, em seguida faz mais dois no direito.

O sangue escorria e se misturava à água, ela se mantinha impassiva, seus olhos continuavam sem brilho e olhando para o nada, ela então mergulha o corpo todo na água.

Fica ali por alguns instantes e em seguida ela retira a cabeça da água, deixando o restante do corpo mergulhado na água rósea.

De repente algumas lágrimas escorrem por seu rosto, a dor ainda estava sendo combatida, a batalha estava longe de ser ganha.

Ela sai da banheira, enxuga o corpo e faz um curativo nas feridas, volta para a sala e senta no sofá e fica ali por algumas horas sentada com a mente fervilhando, sem compreender nada.

Vai para a cama se deita e dorme.

Stacie acorda por volta das dez horas, os raios do Sol entravam pelas frestas da janela, o quarto estava claro, ao contrário de sua mente que era de sombras, ela levanta vai ao banheiro e faz sua toalete, volta ao quarto e se veste com uma roupa leve.

Toma um café da manhã frugal, vai à sala e pega sua bolsa, procura por algo nela, e após um tempo encontra um pedaço de papel, nele havia um endereço para o qual ela fica olhando por um bom tempo.

Ela pega o papel e coloca de volta na bolsa, volta ao quarto e troca de roupa, em seguida sai do apartamento e sai para a rua.

Caminha até uma estação de metrô, pega um carro que a leva até a zona oeste da cidade, ali ela desce e sai da estação, caminha lentamente, sua mente estava muito longe dali como costumeiramente acontecia quando ela caminhava só, ela vê um carrinho de cachorro quente e compra um lanche, caminha mais um pouco e senta num banco.

Dá uma mordida no lanche, mastiga lentamente aquele pedaço de sanduiche, as pessoas passavam diante dela, mas ela nem percebia, assim que ter mina de mastigar ela o engole, em seguida fica estática, por um bom tempo.

A tarde vai indo embora e a noite estava chegando, e ela imóvel no banco.

De repente ela levanta vai até uma lixeira e joga o restante do sanduíche, volta a caminhar, vai para uma parte mais pobre da cidade.

Ela caminha por ruas vazias, o lixo nas ruas era sinal do descuido que aquela região sofria, ela vai até um prédio pequeno, sua alvenaria estava toda deteriorada, ela pega aquele pedaço de papel e checa se o endereço onde ela estava conferia com o que estava escrito nele.

Ela estava no local certo.

Ou errado!

Ela entra no pequeno prédio, sobe até o primeiro andar, vai até o número onze, bate à porta, logo uma pequena fresta nela se faz e um homem se apresenta e diz:
— O que você quer?

Ela responde:
— Eu quero vida.

Ele dá um discreto sorriso abre a porta, sai um pouco e olha para todos os lados e diz a ela:
— Entre.

Ela entra, e o homem diz:
— O que você quer?

Ela responde:
— Heroína.

O homem sorri e diz:
— Quanto?

Stacie hesita um pouco, respira fundo e diz:
— Quatro saquinhos.
— E uma seringa com agulha.

O homem se espanta e diz:
– Vai fazer uma festa?

Stacie apenas olha para ele sem falar, nada, o homem dá o preço, ela tira o dinheiro da bolsa e entrega a ele, em seguida ele sai e vai para um outro cômodo, logo ele volta e entrega o “pedido” a ela.

Stacie pega o material coloca em sua bolsa, se vira vai em direção à porta e a abre, em seguida sai por ela.

Stacie volta às ruas, a noite estava bem próxima, ela sai daquele bairro e volta à estação do metrô.

Estava voltando para casa quando decide fazer diferente, ela desce numa estação antes de onde morava, e vai a um bar que havia perto dali que era frequentado por artistas e músicos.

Ela senta numa cadeira em frente o balcão, o garçom se aproxima dela e ela pede a ele:
– Quero uma dose dupla de Old Crow Kentucky Straight Bourbon.

O garçom balança a cabeça em sinal negativo e diz a ela:
— Só tenho Jim Beam.

Stacie olha desanimadamente a ele e diz:
— Então me pegue uma dose dupla de Jim Beam.

O homem se retira e logo volta com a bebida.

Stacie estava diferente naquele dia, a angústia estava mais forte que o habitual, e ela não estava conseguindo lidar com ela.

A dor em seu peito estava insuportável, ela então toma toda bebida num único gole na tentativa de que isso possa diminuir a sua dor.

Passados alguns minutos e a dor parecia estar aumentando, ela chama o garçom e pede mais uma dose dupla daquela bebida, e depois mais uma e depois mais uma.

Nem essas doses extras resolvem, ela começa a ficar inquieta, então acerta a conta e sai do bar.

Ela caminha pelas ruas do bairro sem rumo certo, de repente ela passa diante de um local vazio, ele ficava entre dois prédios, devia ter cerca de três metros de largura, nas laterais desses dois prédios não havia janelas, ela então entra nesse local.

Havia algumas latas de lixo próximos à entrada desse beco, o qual não tinha saída, ela senta atrás da lata de lixo, assim ninguém a podia ver da rua.

Ela recosta suas costas na parede, as lágrimas começam a escorrer por sua face, a dor estava em seu ponto mais alto.

Após um tempo a bebida começa a fazer seu efeito, ela fica tonta, então toma coragem de fazer aquilo que acha que seja a única solução, ela pega a droga, em sua bolsa tinha uma pequena garrafa com água, ela joga fora um pouco dessa água e joga quase toda a droga que tinha nessa água.

Ela chacoalha bastante a garrafa, então pega a seringa e aspira o quanto pode do líquido, pega a agulha e a acopla à seringa, pega uma pequena tira de borracha que tinha na bolsa e faz um laço em seu braço esquerdo.

Ela olha para o céu e as lágrimas continuavam a escorrer por seu rosto, ela então pega a seringa e tenta pegar uma veia, de repente um vento forte se faz presente, em seguida começa a chover, os cabelos dela esvoaçam, com isso ela não consegue ver bem o que estava fazendo.

Então um jovem aparece, e antes que ela injete totalmente o líquido, ele segura a mão dela, e com uma voz suave diz a ela:
— Não faça isso Stacie.
— Essa não é a saída.
— E muito menos o fim dos seus sofrimentos.

Ela olha para ele, mas não consegue ver bem quem era, percebe apenas que o jovem tinha cabelos loiros, mas ela se sente de certa forma tocada em seu coração, o choro se torna convulsivo, o garoto a abraça e a ajuda a se levantar dali.

Ele a leva até um hospital, e ali ela fica internada na observação.

Stacie acaba adormecendo devido aos efeitos das medicações contra a droga e o álcool.

Stacie acorda pela manhã do domingo, ela olha para os lados e vê que estava num hospital, logo chega uma enfermeira que sorri quando vê que ela estava acordada, ela se aproxima de Stacie e diz a ela:
— Que bom que acordou, nós estávamos preocupados com você.
— Mas agora está tudo bem.
— Vou chamar o doutro para te avaliar.

A enfermeira sai, Stacie fica confusa, aos poucos a sua memória vai voltando, e ela acaba se lembrando do garoto que a impediu de injetar a droga, que seria letal devido à alta dose ali colocada. Ele havia lhe salvo a vida.

O médico chega e diz a ela que ela foi salva por pouco.

E que mais um pouco de droga a dose teria sido letal, mas que agora ela estava bem, estava sem droga alguma, mas que teria que procurar ajuda para não mais se drogar.

Em seguida ele vai embora, a enfermeira fica, e Stacie pergunta a ela:
– Quem me trouxe aqui?

A enfermeira responde:
— Foi um garoto, ele me disse que era seu amigo.

Stacie pergunta:
— Qual era o nome ele?

A enfermeira diz:
— Ele não me falou e eu na pressa nem perguntei.
— Mas o nome dele deve estar na recepção, quando você deu entrada aqui.

Algum tempo depois ela recebe alta do hospital, ela vai direto à recepção, e recebe da recepcionista a seguinte resposta:
— A amiga que estava aqui de plantão acabou não anotando o nome dele.
— Ela deve ter se esquecido.
— Lamento, mas não tenho como te ajudar.

Stacie volta para o seu apartamento, a sua ansiedade havia se amainado, a dor havia desaparecido, e isso era muito estranho, assim que ela chega em casa vai tomar um banho, depois come alguma coisa e vai para a cama e dorme.

Dorme a noite toda um sono bem relaxante.

Do Livro:
As Histórias de Tom Croos

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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