As Histórias de Tom Croos – Mike & Cassie – Capítulo 2

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Walter Possibom


Mike acorda no dia seguinte se sentindo diferente, aquela tristeza habitual que o tomava pelas manhãs parecia que naquele dia ela lhe havia dado trégua.

Ele olha para sua esposa, seu coração acelera por isso, ele faz algumas carícias no cabelo dela, em seguida se levanta vagarosamente para não a acordar, ajeita o carrinho de rodas próximo a ela para facilitar ela de subir nele, vai ao banheiro e faz a sua toalete matinal.

Vai à cozinha e faz um desjejum simples, em seguia pega o carrinho e o enche com os sorvetes feitos no dia anterior, se veste com uma roupa adequada, e quando ele termina de vestir sua camiseta ele vê o violão no canto do quarto, ele fica olhando fixamente para o instrumento.

Após um tempo ele se levanta e o pega, fica olhando para o instrumento e a saudade lhe chega com força, um sorriso aparece em seu rosto só de lembrar dos sonhos que teve em um dia ser músico.

Sem saber o porquê ele pega o violão e o coloca sobre o carrinho de sorvetes, volta ao quarto dá um beijo delicado em sua esposa e sai para a rua, dali ele vai em direção ao local onde ficava vendendo os seus sorvetes.

O dia estava bem quente, o Sol irradiava tudo e todos com seus raios, Mike ajeita o carrinho debaixo do guarda sol, ajeita depois o banquinho ao lado, o violão fica atrás do carrinho numa sombra.

Mal termina e já tem um cliente querendo se refrescar.

A manhã se inicia bem, as vendas estão boas, e num intervalo ele senta, olha para o violão e em seguida pega o instrumento em suas mãos, e logo começa a tocar uma música que ele havia composto, era uma linda e suave melodia.

Ele fica absorvido pelos acordes melódicos da música quando percebe a presença de uma pessoa à sua frente, ele então levanta a cabeça e olha para a frente: era Tom Croos. O jovem olhava para ele com um enorme sorriso, e assim que os olhares se cruzam ele diz a Mike:
— Mas que música linda.
— Eu nunca tinha ouvido essa música.
— Quem a compôs?

Mike sente certo constrangimento, abaixa ligeiramente a cabeça e responde em voz baixa:
— A música é minha.

Tom Croos abre ainda mais o sorriso e diz a ele:
— Você é um compositor.
— Que coisa sensacional.
— Essa é uma das músicas mais lindas que já ouvi.
— Toca ela de novo.

Mike olhava para o garoto e sentia-se diferente, sem saber ao certo o que estava sentindo, então diz a ele:
— Não sei se devo.

Tom Croos imediatamente diz:
— Por que não?
— Um quadro assim como uma escultura devem estar expostos ao público para que todos os apreciem.
— O mesmo se diz de uma música: ela deve ser tocada para que todos a ouçam.
— Toque ela novamente para mim.

Mike então se sente incentivado a fazê-lo, então toca novamente a música, mas desta vez com mais paixão. Ao final Tom Croos diz:
— A música é maravilhosa.
— Você é um grande músico.
— Me diga: o que está fazendo vendendo sorvetes?
— Não que isso não seja digno, mas você é um artista.
— Você deve estar expondo sua música a todos.

Mike então pensa no acidente, e de como ele alterou a sua vida e impediu que ele seguisse o seu sonho de ser músico, seu rosto fica grave, ele quase deixa escapar uma lágrima, então, sem olhar para Tom Croos ele diz:
— Às vezes a vida nos impede de seguirmos por caminhos que desejamos.
Então ele levanta a cabeça e diz a ele:
— Vai querer um sorvete?
Tom Croos sorri e responde:
— Claro que sim.
— Hoje eu vou querer o de tangerina.

Mike pega o sorvete e o entrega ao jovem, Tom Croos dá uma mordida, em seguida fecha os olhos faz um rosto de satisfação e diz:
— Mas que sorvete mais delicioso.
— Tem muito amor aqui neste sorvete.

Ele olha para Mike e diz:
— Aposto que este sorvete foi feito por você e por sua esposa.
Mike dá um discreto sorriso e responde:
— Sim, nós os fizemos ontem à noite.

Tom Croos fecha um pouco o seu semblante e pergunta a Mike:
— Porque sua esposa não vem com você para a praia?

Essa pergunta causa muito desconforto em Mike, Tom Croos percebe então diz a ele:
— Me desculpe, eu não devo me intrometer em sua vida e a de sua esposa.

Mike sentia-se diferente naquele momento, sentia certo sentimento de paz, de calma, ele então diz:
— Não, não tem problema em me perguntar isso.
— Minha esposa fica em casa porque ela precisa d uma cadeira de rodas para se locomover.
— O caminho de casa até aqui é cheio de irregularidades, e eu não conseguiria trazer os dois: ela em sua cadeira de rodas e o carrinho de sorvetes.
— Então ela fica em casa fazendo as coisas normais de qualquer dona de casa, além do que ela fica preparando os sorvetes.

Tom Croos olhava para ele com um sorriso cândido e diz a ele:
— Eu lamento em saber disso.
— Mas essa é mais uma prova do amor que você tem por ela: se casou com ela mesmo nessa condição.

Mike balança a cabeça em sinal negativo e diz a ele:
— Minha esposa ficou assim devido a um acidente ocorrido a quase um ano atrás.

Tom Croos fica mais sério e diz:
— Lamento também por isso.
— A medicina não foi capaz de resolver o problema dela?

Mike responde:
— Infelizmente não, ela ficou um bom tempo em coma.
— E por isso decidiram por não operar.

Tom Croos então sorri para ele e diz:
— Mas quem sabe agora ela possa operar e voltar ao que ela era antes?
— Você não sabe do que o amor é capaz.
— Você não faz ideia de como o pensamento positivo consegue resultados espantosos.
— Se ela voltar ao normal a vida de vocês volta ao que era antes.
— E você poderá, então, voltar a sonhar com sua carreira de músico.
Mike balança a cabeça em sinal positivo, mas em seguida ele fica perplexo com essa firmação do garoto, então pergunta a ele:
— Como você sabe que eu sonhava em ser músico?

Tom Croos sorri, então, de repente, chega um monte de pessoas querendo sorvete, Mike se ocupa delas, e quando elas vão embora Tom Croos já não estava mais ali, Mike caminha um pouco procurando por ele, mas não encontra o garoto.

Era tudo estranho, ele sentia coisas que nunca tinha sentido, principalmente a sensação agradável que vinha das palavras daquele jovem, e as suas palavras de animo quanto a uma nova cirurgia em sua esposa o deixa ansioso para leva-la novamente a outro médico para que a avaliasse novamente.

Mike fica ali em pé olhando para o nada, de repente um garoto chega perto dele e diz:
— Você tem sorvete de chocolate?

Ele olha para o garoto, sorri e responde:
— Claro que sim.
E dessa forma Mike volta à sua rotina.
A tarde ainda não tinha terminado quando ele vende o seu último sorvete, isso era incrível, seu carrinho era grande e quase sempre ele voltava com alguns sorvetes de volta para casa, mas desta vez foram todos vendidos e ainda no período da tarde. Ele pensa em voltar parta casa e pegar mais e retornar à praia, porém ele em outra ideia: ele voltará para casa e trará Cassie junto dele e os dois irão passar o final de tarde juntos.

Ele volta, para casa, Cassie leva um susto, mas ele logo explica o que tinha acontecido, ele a convida a irem para a praia, claro que ela topa, e os dois vão à praia, fazia muito tempo que não faziam isso, Mike trabalhava todos os dias da semana para conseguir o dinheiro para o sustento de sua casa.

Os dois chegam à praia, Mike pega uma toalha e a estende sobre a areia, delicadamente pega sua esposa no colo e a coloca suavemente sobre o tecido, em seguida a recosta na cadeira, lhe dá um beijo e senta ao seu lado segurando a mão dela.

Os dois estavam felizes, olhavam para o movimento da praia com bastante atenção, e lembram-se do dia em que eles também caminhavam pelas areias quentes se divertindo.

De repente eles ouvem uma voz vinda do lado em que Cassie estava:
— Então é essa linda mulher que faz aqueles deliciosos sorvetes?

Os dois imediatamente olham para o lado que vinha a voz e Mike reconhece Tom Croos, ele sorri para ele e o garoto continua:
— Por isso que eu não o vi aqui na praia.
— Eu fui a busca de mais sorvete, mas o sorveteiro que traz o melhor sorvete da praia não estava em seu lugar habitual.
— Então eu fiquei sem o meu sorvete.
— Mas acabei sendo recompensado por isso, eu fiquei com a alegria de conhecer essa linda mulher.

Mike olha para Cassie e diz:
— Esse é o Tom Croos, ele ama os seus sorvetes. Tom Croos diz:
— Eles são feitos com amor.
— Por isso são os melhores.
Ele finaliza:
— Tenho que ir, eu vou deixá-los tranquilos curtindo a praia.
— Foi um prazer te conhecer Cassie.

Então se vira e sai dali, Mike então se pergunta:
— Mas eu falei para ele o nome dela?
— Que estranho.

Mas ele prefere não falar nada disso para sua esposa, e os dois continuam ali, curtindo aquele momento mágico para eles.

De repente Cassie diz a Mike:
— Estranho, parece que eu estou sentindo minhas pernas formigarem.

Mike fica espantado, ele então tenta fazer uma massagem nas pernas dela, e ela diz:
— Meu Deus, parece que sinto, lá no fundo, você pegar em minhas pernas.

Mike fica nervoso com isso, então massageia com mais força e ela chega a dizer a ele que a massagem estava incomodando-a, ele então tira suas mãos da perna dela, ela diz a ele:
— Minhas pernas, além do adormecimento, estão doendo.

Mike diz a ela:
— Vamos ao hospital ver o que está acontecendo.

Ele a pega no colo e a coloca gentilmente na cadeira de rodas, ajeitas as demais coisas e rumam para sua casa, lá os dois se vestem, mas Cassie diz que a dor estava aumentando de intensidade e já tomava as duas pernas inteiras.

Mike fica tenso por ela estar sentindo dor, então a pega no colo e se dirige a um ponto de taxi próximo, dali os dois partem para o hospital.

Assim que chegam são atendidos por um médico, Mike conta toda a história de Cassie, o médico então procede a um rigoroso exame clínico nela e diz:
— Realmente ela está reagindo aos estímulos.
— Incrível isso.
— Eu irei dar uma medicação analgésica num soro, e chamarei um neurologista para melhor avaliar isso tudo.

Após certo tempo chega o neurologista, ele examina Cassie e constata que realmente ela estava voltando a sentir estímulos nas duas pernas, ele fica espantado com isso, e resolve fazer uma tomografia para checar o estado da medula espinal de Cassie.

As dores nas pernas de Cassie pareciam não quere ceder aos analgésicos, eles usam todos os medicamentos que tinham, mas nenhum deles surte efeito nenhum, os exames chegam, e o neurologista fala aos jovens:

— Não me perguntem como, mas parece que a medula espinal de Cassie está íntegra.
— Ela está comprimida no meio dos ossos, isso pode explicar a dor.
— Mas porque a dor só veio agora eu não sei dizer.
— Eu acho que se nós tirarmos a compressão da medula as pernas de Cassie poderão voltar ao normal.
— Ela poderá recuperar, pelo menos, parte dos movimentos.
— Incrível isso, eu nunca tinha visto um caso como este antes.

Cassie começa a ficar agitada por causa da dor, o neurologista então diz:
— Eu lamento, mas terei que sedar você Cassie, só assim ficará livre da dor.
— Enquanto isso faremos mais exames, e talvez consigamos fazer logo a cirurgia.
— Eu vou pedir a sua internação para podermos fazer esses exames, e depois deles iremos decidir pela cirurgia.

O neurologista sai da sala de emergência, os dois ficam ali olhando um para o outro, as lágrimas corriam pela face dos dois, Mike diz a ela:
— Que Deus nos ajude em sua recuperação.
— Sonho com isso.

Eles se abraçam, não demora muito chega uma enfermeira com uma bandeja e diz a eles:
— Vamos pegar uma veia de Cassie e administrar um remédio que fará você dormir.
— O neurologista solicitou os exames e eu voltarei para colhê-los.
Assim que ela administra a medicação Cassie dorme, outra enfermeira chega e colhe exames dela, agora era só esperar.

Mike fica olhando para Cassie enquanto segurava sua mão, e após um tempo o médico retorna e diz a ele:
— Os exames de Cassie estão ótimos.
— Eu consegui a liberação da cirurgia, eu a pedi em emergência devido a dor que ela sente.
— Nós iremos operar Cassie, e quem sabe ela voltará muito próximo de seu normal. O médico se retira, imediatamente chega uma enfermeira que irá se ocupar de levar Cassie para um quarto onde irá aguardar pela cirurgia, Mike vai com ela. O que o futuro reservava para eles?

Do Livro:
As Histórias de Tom Croos

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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