As Histórias de Tom Croos – Giggio & Giovanna – Capítulo 3

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Walter Possibom


Tom Croos estava trabalhando no armazém do Giggio e da Giovanna há quase um mês, e as coisas mudaram muito nesse tempo.

O casal parecia viver outra vida, Giovanna estava mais aberta, mais participativa, ela chegava até a atender alguns clientes, coisa que não fazia há muito tempo.

Giggio sentia essa mudança e se sentia muito feliz, os dois chegam a trocar alguns beijos, parecia que estavam voltando a flertar um com o outro, igual quando dos tempos em que se conheceram.

A clientela mais antiga nota essa diferença, e ficam felizes por verem os dois dessa forma, o armazém volta a ficar cheio de clientes, o negócio estava indo bem, os pães nunca faltam na prateleira deles.

Giovanna decide voltar a cozinhar, tarefa essa que era de Giggio desde que perderam o bebê, ele fica exultante ao saber da decisão de sua esposa, era maravilhoso ouvir isso dela.
Ele diz a Tom Croos:
— Agora iremos engordar.
— Giovanna faz uma massa e um presunto que são divinos.
— Sem falar do queijo parmesão, receita de sua mãe, que nos leva ao céu.

A partir daquele dia o aroma do molho de tomate podia ser sentido a distância, todos os dias.

Giovanna, com isso, vai se abrindo, vai voltando à sua rotina, Tom Croos não a abandonava em momento algum, os dois viviam conversando o tempo todo.

Essa relação entre ambos se torna muito forte, de tão forma que Giovanna muda completamente quando o jovem chega pela manhã ao armazém, e também quando ele volta para sua casa ao final do expediente.

A mudança é tão nítida que Giggio, certa vez, diz ao garoto:
— As coisas por aqui mudaram muito desde a sua chegada.
— E eu sou muito grato a isso.
— Giovanna mudou muito, e eu estou muito feliz por isso também.
— Nós temos um quarto nos fundos que não o usamos para nada.
— Eu posso reformar o quarto, com isso você e seu avô podem vir morar aqui.
— Eu não cobrarei nada por isso.

Tom Croos sorri e responde ao homem:
— Sua oferta é muito generosa.
— Mas meu avô é uma pessoa muito reservada.
— Por questões pessoais meu avô prefere ficar sozinho e longe de movimento.
— Ele não conseguirá viver aqui com esta agitação.
— Mas vamos fazer o seguinte: eu posso ficar mais tempo aqui em alguns dias.

Giovanna sorri e diz a ele:
— Então fazemos o seguinte: nesses dias em que você ficar mais tarde aqui você janta conosco.

O jovem Tom Croos sorri bate palmas e responde:
— Sensacional!
— Eu aceito!

Então a partir daquela semana eles acertam de que o jovem ficará, até mais tarde, às terças e quintas feiras, e nesses dias eles jantarão juntos.

E nessas noites o casal volta a conversar animadamente, como nos velhos tempos. A vida continuava mudando para eles.

O dia amanhece com menos neve, o frio estava menos agressivo, Giggio terá que ir buscar mais mercadoria, sai logo cedo, pois tem a intenção de voltar próximo da hora do almoço.

A manhã estava agitada no armazém, a movimentação estava boa, e fica assim até por volta das nove horas quando na loja ficam apenas Giovanna e Tom Croos, eles aproveitam para fazer um breve lanche.

Os dois estavam próximos ao balcão quando, de repente, uma mulher entra com um bebê de colo, Giovanna fica olhando fixamente para a criança, Tom Croos vai atender a mulher.

O tempo todo Giovanna não tirava os olhos de cima do bebê, e assim que a mulher sai da loja ela vai até a porta e ainda fixa sua visão no bebê, até que ele desaparece numa esquina junto à sua mãe.

Ela volta até o balcão da loja, e Tom Croos diz a ela:
— Você adora crianças, não é mesmo?

Giovanna olha para ele, os dois ficam se encarando, então ela gira a cabeça e não responde ao garoto, mas ele continua:
— Você não pensa em ter filhos?

Essa pergunta pega direto no coração dela, e as lembranças do passado lhe voltam à mente, seu rosto se modifica, ela fica agitada, e se afasta do garoto.

Tom Croos não se inibe com essa postura de Giovanna e repete a pergunta, porém de forma mis direta e pessoal:
— Você não quer ter um filho?

Giovanna se vira para ele com rapidez, ela estava com raiva, e responde a ele:
— Isso não é de seu interesse.
— Esse é um assunto só meu.

Tom Croos olhava para ela com um discreto sorriso, seu rosto demonstra uma paz imensa, e após um tempo ele diz a ela:
— Me desculpe, mas eu vejo nos seus olhos o quanto deseja ter um filho.

Giovanna se sentia extremamente incomodada, ela não consegue pensar direito, então diz a ele:
— Eu não nasci para ter filhos.

Tom Croos não perde tempo e emenda outra pergunta:
— Como assim: nasceu para não ter filhos?

Giovanna fica ainda mais embaraçada, e responde o que lhe vem à mente:
— Eu já tentei e não deu certo.

O garoto faz outra pergunta:
— O que te garante que uma segunda tentativa também será um fracasso?

Em seguida diz:
— Você tem que ir atrás de seus sonhos, mesmo que haja barreiras entre você e eles.
— Principalmente quando as barreiras estão dentro de nossa mente.
— Muitas vezes os problemas surgem para nos fazer superar as nossas limitações e os nossos medos.
— Então jamais podemos desistir de nossos sonhos.

Giovanna estava mais confusa ainda, a tensão se eleva muito, então um cliente entra na loja, Tom Croos vai atendê-lo, enquanto que Giovanna vai para a cozinha, senta e chora. O jovem Tom Croos conseguia fazer com que Giovanna pensasse nas coisas, e isso a modifica, faz com que ela busque sair daquela situação emocional e voltasse à sua normalidade.

Ela era outra pessoa desde que aquele jovem “entrou” na vida dela, agora ela se sentia muito melhor e com mais vontade de retornar à sua vida de antes.

Passado um tempo ela ouve o seu marido chegar, ela corre até o salão e vai ao encontro dele, mas percebe que Tom Croos não estava na loja, ela procura o garoto por todos os cantos, Giggio percebe isso e diz a ela:
— Está procurando pelo garoto?

Ela acena positivamente com a cabeça, ele então lhe responde:
— Me pediu para sair mais cedo, pois tinha que fazer algo para o avô dele.
— Ele já foi embora.
— Me disse que não volta mais hoje.

Giggio não percebe que sua esposa tinha passado por momentos delicados, ele não percebe que ela tinha chorado, ele simplesmente descarrega a mercadoria e a ajeita nas prateleiras.

Giovanna fica apavorada, ela pensa que tenha ofendido, de alguma forma, o garoto, e que ele não volte mais. E Giovanna não queria isso, a presença dele era muito importante para ela.

O dia passa, mas diferente dos outros dias, a ausência do garoto é sentida, tanto por ela quanto por Giggio, eles jantam em silêncio e de cabeça baixa e logo vão se deitar.

O dia amanhece debaixo de uma enorme nevasca, Giovanna corre para a loja abre sua porta, em seguida vai à cozinha faz pão e café, volta para a loja e fica a espera de Tom Croos.

A manhã já estava em sua metade e nada do garoto aparecer, Giovanna estava nervosa com isso, ela anda de um lado para o outro da loja, Giggio nota isso e pergunta a ela:

— O que está havendo meu amor?
— Porque toda essa situação?

Giovanna responde a ele:
— Eu estou preocupado com o Tom Croos, ele já devia ter chegado.

Giggio responde a ela:
— Vai ver que ele demorou mais do que o esperado para resolver o problema de seu avô. Chega a horado almoço, ela põe três pratos na mesa da cozinha, mas apenas ela e Giggio almoçam.

A tarde passa, e nada de Tom Croos. Giovanna quase não dorme á noite, então à sua mente voltam as coisas que ele lhe disse sobre a possibilidade de sucesso numa segunda gravidez. Mas só de pensar na dor que sentiu quando perdeu seu bebê a faz afastar essa ideia.

A neve caia a noite açoitada pelo vento, os ruídos formados por ele a deixa apavorada, embora já estivesse acostumada a isso, em determinado momento ela tem a nítida sensação de ouvir alguém batendo à porta da loja, ela acorda Giggio e lhe conta o que tinha ouvido.

Giggio diz a ela:
— Meu amor, a porta da loja está bem fechada, e um pouco longe de nosso quarto.
— Você deve estar ouvindo os ruídos formados pelo vento, apenas isso.

Ela diz a ele:
— Será que não é Tom Croos tentando entrar?

Ele olha para o relógio e diz a ela:
— Minha querida são duas horas da madrugada, não pode ser Tom Croos.
Mas Giovanna estava tão agitada que Giggio prefere checar isso, então os dois levantam da cama e vão até a loja e abrem a porta dela: não havia ninguém lá fora.

Giggio diz a ela:
— Está vendo meu amor?
— Não há ninguém, foi apenas ruído do vento.
— Vamos voltar para a cama, está muito frio.

Giovanna não consegue pregar os olhos naquela noite. O dia mal amanhece e ela pula da cama, corre para a loja, e mesmo que ainda não houvesse Sol ela abre a porta da loja, vai para cozinha e faz pão e café, volta à loja quando Giggio chega e lhe dá um beijo.

Após um tempo, já com o Sol raiando e iluminando tudo a sua volta, os dois decidem tomar o café da manhã, sem Tom Croos.

A manhã passa com Giovanna bastante abatida, ela vai várias vezes à porta para ver se Tom Croos estava chegando, mas volta dela mais desanimada ainda.

Ela pede a Giggio que saia a procura do garoto, mas ele não sabia onde ele morava. A noite chega, Giovanna entra em profundo estado de depressão, como antes da chegada do jovem garoto, ela se deita, então a dor volta, a solidão volta e a saudade volta.

A vida parecia não querer mais continuar caminhando para sua normalidade.

Do Livro:
As Histórias de Tom Croos

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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