As Histórias de Tom Croos – Giggio & Giovanna – Capítulo 2

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Walter Possibom


O inverno estava em seu auge em Black Ice City, a cidade esgotou todas as suas reservas de acomodações nos hotéis, o centro comercial fervilhava de pessoas indo e vindo, o mesmo não se dizia das proximidades do comércio de Giggio.

Ele ficava mais afastado do centro em direção ao lado norte da cidade, e nesses últimos tempos então seu movimento havia caído bastante, sem dúvida alguma Giovanna era muito responsável pelo movimento da casa devido ao seu jeito de conversar e animar as pessoas.

A neve caia, nas ruas as pessoas caminhavam envoltas em roupas grossas, Giggio estava no balcão conferindo as contas, ao seu lado estava Giovanna, sentada, olhava para a rua de forma fixa, assim eles ficavam bastante tempo até que algum cliente entrasse e quebrasse essa cena.

De repente Giovanna se levanta, Giggio percebe isso e olha para ela, sua adorável esposa então levanta o braço direito e com o dedo aponta para uma direção, e diz a ele:
— Tem um garoto lá fora.
— Ele parece star com fome e frio.

Rapidamente Giggio se vira, olha para fora e não vê nada, então volta a olhar para ela e diz:
— Não há ninguém lá fora.

Ela responde:
— Ele saiu dali, mas ele estava ali.

Ela volta a se sentar, Giggio volta a checar as contas. Não passa muito tempo e ela se levanta e novamente aponta para fora, e diz:
— O garoto voltou.

Giggio olha e desta vez ele vê o garoto, que imediatamente dá um sorriso para os dois, o homem então vai até a porta e a abre, em seguida convida o garoto a entrar.
O garoto entra, parecia feliz, ele então diz aos dois:
— Está muito frio lá fora.
— Obrigado por me deixarem entrar.
Giovanna não conseguia tirar os olhos de cima do garoto, ela parecia estar encantada por ele, Giggio pergunta ao jovem:
— Como é o seu nome?

O jovem sorri ainda mais e responde:
— Me chamo Tom Croos.

Giggio olhava estranhamente para ele, então diz:
— Eu não me lembro de você.
— Eu acho que nunca te vi por aí.

O garoto se limitava apenas a sorrir, então Giovanna diz a ele:
— Você parece estar com muito frio, parece até que está tremendo.
— Quer um chocolate quente para se aquecer?

O garoto acena positivamente com a cabeça e diz:
— Adoro chocolate quente, e eu estou com muito frio.

Para surpresa de Giggio a sua esposa se levanta e vai à pequena cozinha que havia nos fundos da loja, onde ela fazia os pães, e prepara o chocolate ao jovem Tom Croos.

Logo ela volta com uma grande caneca com o delicioso líquido, junto a alguns biscoitos, coloca-os sobre uma mesa que havia no salão do estabelecimento, puxa uma cadeira e a oferece ao jovem, que imediatamente senta e se aproveita da pequena refeição. Após terminar ele diz:

— Este foi o melhor chocolate quente que eu já tomei em minha vida.

E após muito tempo Giovanna sorri, Giggio ao seu lado sorri também, e sente-se feliz por ver sua esposa sorrir novamente, ele já tinha se esquecido de como o sorriso dela era tão lindo. Giovanna então pergunta ao garoto:
— De onde você vem?

O garoto sorri a ela e diz:
— Eu moro do outro lado da cidade como meu avô.
— Viemos de muito longe para cá há menos de um mês.

O casal olhava atentamente para o jovem, ele irradiava uma Luz estranha que os deixavam diferentes, e o jovem ainda diz:
— Eu estou procurando emprego.
— Eu faço qualquer coisa por qualquer quantia.
Giovanna imediatamente olha para Giggio, os dois ficam se olhando, então o homem diz:
— Bem, nós não temos tido muito movimento por aqui.
— Por isso eu não tenho tido muito trabalho.

Giovanna continuava olhando para ele, e ele percebe o que ela queria dizer. Após um tempo ele diz:
— Bem, eu preciso fazer alguns pequenos reparos aqui no armazém, e eu voui precisar de alguém que fique no balcão atendendo as pessoas.
Giovanna sorri ao marido, olha para o jovem que sorrindo responde:
— Eu aceito.

Giggio diz a ele:
— Mas eu nem falei o quanto eu posso te pagar.

O garoto então responde:
— Não se preocupe com isso, como eu havia dito: qualquer coisa por qualquer valor. E a partir daquele momento o armazém do Giggio e da Giovanna passa a contar com um garoto no balcão.

Aquela semana estava apenas começando, mas era visível que algo diferente pairava no ar daquele estabelecimento, o casal estava diferente, sorriam mais, e entre eles estava o jovem Tom Croos, e este estava sempre de sorriso aberto o tempo todo.

Com isso Giovanna parecia estar diferente, seu olhar não era tão triste, ela olhava menos para o “nada” e em alguns momentos ajuda o jovem nas tarefas do estabelecimento. Até os clientes mais antigo notam a diferença nela.

Três dias após o garoto estar trabalhando no armazém, quando os três tomavam café juntos, o garoto olha para Giovanna e diz:
— O Senhor Giggio me disse que a senhora fazia uns pães deliciosos.
— Eu também ouvi isso de um cliente.

Ele diz isso e fica olhando para ela, que a princípio não esboça reação alguma, depois de um tempo ela diz:
— Eu acho que já não sei mais fazer pães.

O garoto sorri para ela e diz:
— Eu iria adorar experimentar os seus pães.
E fica olhando para ela.
Giggio também olha para a esposa para observar qual seria a reação dela.

Giovanna fica, de forma irresistível, olhando para o garoto, então em determinado momento ela sorri discretamente e diz:
— Vou tentar fazer um pouco.

Giggio então abre um enorme sorriso, aquilo era incrível, ela estava sorrindo novamente e se dispondo a fazer os pães.

Há muito tempo que aquilo não acontecia. Essa atitude dela era algo muito simples, porém era de uma significação extraordinária para o casal.

Ela então se levanta e vai em busca dos ingredientes, e imediatamente inicia a fazer a massa.

Giggio não podia acreditar naquilo, a sua amada esposa estava novamente fazendo pães, ele e o garoto ficam olhando para ela fazer os pães.

Não demora muito e o aroma dos pães se espalha, logo uma pessoa entra no armazém e a primeira coisa que diz é:
— Eu estou sentido o cheiro dos pães da Giovanna.
— Deus seja louvado!
— Eu vou levar dois.

Um a um os clientes são atraídos pelo aroma dos pães, até que eles acabam! Giggio então se dá conta disso, e desesperado diz a Giovanna:
— Meu Deus!
— Vendemos todos os pães!
— O garoto nem experimentou.

Tom Croos olhava com um sorriso largo no rosto, e diz:
— Não há problema algum, faça mais.

E outra fornada é feita, só que desta vez ela separa um, e após venderem todos os demais ela volta à cozinha, faz um café e chama o marido e o jovem para um lanche.

À mesa havia o café, a manteiga, o queijo e fatias do pão ainda quente. Os três se deliciam à mesa.

O sorriso volta aos poucos ao rosto da jovem Giovanna, Giggio sentia-se mais feliz conforme os dias vão passando, mas eles ainda não se alavam durante o jantar.

A vida deles ainda não tinha voltado ao normal. Em duas semanas Giggio consegue realizar toda a reforma que desejava, e o armazém toma outro aspecto, mais novo e mais alegre. 
 
Isso reflete, de certa forma, no rosto do casal, eles pareciam rejuvenescidos por isso, e também pela presença do jovem Tom Croos. 
 
Giggio precisava ir buscar mercadorias, seu estoque estava se acabando, o movimento do armazém aumentou bastante, ele diz: 
— Ainda bem que contratamos o Tom Croos, senão eu não daria conta de tudo. Ele pega a pequena caminhonete e sai, em meio à neve, em direção ao mercadão que ficava no lado sul da cidade, ele deixa o armazém nas mãos de Tom Croos e de Giovanna. Ele só voltará ao final da tarde. 
 
Os dois estavam no armazém e olhavam a neve caindo, o frio lá fora devia estar intenso, mas ali dentro a temperatura estava bem agradável, o armazém experimenta um momento de calma, nenhum cliente entra. 
 
O garoto olhava para Giovanna, ela estava bem diferente, se ocupava de um pequeno serviço manual, então percebe que o jovem olhava para ela, ela levnta a cabçe, olha para ele e sorri, e diz: 
— De onde você veio? 
 
O garoto sorri ainda mais e responde:
— De bem longe. 
 
Os dois ficam se olhando, e após um tempo ele fala: 
— Você e o Giggio se amam muito, não é mesmo? 
— Eu posso ver isso nos olhos dos dois quando se olham. 
 
Giovanna sorri e após um tempo ela responde: 
— Sim, nós nos amamos muito. 
 
Tom Croos sorria, então fala: 
— Apesar disso eu vejo uma sombra de tristeza em seu rosto. 
— Vejo que algo atrapalha vocês dois de serem plenamente felizes. 
 
Isso toca profundamente em Giovanna. Seu rosto se modifica, o sorriso se apaga, as memórias voltam e seus olhos se enchem de lágrimas, Tom Croos diz: 
— A vida é engraçada, não é mesmo? 
— Ela, às vezes, nos prega algumas peças. 
— Ela, às vezes, nos testa. 
— E apesar de estarmos diante da beleza e da felicidade não as conseguimos enxergar. 
— Nossos olhos são ofuscados por coisas do passado. 
— E não vemos que a vida continua, e que temos outras oportunidades. 
— Assim, se não tomarmos cuidado, a vida passa e perdemos todas essas oportunidades. 
— E vivemos uma vida triste. 
 
Então a porta do estabelecimento se abre e mais um cliente entra e vai logo dizendo: 
— Ainda tem daqueles maravilhosos pães? 
 
Os dois se olham dão uma pequena risada e Giovanna responde: 
— Sim senhor, ainda temos pães. 
— Eles jamais faltarão em nossa loja.

Do Livro:
As Histórias de Tom Croos

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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