As Histórias de Tom Croos – Giggio & Giovanna – Capítulo 1

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Walter Possibom


A neve caia impiedosamente na cidade de Black Ice City, o que não era surpresa alguma, ali a neve os visitava quase todos os dias do ano, havia apenas um período de vinte dias no qual a neve sumia.

A cidade ficava numa ravina, de um lado da cidade ficava a imponente e enorme montanha Ice Steel, de onde se tirava o minério de ferro, a maior fonte de recursos da cidade, ela foi a responsável pela grande explosão populacional da cidade no início do século.

Após o início da exploração do minério a cidade experimentou um crescimento vertiginoso, a expansão da cidade foi acelerada tornando-a uma cidade bem maior que antes desse tempo.

Do outro lado da cidade fica a montanha chamada Oak Ice, ela era parte importante da grande área de reserva florestal da região, ali o ecoturismo tinha uma grande importância com suas magníficas trilhas e áreas de camping.

Essa atividade econômica trazia um substancial volume de dinheiro para a cidade, o comércio se fortalecia muito devido a isso e o artesanato local acabou ganhando um grande espaço nesse comércio.

Desde o início da exploração dos minérios ali existentes a cidade sofreu uma grande explosão populacional, o que trouxe também a criação de uma infraestrutura que os abrigasse, vários hotéis, bares, restaurantes e lojas foram criadas para servir às demandas dessa população.

A cidade era um local ótimo para se morar, ela era muito tranquila, apesar dos trabalhos de mineração, o movimento noturno e aos finais de semana era intenso, durante a semana o movimento era dos mineiros e nos finais de semana era a vez dos turistas. Um bairro inteiro foi criado, ao lado da Ice Steel, para abrigar os trabalhadores, aumentando a área da cidade, do outro lado alguns hotéis foram criados para suprir a demanda dos que procuravam a cidade pelo turismo.

O único problema da cidade era a sua temperatura média anual, extremamente baixa, ela não perdoava quem se desabrigasse dela, e exigia casas com estrutura a poder manter o calor interno.

O outro problema era transitar pela cidade, assuas ruas viviam cheias de neve causando transtornos aos carros e pedestres, embora quem já morasse ali há mais tempo já estava mais que habituado a tudo isso.

A noite se inicia, o movimento na cidade aumenta intensamente com a saída dos trabalhadores da mina e dos escritórios, os carros e os ônibus andavam de um lado para o outro transportando esses trabalhadores, esse era o momento de maior movimento da cidade, que logo cessa retornando, em seguida, a paz habitual.

No armazém do Sr. Giggio a vida seguia dura, sua esposa Giovanna adoeceu seriamente após ela perder o bebê tão desejado pelos dois, ela não suportou a perda e caiu em profunda depressão.

Com isso o armazém ficou apenas nas mãos do marido, e assim o estabelecimento perdeu todo seu charme e Luz que vinham do sorriso contagiante da bondosa mulher, com isso as vendas começaram a cair, o marido não conseguia manter o mesmo clima, nem mesmo os deliciosos pães italianos que ela fazia ele conseguia reproduzir.

Eles tinham uma casa humilde que ficava nos fundos do armazém, Giggio trazia a sua amada esposa todos os dias para o armazém e os dois ficavam ali o dia todo juntos, ele atendendo aos clientes e ela de cabeça baixa sem dar ouvidos ou atenção a qualquer um que fosse.

Antes aquele estabelecimento vivia em festa, o casal estava sempre de sorriso no rosto, a alegria que eles tinham se espalhava pelo ambiente e contagiava a todas as pessoas, eles brincavam com todos os clientes, que para eles eram apenas amigos, e assim eles tinham uma freguesia bastante assídua que lhes dava um bom provento.

Mas eles viviam em outros tempos depois de perderem aquele que lhes daria mais Luz em suas vidas, o sorriso desapareceu dos rostos, as brincadeiras foram embora, e a tristeza, então, ocupou o seu lugar.

Giovanna passou por muitos médicos, alguns até na cidade grande próxima a Black Ice City, mas o tratamento não funcionou, e após incontáveis tentativas o bondoso Giggio desistiu.

Todas as noites, após fechar o seu estabelecimento, ele vai com sua amada Giovanna para casa, ele ajeita a mesa faz a comida e os dois jantam juntos.

Ele conversa com ela, mesmo sabendo que não terá resposta alguma, mas ele jamais deixou de fazer isso, pois aquele era o momento que eles mais gostavam: o momento em que eles teriam todo o tempo só para eles!

Após o jantar, como de costume, Giggio a leva até a sala e liga a televisão e coloca no programa favorito dela, e os dois assistem, até o momento em que ela começa a “pestanejar”, esse era o sinal deque ela estava com sono.

Ele a leva até o quarto, ajuda ela a colocar o pijama e em seguida os dois se deitam, nem sem antes ele dar um carinhoso beijo nela e dizer:
— Boa noite meu amor, durma com os anjos.

No dia seguinte ele repetia sempre a mesma rotina, aos finais de semana ele trabalhava aos sábados e no domingo, pela manhã, ia à missa com sua esposa, e à tarde passeava pelas ruas do centro da cidade, exatamente como sempre fez com Giovanna.

Após completar um ano da perda do bebê, Giggio pensa em vender o negócio e voltar para a Itália, para onde os seus parentes moravam, ele pensa:
— Quem sabe se eu voltar para a nossa terra ela melhore?
Os parentes de Giovanna moravam na mesma cidade em que moravam os parentes de Giggio, ali que eles se conheceram e, após se casar, decidiram tentar a sorte num país maior, então foram para Black Ice City onde eles estavam indo muito bem.

Mas o destino quis mudar a história do casal, veio a gestação que cursou sem problema algum até o sexto mês, onde tudo aconteceu e de forma muito brusca.

Eles não tiveram tempo sequer de se preparar para o pior, num dia, simplesmente, Giovanna sentiu um corrimento acompanhando de fortes cólicas, ela foi ao hospital e ali se constatou que o bebê estava morto. A princípio os dois não acreditaram naquilo, tudo estava indo tão bem, ai aconteceu aquilo.

Giggio não demorou muito para aceitar os fatos, em que pese a enorme dor que sentia pela perda, Giovanna demorou um pouco mais para aceitar a realidade, em seguida veio o momento em que ela se culpou por algo de errado que tenha feito.

Em que pese Giggio jamais insinuar qualquer coisa nesse sentido ela se sentia culpada, afinal de contas a gestação estava indo bem, ela acha que devia ter evitado em trabalhar, mas ao mesmo tempo ela sabe de pessoas que trabalharam grávidas até o dia anterior do parto e nada aconteceu com elas.

Após isso ela começa a se questionar:
— Porque isso aconteceu comigo?

A pobre Giovanna só tinha perguntas, dúvidas e uma enorme dor.

Giggio era um ótimo marido, um excelente comerciante, mas não tinha o dom da palavra, embora ele fosse um homem inteligente ele não conseguia se expressar adequadamente, então ele não consegue ajudar Giovanna nesses momentos.

Já se passavam três anos da perda, os dois já estavam acomodados à situação, eles tocavam a vida daquela forma opaca, sem Luz, sem vibração, sem alegrias, e com isso os dias iam se passando.

Giggio já não mais tentava fazer com que a sua amada Giovanna voltasse daquela situação de marasmo, ele considera que isso já não seja mais possível, então ele apenas faz o que pode, e o que o seu julgamento determina.

O padre na igreja local os visita com alguma regularidade, e tenta, com suas palavras, melhorar o astral dos dois, sem sucesso algum.

Sempre que o padre vai até eles Giggio sempre pergunta a ele a mesma coisa:
— Padre, porque Giovanna não chorou quando perdemos o nosso filho?
O padre sempre olhava para ele com piedade e responde sempre a mesma coisa:
— Porque o bebê levou as lágrimas dela até Deus para que Ele a confortasse.

A mudança no comportamento do casal levou ao afastamento dos amigos, inclusive o do amigo mais chegado a eles: Martini.

Martini era filho de outro imigrante italiano que, junto à família de Giggio e de Giovanna, imigraram para Black Ice City, eles eram amigos desde infância, pois nasceram naquela cidade quase no mesmo dia.

Certo dia Martini foi à casa dos amigos e disse a Giggio:
— Eu acho que você deve internar Giovanna.
— Ela não consegue mais falar com a gente como antes, eu nunca mais a vi sorrir.

Ele falou isso na presença dela, e Giggio não gostou, e falou para ele:
— Que coisa mais grosseira falar assim de Giovanna e ainda mais na frente dela.
— Ela pode se magoar.
— E não devemos agir assim com as pessoas.

Giovanna continuava com a cabeça baixa, totalmente indiferente ao que se discutia naquele lugar, vez ou outra ela olhava para um deles e falava de algo sobre o passado, e em seguida voltava para o seu mundo.
Martini diz ao amigo:

— Você está vendo Giggio?
— Ela não está mais aqui.
Giggio responde:
— Ela está sim.
— Apenas que está um pouco mais para dentro de si mesmo.
— Eu sei que uma hora ela irá voltar, e eu preciso estar presente para recebê-la.
— Por isso que eu tenho que ficar ao lado dela o tempo todo.
— Eu não teria coragem de deixa-la numa casa para loucos.
— A minha Giovanna não está louca.
— Ela está apenas triste, só isso.

Ele sabe que esse não era bem o que ele pensava, mas de qualquer forma, ele não teria coragem de internar sua amada num local daqueles.
O amigo balançava a cabeça em sinal negativo a cada palavra de Giggio, ele então se levanta balança a cabeça em sinal negativo mais uma vez e vai embora.

Desde então eles nunca mais se falaram. Depois desse dia Giggio ficou mais desanimado ainda, se havia alguma esperança, mesmo que lá no fundinho de sua mente, de que ela voltaria a ele essa esperança se desvanece e ele passa a aceitar que sua tão amada esposa possa voltar para ele. Certo dia ele tem uma ideia: ele propõe a ela em terem outro filho.
Mas desiste da ideia frente a reação dela.

Giovanna chorou por muitas horas seguidas e ficou encolhida como se fosse um feto, isso deixou Giggio muito assustado.

Ele então prometeu a si mesmo de que nunca mais iria falar sobre isso com ela. Então ele apenas seguia sua vida, e conforme os dias passam ele vai ficando cada vez mais parecido com ela, ele passa a falar apenas o necessário.

Então chega o dia em que ele deixa de conversar com ela na hora do jantar, e aquele lar, outrora tão cheio de Luz e amor, vira um local de um silêncio absoluto.

Do Livro:
As Histórias de Tom Croos

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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