Ernest Hello – O Homem Medíocre

Ernest Hello

Diz numa reunião que algum homem célebre é um homem medíocre, e todos ficarão espantados; dirão que és paradoxal. É que ninguém sabe o que é um homem medíocre.

 

 

O homem medíocre é tolo, estúpido, imbecil? De maneira alguma. O imbecil está numa extremidade do mundo, o homem de gênio na outra. O homem medíocre está no meio. Não digo que ocupe o centro do mundo intelectual, o que seria outra coisa; ele está no meio.

O homem medíocre estará então no que se chama em filosofia, em política, em literatura, um justo meio? Encaixa necessária e certamente nessa opinião?

 

 

Também não.

 

 

Quem está no justo meio sabe disto: tem a intenção de estar nele. O homem medíocre está no justo meio sem o saber. Está nele por natureza, não por opinião; por caráter, não por acidente. Mesmo que seja violento, irritado, extremo; mesmo que se distancie quanto for possível do justo meio, será medíocre. Terá mediocridade na violência.

 

 

O traço característico, absolutamente característico do homem medíocre, é sua deferência pela opinião pública. Jamais fala, sempre repete. Julga um homem por sua idade, sua posição, seu sucesso, sua fortuna. Tem o mais profundo respeito por quem é conhecido, não importa por quê; por quem tenha causado uma grande impressão. Adulará seu mais cruel inimigo, se esse inimigo tornar-se célebre; mas fará pouco caso de seu melhor amigo, se ninguém o elogia. Não concebe que um homem ainda desconhecido, um pobre homem, um passante, que é tratado de maneira comum, com desembaraço, possa ser um homem de gênio.

 

Se fores o maior dos homens, acreditará, se te conheceu criança, honrar-te muito comparando-te a Marmontel. Não ousará tomar a iniciativa de nada. Suas admirações são prudentes, seus entusiasmos oficiais. Despreza os que são jovens. Mas, quando tu grandeza for reconhecida, exclamará: bem que eu sabia! Mas nunca dirá, frente à aurora de um homem ignorado: eis a glória e o futuro! Aquele que pode dizer a um trabalhador desconhecido: meu filho, és um homem de gênio! – este merece a imortalidade que promete. Compreender é igualar, disse Rafael.

 

 

O homem medíocre pode ter esta ou aquela aptidão especial: pode ter talento. Mas a intuição lhe é interdita. Não tem uma visão superior; não a terá jamais. Admite às vezes uma idéia, mas não a segue em suas diversas aplicações; e se lhe é apresentada em termos diferentes, não a reconhece: rejeita-a.

 

Admite às vezes um princípio; mas se chegares às conseqüências desse princípio, dirá que exageras.

 

Se a palavra exagero não existisse, o homem medíocre a inventaria.

 

 

O homem medíocre pensa que o cristianismo é uma precaução útil, que seria imprudente dispensar. Entretanto detesta-o interiormente; algumas vezes, tem por ele um certo respeito convencional, o mesmo respeito que tem pelos livros em voga. Mas tem horror ao catolicismo: considera-o exagerado; gosta mais do protestantismo, que acha moderado. É amigo de todos os princípios e de todos os contrários.

 

O homem medíocre pode ter estima pelas pessoas virtuosas e pelos homens de talento.

 

Tem medo e horror dos santos e dos homens de gênio; acha-os exagerados.

 

 

Pergunta para quê servem as ordens religiosas, sobretudo as ordens contemplativas. Admite as irmãs de São Vicente de Paulo, pois sua ação realiza-se, ao menos parcialmente, no mundo visível. Mas os carmelitas, diz ele, para quê servem?

 

 

Se o homem naturalmente medíocre torna-se seriamente cristão, deixa absolutamente de ser medíocre. Pode não se tornar um homem superior, mas é arrancado da mediocridade pela mão que empunha a espada. O homem que ama jamais é medíocre.

 

 

O homem verdadeiramente medíocre admira um pouco todas as coisas; nada admira com ardor. Se lhe apresentas seus próprios pensamentos, seus próprios sentimentos com um certo entusiasmo, ficará descontente. Dirá que exageras; gostará mais de seus inimigos se forem frios, que de seus amigos se forem quentes. O que detesta acima de tudo, é o calor.

 

 

O homem medíocre só tem uma paixão, o ódio ao belo. Talvez repita com freqüência uma verdade banal com um tom banal. Exprima a mesma verdade com esplendor e ele te vai maldizer; terá encontrado o belo, seu inimigo pessoal.

 

 

O homem medíocre ama os escritores que não dizem nem sim nem não sobre qualquer coisa, que nada afirmam, que conciliam todas as opiniões contraditórias. Gosta ao mesmo tempo de Voltaire, Rousseau e Bossuet. Gosta que se negue o cristianismo, mas que se o negue polidamente, com certa moderação nas palavras. Tem um certo amor pelo racionalismo e, coisa bizarra, também pelo jansenismo. Adora a profissão de fé do vigário sabichão.

 

 

Acha insolente toda afirmação, porque toda afirmação exclui a proposição contraditória. Mas se fores um pouco amigo e um pouco inimigo de tudo, pensará que és sábio e reservado. Admirará a delicadeza de teu pensamento, e dirá que tens o talento das transições e das nuances.

 

 

Para escapar à acusação de intolerância que lança a todo aquele que pensa com vigor, vai se refugiar na dúvida absoluta; mesmo assim não dá à dúvida seu próprio nome. Procura dar-lhe a forma de uma opinião honesta, que reserva os direitos da opinião contrária, com a aparência de dizer alguma coisa sem dizer absolutamente nada. É preciso acrescentar a cada frase uma perífrase adocicante: parece, se ouso dizer, se é permitido exprimir-se assim…

 

 

Resta ao homem medíocre em atividade, em exercício, uma inquietude: o medo de comprometer-se. Exprime também alguns pensamentos roubados do senhor de La Palisse, com a reserva, a timidez, a prudência de um homem temeroso de que suas palavras ousadas demais possam abalar o mundo.

 

A primeira frase do homem medíocre que julga um livro trata sempre de um detalhe, e habitualmente de um detalhe de estilo. É bem escrito, dirá, quando o estilo é fluente, morno, incolor, tímido. É mal escrito, dirá, quando a vida circula na tua obra, quando forjas tua linguagem como quem fala, quando dizes teus pensamentos com aquele frescor que é a sinceridade do escritor. Ama a literatura impessoal; detesta os livros que obrigam a refletir. Gosta dos que se parecem com todos os outros, dos que confirmam seus hábitos, que não explodem seu molde, que permanecem em seus limites, dos que sabemos de cor antes de serem lidos, porque são semelhantes a todos que lemos desde que aprendemos a ler.

 

 

O homem medíocre diz que Jesus Cristo deveria se ter limitado a pregar a caridade, sem fazer milagres; mas detesta ainda mais os milagres dos santos, sobretudo dos santos modernos. Se lhe contas um fato sobrenatural e contemporâneo, dirá que as lendas fazem um bom efeito nas vidas dos santos, mas que devem se restringir a elas; e se observares que o poder de Deus é o mesmo de sempre, responderá que exageras.

 

 

O homem medíocre diz que há o bem e o mal em todas as coisas, que não devemos ser absolutos em nossos julgamentos, etc, etc.

 

 

Se afirmas fortemente a verdade, o homem medíocre dirá que tens excessiva confiança em ti mesmo. Ele, que tem tanto orgulho, não sabe mesmo o que é o orgulho! É modesto e orgulhoso, submisso perante Voltaire e revoltado contra a Igreja. Sua divisa é o grito de Joad: corajoso somente contra Deus! [Racine, Atalia, ato III, cena VII]

 

 

O homem medíocre, em seu pavor das coisas superiores, diz que estima sobretudo o bom senso; mas não sabe o que é o bom senso. Entende por esta expressão a negação de tudo o que é grande.

 

 

O homem medíocre pode muito bem ter essa coisa sem valor que chamam, nos salões, de espírito; mas não pode ter inteligência, que é a faculdade de ler a idéia no fato.

 

 

O homem inteligente eleva a cabeça para admirar e adorar; o homem medíocre eleva a cabeça para zombar: tudo que está acima dele parece-lhe ridículo, o infinito parece-lhe o nada.

 

 

O homem medíocre não crê no diabo.

 

 

O homem medíocre lamenta que a religião cristã tenha dogmas: gostaria que ela ensinasse somente a moral; e se lhe dizemos que sua moral decorre dos dogmas, como a conseqüência decorre do princípio, responderá que exageramos.

 

 

Confunde a falsa modéstia, que é a mentira oficial dos orgulhosos de baixo calão, com a humildade, que é a virtude simples e divina dos santos.

 

 

Entre esta modéstia e a humildade, eis a diferença:

O homem falsamente modesto acredita que sua razão é superior à verdade divina e independente dela, mas acredita ao mesmo tempo que ela é inferior à do sr. Voltaire. Acredita ser inferior aos mais rasteiros imbecis do século dezoito, mas zomba de Santa Teresa.

 

O homem humilde despreza todas as mentiras, por mais que sejam glorificadas por toda a terra, e se ajoelha perante toda verdade.

 

O homem medíocre parece habitualmente modesto; não pode ser humilde, ou deixará de ser medíocre.

 

O homem medíocre adora Cícero, cegamente e sem restrições; não o chama por seu nome, mas “o orador romano”. Cita de tempos em tempos: ubinam gentium vivimus?

 

 

O homem medíocre é o mais frio e o mais feroz inimigo do homem de gênio.

 

 

Opõe-lhe a força da inércia, resistência cruel; opõe-lhe seus hábitos maquinais e invencíveis, a cidadela de seus velhos preconceitos, sua indiferença impertinente, seu ceticismo maldoso, seu ódio profundo que se assemelha à imparcialidade; opõe-lhe a arma das pessoas que não têm coração, a dureza da estultice.

 

O gênio conta com o entusiasmo; entrega-se a ele. O homem medíocre não se entrega jamais. Não tem entusiasmo nem piedade: duas coisas que vão sempre juntas.

 

 

Quando o homem de gênio desanima e acha que está para morrer, o homem medíocre fica satisfeito; alegra-se com essa agonia. Diz: bem que eu tinha adivinhado, esse homem estava num mau caminho; tinha muito confiança em si mesmo! Se o homem de gênio triunfa, o homem medíocre, cheio de inveja e de ódio, opõe-lhe ao menos os grande modelos clássicos, como diz, os homens célebres do último século, e tratará de se convencer que o futuro o vingará do presente.

 

 

O homem medíocre é muito pior do que pensa, e do que pensam dele, pois sua frieza oculta sua maldade. Jamais se arrebata. No fundo, gostaria de eliminar as estirpes superiores: como não pode, vinga-se achincalhando-as. Fala pequenas infâmias, que, por serem pequenas, não parecem ser infames. Fere com alfinetes, e regozija-se quando o sangue corre, ao passo que o assassino teme o sangue derramado. O homem medíocre nunca tem medo. Sente o apoio da multidão dos que se lhe assemelham.

 

 

O homem medíocre é, na ordem literária, o que na ordem social denomina-se um homem de boa sorte. Os sucessos fáceis são para ele. Ignorando o que é essencial e captando o que é acidental em todas as coisas, corre atrás das circunstâncias; segue ao sabor das ocasiões; e quando é bem-sucedido, torna-se dez vez mais medíocre. Julga-se, como julga os outros, pelo sucesso. Enquanto o homem superior sente sua força interiormente, e a sente sobretudo se os outros não a sentem, o homem medíocre pensa ser um tolo quando o julgam tolo, e seu equilíbrio depende dos cumprimentos que recebe; sua mediocridade aumenta na razão de sua importância.

 

 

Mas enfim, perguntarão, por quê e como é bem-sucedido?

 

 

Sentado em teu escritório, diante de um livro assinado por um nome conhecido, a que o falatório público reclama sua atenção, nunca te aconteceu fechá-lo com uma tristeza inquieta e dizer para ti mesmo: – como estas páginas levaram o autor à reputação, em vez de condená-lo ao esquecimento? Ou: como aquele outro nome, que poderia figurar ao lado dos grandes nomes, é absolutamente desconhecido dos homens? Porque os amigos raros, os raros amigos deste em que penso neste momento murmuram timidamente seu nome entre si, não ousando pronunciá-lo diante de todos, por não ter a sanção de todos? A glória tem seus segredos, ou tem seus caprichos?

 

 

Eis a resposta: a glória e o sucesso não se assemelham; a glória tem segredos, o sucesso tem caprichos.

 

 

O homem medíocre não luta: pode vencer inicialmente; sempre fracassa depois.

 

 

O homem superior luta primeiro e vence depois.

 

 

O homem medíocre vence porque segue a corrente; o homem superior triunfa porque vai contra a corrente.

 

 

O procedimento do sucesso é caminhar com os outros; o procedimento da glória é caminhar contra os outros.

 

 

Todo homem que torna seu nome conhecido produz esse efeito, pois é o representante de uma certa parte da espécie humana.

 

 

Eis a solução de todos os enigmas.

 

 

As raças superiores se fazem representar pelos grandes; as raças inferiores se fazem representar pelos pequenos.

 

 

Ambas têm seus deputados na assembléia universal.

 

 

Mas umas dão a seus deputados o sucesso, as outras dão-lhes a glória.

Aqueles que lisonjeiam os preconceitos, os hábitos de seus contemporâneos, ganham impulso e chegam ao sucesso: são os homens de seu tempo.

 

 

Os que recusam os preconceitos, os hábitos; os que respiram antecipadamente os ares do século seguinte, impulsionam os outros, e chegam à glória: são os homens da eternidade.

 

 

Eis porque a coragem, que é inútil para o sucesso, é condição absoluta para a glória. São grandes os que se impõem aos outros em vez de suportá-los; que impõem a si mesmos em vez de suportar-se; que sufocam com a mesma força seus próprios desânimos e as resistências exteriores. O que denominamos grandeza é a irradiação do poder.

 

 

O homem medíocre que alcança o sucesso encarna os desejos atuais dos outros homens.

 

 

O homem superior que triunfa encarna os pressentimentos desconhecidos da humanidade.

 

 

O homem medíocre pode mostrar aos homens os aspectos conhecidos de suas próprias almas.

 

 

O homem superior revela aos homens os aspectos desconhecidos de suas próprias almas.

 

 

O homem superior desce até o fundo de nós mais profundamente do que costumamos descer. Dá voz aos nossos pensamentos. É mais íntimo a nós que nós mesmos.

 

Irrita-nos e regozija-nos, como alguém que nos acordasse para acompanhá-lo a ver o nascer do sol. Arrancando-nos de nossas casas para conduzir-nos aos seus domínios, inquieta-nos, e ao mesmo tempo nos dá uma paz superior.

 

 

O homem medíocre, que nos deixa ali mesmo onde estamos, inspira-nos uma tranqüilidade morta que é diferente da calma.

 

 

O homem superior, incessantemente atormentado, dilacerado, pela oposição entre o ideal e o real, sente melhor do que ninguém a grandeza humana, e melhor do que ninguém a miséria humana. Sente-se mais fortemente chamado ao esplendor ideal, que é a finalidade de todos nós, e mais mortalmente deteriorado pela velha decadência de nossa pobre natureza; e comunica-nos esse dois sentimentos que tem. Ilumina em nós o amor do ser, e desperta em nós incansavelmente a consciência do nosso nada.

 

 

O homem medíocre não sente nem a grandeza, nem a miséria, nem o Ser, nem o nada. Não é nem deslumbrado, nem precipitado; fica no penúltimo degrau da escada, incapaz de subir, excessivamente preguiçoso para descer.

 

 

Em seus juízos e em suas obras, substitui a realidade pela convenção, aprova o que encaixa em seu repertório, condena o que escapa às denominações, às categorias que conhece, receia o espanto e, não se aproximando jamais do terrível mistério da vida, evita as montanhas e os abismos pelos quais ela conduz seus amigos.

 

 

O homem de gênio é superior àquilo que executa. Seu pensamento é superior à sua obra.

 

 

O homem medíocre é inferior àquilo que executa. Sua obra não é a realização de um pensamento: é um trabalho feito de acordo com determinadas regras.

 

 

O homem de gênio sempre acha sua obra inacabada.

 

 

O homem medíocre infla-se com a sua, cheio de si mesmo, cheio de nada, cheio de vazio, cheio de vaidade. Vaidade! Esse odioso personagem está por inteiro nestas duas palavras: frieza e vaidade!

Ernest Hello
O francês Ernest Hello (1828 – 1885) foi um dos expoentes do pensamento católico no século XIX. Filósofo, ensaísta, crítico literário, biógrafo e tradutor, desde a infância dava mostras de um intelecto brilhante. Formado em Direito no prestigioso Collége Louis-le-Grand – por onde passaram alunos célebres, como Voltaire, São Francisco de Sales e Victor Hugo -, jamais trabalhou como jurista, insatisfeito com a ambivalência moral da profissão. Em vez disso, dedicou a vida inteira a escrever. Em 1857, casou-se com Zoë Berthier, talentosa escritora e amiga de longa data.

Homem de vasta cultura e piedade profunda, sua produção escrita inclui obras de Teologia, Filosofia (dentre estas, cabe destacar as críticas ao trabalho de Ernest Renan e Descartes), contos e livros de espiritualidade. No total, quinze livros e diversos artigos para publicações de sua época. Suas obras mais conhecidas – L’Homme (“o Homem”, 1871) e “Physionomies des saints” (“Fisionomias de santos”, 1875) foram traduzidas para os mais diversos idiomas.

Reconhecido e elogiado por intelectuais como Leon Bloy (que o considerava seu mestre), Georges Bernanos e Paul Claudel, Garrigou-Lagrande, recebeu mesmo um elogio do próprio Cura d’Ars, São João Maria Bianney: “O Sr. Hello recebeu de Deus o seu gênio”. Hoje, seu nome é injustamente pouco conhecido.
Fonte: Ecclesiae

Fonte:
In Hello, Ernest, L’Homme, Paris, Perrin et Cie, Libraires-Éditeus, 1894, p. 57-67.

 
Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
Assinar
Notificar
guest


Atenção: O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais ao autor, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

 

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Site Criado Por Barata Cichetto - (16) 99248-0091