Em Defesa de Howard Roark

Em 1943, a escritora e filósofa russo-americana Ayn Ran escreveu um livro intitulado “The Fountainhead”” (A Nascente). Poucos anos depois, em 1949, ela própria roteirizou a produção de King Vidor, que no Brasil saiu com o nome de “Vontade Indômita”. 


O filme, estrelado por Gary Cooper, conta a história de Howard Roark, um arquiteto independente, que dá mais importância aos seus ideais do que aos seus compromissos. Howard se apaixona por Dominique Francon (Patricia Neal), uma herdeira, mas termina a relação quando tem a oportunidade de construir edifícios de acordo com seus próprios desejos. Dominique casa com um magnata da imprensa, Gayl Wynand (Raymond Massey), que no princípio comanda uma forte campanha contra o “Radical Roark”, mas eventualmente se torna o partidário mais forte dele. 


Ao ser firmado um contrato de moradias populares, há a condição que os planos de Roark não serão mudados de forma nenhuma, mas ele fica surpreso ao descobrir que suas determinações serão radicalmente alteradas. É quando resolve revidar, custe o que custar .


O ponto alto da história é o julgamento do arquiteto, que dispensa advogados e decide ele próprio se representar no tribunal. O texto a seguir são exatamente suas palavra, que ainda hoje ecoam e são cada vez mais atuais. (BC)

“Há milhares de anos, o primeiro homem descobriu como fazer o fogo. E provavelmente ele se queimou na tocha que ensinou seus irmãos a acender. Mas deixou-lhes um presente que eles não haviam concebido e assim levantou as trevas da Terra.


Ao longo dos séculos, houve homens que deram os primeiros passos em novas estradas, armados a não ser com sua própria visão. Os grandes criadores, pensadores, artistas, cientistas, inventores, ficaram sozinhos contra os homens de sua época. Cada pensamento novo era rejeitado, cada invenção nova, era denunciada. Mas os homens de visão seguiram seu caminho. Eles lutaram, sofreram e pagaram, mas venceram.


Nenhum criador foi levado pelo desejo de agradar seus irmãos. Seus irmãos odiaram o presente que ele oferecia. Sua verdade era seu único motivo. Seu trabalho, seu único objetivo. Seu trabalho, não daqueles que o usaram. Sua criação e não os benefícios que outros extraíram dela. A criação que deu forma à sua verdade.


Ele manteve sua verdade acima de tudo e contra todos os homens. Ele prosseguiu, mesmo que outros não estivessem de acordo com ele, ou não? Com sua integridade como sua única bandeira.


Não serviu a nada, nem a ninguém. Viveu para si mesmo. E somente vivendo para si mesmo foi capaz de conseguir as coisas que são a glória da espécie humana. Essa é a natureza da conquista.


O homem não pode sobreviver, exceto através de sua mente. Ele vem ao mundo desarmado. Seu cérebro é sua única arma, mas a mente é um atributo só do indivíduo. Essa história de cérebro coletivo, simplesmente não existe. O homem que pensa, deve pensar e agir por conta própria. Aquele que raciocina não pode trabalhar sob nenhuma forma de coação. Não pode ser subordinado às necessidades, opiniões ou desejos de outros. A mente não é um objeto de sacrifício.


O criador segue seus próprios julgamentos, o parasita segue as opiniões dos outros. 


O criador pensa, o parasita copia. O criador produz, o parasita tira dos outros.


O interesse do criador é a conquista da natureza. O do parasita é a conquista do próximo.


O criador exige independência. Ele não serve, nem domina. Ele faz com homens uma troca livre e de escolha voluntária. O parasita procura o poder. Ele quer reunir todos os homens num ato comum a todos e de escravização comum. Ele alega que o homem é somente uma ferramenta para o uso de outros, que deve pensar como eles pensam e agir como eles agem. E viver em abnegada e triste servidão de qualquer necessidade, menos a dele mesmo.


Vejam a história!


Tudo o que temos, cada grande realização, veio do trabalho independente de alguma mente independente. E cada horror ou destruição tem origem na tentativa de reduzir os homens a rebanhos sem cérebros, robôs sem almas. Sem direitos pessoais. Pessoas sem ambição. Sem vontade, esperança ou dignidade.


Esse conflito é muito antigo. E ele tem um outro nome: o Individual contra o Coletivo.


Nosso país, a terra mais nobre na história da humanidade, fundamentou-se no principio da individualidade. O principio dos direitos alienáveis do homem. Foi um país onde um homem era livre para buscar a sua própria felicidade. Ganhar e produzir, não desistir e renunciar. Para prosperar, e não passar fome. Para realizar, não saquear. Para ter como sua maior possessão, o sentido de valor pessoal e como sua maior virtude, o seu auto-respeito.


Olhem os resultados. Isto que os coletivistas estão agora pedindo para os senhores destruírem, tanto quanto da Terra já foi destruída.


Eu sou um arquiteto. Eu sei que se constrói a partir das bases.


Estamos nos aproximando de um mundo no qual eu não posso me permitir viver.


Minhas idéias são minha propriedade. Elas foram retiradas de mim à força, por quebra de contrato. Nenhum recurso me foi deixado.


Entenderam que meu trabalho pertencia a outros, para fazer o que quisessem, que tinham direito sobre mim sem minha permissão, que era meu dever servir-lhes, sem escolha ou recompensa.


Agora sabem por que eu dinamitei Cortlandt. Eu a projetei eu a fiz possível. E eu a destruí. Concordei em fazer o projeto com a finalidade de vê-lo construído como eu queria. Esse foi o preço que eu cobrei pelo meu trabalho. E não fui pago.


Meu edifício foi desfigurado pelos caprichos de outros que se beneficiaram com o meu trabalho e nada me deram em troca.


Vim aqui dizer que eu não reconheço o direito de ninguém a um minuto de minha vida. Nem a qualquer parte de minha energia, nem a alguma de minhas realizações. Não importa quem faça essa reivindicação.


Tinha que ser dito. O mundo está perecendo em uma orgia de auto-sacrifício.


Eu vim aqui para ser ouvido em nome de cada homem independente que ainda resta neste mundo.


Eu quis estabelecer meus termos. Eu não quero trabalhar ou viver em nenhum outro.


Meus termos são: o direito do homem de existir por suas próprias razões.”

Vontade Indômita
The Fountainhead
Estreia: 02/07/1949
Gênero: Drama
Duração: 114 min.
Origem: Estados Unidos
Direção: King Vidor
Roteiro: Ayn Rand
Ano: 1949

Ayn Rand nasceu em 1905, em São Petersburgo, na antiga União Soviética czarista. Precoce e determinada, aos 9 anos decidiu que seria autora de livros de ficção e acabou se tornando uma das escritoras mais influentes dos Estados Unidos. A fim de escapar da Revolução Russa, em 1917, mudou-se com os pais para a Crimeia. No entanto, após a vitória dos comunistas, o estabelecimento comercial de seu pai foi confiscado, e sua família passou fome. Na escola, ficou muito impressionada com as aulas de história americana e considerou os Estados Unidos o modelo de nação em que os homens poderiam ser livres, princípio presente em toda a sua obra. Ao retornar da Crimeia, foi estudar Filosofia e História na Universidade de Petrogrado, onde se formou em 1924. Em 1925, obteve permissão para visitar parentes nos Estados Unidos. Embora tenha informado às autoridades soviéticas que sua estada em território americano seria breve, nunca mais voltou à Rússia. We the Living é sua obra mais autobiográfica, baseada nos anos em que viveu sob o regime comunista em sua terra natal. A nascente apresenta o herói típico de Ayn Rand: o homem idealista, que tem a felicidade como objetivo moral de sua vida, a realização produtiva como atividade mais nobre e a razão como seu único princípio absoluto. Porta-voz do individualismo, Ayn acreditava que o homem nasce livre e pode fazer o que desejar. Ateia e opositora ferrenha do socialismo e de outras formas de coletivismo, sempre defendeu o indivíduo contra o Estado e qualquer tipo de divindade ou religião que o obrigue a abrir mão de seus direitos em favor do bem público. Em 1957, publicou sua última obra de ficção, A revolta de Atlas – cujo título original é Atlas Shrugged. Neste livro, a grande realização de sua carreira, Ayn Rand foi brilhante ao transformar sua filosofia em uma história de mistério, combinando elementos da ética, da metafísica, da política, da economia e até da ficção científica. (Texto: Livraria da Travessa)

 
Compartilhe
  • 1
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
    1
    Share
Assinar
Notificar
guest


Atenção: O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais ao autor, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

 

3 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários
Genecy

Me penitencio por ainda não ter lido Ayn Rand, tampouco por nunca ter assistido ao filme. Ainda não estou em condições de entrar nos méritos dessas obras.

Penso como Ayn Rand seria vista nos dias atuais. Fico a imaginar se ela teria direito ao “lugar de fala”. Ou. Pior: se ela seria sistematicamente cancelada e relegada ao ostracismo virtual.

Quanto ao filme, penso que o roteirista seria pressionado pelas patrulhas (ou parasitas) a efetuar mudanças que as agradassem, de forma a não ser interpretado como um fomentador do “discurso de ódio”.

São dúvidas que permanecem no ar. Enquanto isso, os embates entre o invidual e o coletivo não dão mostras de que irão acabar tão cedo.

A única certeza é que preciso ler Ayn Rand.

Site Criado Por Barata Cichetto - (16) 99248-0091