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Apesar do Chico, Hoje é Outro Dia

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Genecy Souza


Um dos pilares que sustentam os regimes ditatoriais presentes e passados, sejam eles de direita ou de esquerda, sem falar naqueles inspirados numa pressuposta vontade divina, como no Irã dos aiatolás nucleares, é o que vigia, controla, tolhe e reprime a liberdade de pensamento (entre as várias que definem o homem como um ser essencialmente livre desde o nascimento), a título de defesa do povo ante as ameaças externas e internas — estas, as mais perigosas, pois, o “inimigo” está infiltrado no seio da sociedade –. Entende-se por inimigo todo indivíduo, grupo ou organização que não se enquadram nas diretrizes traçadas de cima para baixo, pelo estado que tomou posse do poder político e militar, após sérias crises institucionais, entre elas, golpes de estado, revoluções, além de interesses e influências de outras potências.

Mas toda ditadura, mesmo a mais totalitária, nunca foi – nem é – segura o bastante acerca da sua estabilidade e longevidade. Para simplificar a coisa, ditaduras nada mais são do que um pequeno grupo de privilegiados que detêm o controle dos organismos que regem uma sociedade que, para manter seus privilégios não hesitam em recorrer ao uso da força bruta, pouco importando os métodos e meios empregados, tampouco o número de vítimas. Temos aí os exemplos da moribundo regime sírio, sob a chefia de Bashar-al-Assad – herdeiro da ditadura inaugurada pelo pai dele -, e das ditaduras postas abaixo pela chamada Primavera Árabe, cujos efeitos ainda estão por definir.

Diante do simplificado conceito de ditadura exposto acima e, deixando de lado outras definições mais complexas e extensas sobre o tema, pode-se incluir a figura do intelectual no contexto dessas aberrações que ainda teimam em existir. Se verificarmos o mapa mundi, concluiremos que as ditaduras de direita já não mais existem, restando, contudo, todas as demais, sobretudo, as chamadas e autoproclamadas de esquerda. É aí que se estabelece o papel dos intelectuais – escritores, artistas, pensadores – no que se refere à forma como são toleradas e até admiradas, sob os mais absurdos argumentos. O compositor, cantor e dramaturgo Chico Buarque, exemplifica bem essa contradição. Parafraseando Orwell: “direita, ruim; esquerda, bom”.

O autor de clássicos da música brasileira, como Construção, Cálice e Apesar de Você, tornou-se figura conhecida nos festivais de música, que tomaram conta do país na década de 60, logo após a instauração do regime militar em 1964. Diante do quadro político de então, a música, o teatro, a literatura, o cinema e outras formas de expressão, serviram, apesar da censura, de meios de divulgação do descontentamento e das denúncias dos desmandos praticados pelo governo dos generais. Chico Buarque soube aproveitar os meios disponíveis, e deu seu recado na forma de música, peças de teatro, livros e filmes. Ele ousou e pagou o preço. Aliás, todos que ousaram desafiar o regime pagaram um preço, às vezes alto demais.

Normalmente, regimes de exceção temem as cabeças pensantes que não se submetem a seus ditames, daí que a repressão se manifesta sob as mais diversas formas, inclusive na eliminação moral e física de seus opositores, sejam eles reais ou imaginários. O regime militar brasileiro acabou em 1985; as liberdades democráticas foram restabelecidas e uma nova constituição foi promulgada. Os 21 anos de ditadura deixaram marcas profundas em toda uma geração, inclusive naquela que se valeu de métodos violentos para a derrubada do regime e, ironicamente, visava a instauração de uma outra forma de ditadura, ainda mais repressora. Chico Buarque e seus contemporâneos são testemunhas oculares de todo esse processo. Após todos os traumas e das feridas que ainda não sararam, aquela geração ousada e audaciosa parece que ainda não entendeu que os tempos mudaram – dependendo do ponto de vista, para melhor ou para pior.

Nos anos 60, sonhava-se com justiça social, melhoria das condições de vida dos trabalhadores, liberdade, ecologia, liberação sexual e tudo o mais que parecesse progressista, sob a ótica do socialismo, então o único caminho para a redenção da humanidade. O capitalismo, simbolizado pela figura arrogante e onipotente dos EUA, era (ainda é) o vilão, culpado por todas as desgraças que afligiam a humanidade. Em 30 anos todo aquele sonho ficou soterrado sob os escombros de Muro de Berlim. Chico viu tudo isso, mas parece que ele não entendeu (ou não quis entender). Mas a banda passou; o mundo deu voltas, no entanto, Julinho da Adelaide ainda guarda os mesmos ideais, seja por convicção, teimosia, conveniência ou burrice. Aposto que nem Geni seria assim.

Chico sempre se queixa da “perseguição” que diz sofrer por parte de uma elite reacionária, instalada numa imprensa apelidada de PIG (Partido da Imprensa Golpista), por ele nunca se opor a regimes ditatoriais, desde que sejam de esquerda, especialmente Cuba, a ilha caribenha feudo dos irmãos Castro, ainda hoje uma espécie de play ground da esquerda festiva latino-americana e até europeia. Nosso caro amigo, quando confrontado, sempre se vale dos chavões que ainda tentam justificar aquele refugo da Guerra Fria, aonde nem Pedro Pedreiro teria coragem de ir lá viver. Apesar de todas as evidências, o sonho ainda não acabou para Chico Buarque e os tontos que pensam como ele. As novos regimes autoritários que estão se instalando na América Latina, desta vez através das urnas e do discurso populista repaginado, mantém esse sonho com maiores chances de se tornar realidade. No entanto, um dos alvos principais continua sendo a liberdade de expressão. Intelectuais de renome se prestam a serem escudeiros dessa nova-velha realidade. Os métodos para controlar (ou calar) agora se valem novos mecanismos, inclusive a compra de consciências. Mas há os que não topam a parada. Menos mau assim.

Por fim, Chico é chegado a toda forma de poder, desde que de esquerda, é claro. Ele se sente muito bem abrigado sob o guarda-chuva dos manda-chuvas da hora. Bajulado como sempre foi, em troca, ele bajula a zelite que se instalou no governo em 2003. Essa mesma zelite, que reiventou e turbinou a forma de sangrar os cofres públicos, tem em seus quadros figuras que atuaram no combate ao regime de 1964, entre eles, figuram José Dirceu e José Genoino, réus condenados no maior processo criminal da história. Até Carolina viu. Mas Chico não se abala, pois, apesar de todos os desmandos, escândalos e saias justas, ele entende que a causa é boa, desde que os meios justifique os fins. Chico tem o dom da escrita, dos versos fortes e da irreverência. Mas ele prefere não incomodar seus caro$ amigo$. Para quê? Está tão bom assim.

Texto publicado na 2ª edição da revista digital “Pi2 (Politicamente Incorreto Ao Quadrado)“, Abril 2013.

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.

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