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Apenas o Desabafo de Um Velho Cansado

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Barata Cichetto

Agora não tenho mais a coragem para a fidelidade, porque rompeu em mim o véu da honestidade. Hoje não tenho mais a disposição para a verdade, porque se rasgou o tecido da realidade. Também não possuo mais o desejo da sexualidade, porque estourou o zíper da bondade. Não consigo mais relacionar bondade com verdade, realidade com fidelidade, honestidade com felicidade. Paradigmas e estigmas; coisas dignas e fidedignas, beijos e desejos, e todas as rimas ricas ou pobres, não permanecem mais que dez segundos eternos no meu campo de visão, e desaparecem sem previsão. Filhos, pais, irmãos, família. E juntem isso com pátria, pais, nação, bairro, cidade, escola: todas essas me parecem palavras mortas. Escritas tortas. E olhem que sempre acreditei que palavras eram eternas. Agora acredito que elas só vivem enquanto seus sentidos permanecem, porque como as pessoas, quando são mortas e esquecidas, nada mais existe. Então, falar de liberdade, sexualidade, honestidade, responsabilidade, amizade, isso só para ficar nas palavras mais importantes da língua portuguesa, que não creio seja por coincidência terminam com “ade”, são ressignificadas (invencionice esquerdista maldita), ou seja, tem suas identidades trocadas, é como se fossem assassinadas. Então, como posso crer, e nem mais viver por elas, como sempre vivi? Não posso. Sobram então seus antônimos, alguns quase homônimos, mas nunca mais, ou nunca jamais, farão parte não apenas do meu vocabulário, do meu dicionário ou do abecedário. Todas perderam seus válidos conceitos, e então, viraram apenas doces em bocas rotas de crianças tortas, que já nasceram mortas, cujo futuro nunca existirá. Quando se simplifica tudo, se reduz a pó o pensamento, e assim, o que sobra é apenas fuligem, de um incêndio criminoso. O crime não é a indecência, nem a morte da inocência. O crime é a inconsciência, o assassinato da experiência, e especialmente a falta de crença, não em deuses inventados, mas na própria e indivisível existência, onde resta é apenas uma coletiva, divisível e dividida, ausência.

09/06/2024

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e co-fundador da Editora Poetura. Um Livre Pensador.
Contato: (16) 99248-0091

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