Anatomia Anátema

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Barata Cichetto


(Diante da ilustração “Anatomia Del Corpo Humano” de Juan Valverde de Amusco, 1560)

Não, não sinta na própria pele aquilo que lhes digo. Apenas tolos e poetas sentem apenas na pele. O que se fala. A pele cala a verdade. Arranque a própria pele. Escarifique-se. Escarnifique-se. A real nudez é do esqueleto. Sinta o que digo. De fato. No ato. Dou-lhe apenas a faca. A coragem é sua. Os motivos lhe pertence. É a sua mão que tem que segurar a faca. Cortar. Arrancar. Retire essa pele que lhe serve de máscara. De proteção. De conforto. Arranque essa pele que lhe cobre com a vergonha da vaidade. Retire totalmente essa maquiagem que lhe cobre o rosto. Deixem nus seu esqueletos. Pele é roupa velha. Enrugada. Amarelada. Rasgada. Não sinta na pele. Não sinta a pele. Despele-se. Dispa-se. Retire-a centímetro a centímetro. Sem piedade. Sem medo. Fique livre dessa roupa inútil. Que tem cor. Que tem forma. Que tem vergonha do esqueleto que cobre. Que esconde o que lhe sustenta. Não sinta na própria pele a dor. Sua pele é sua mentira. Em breve estará podre. Desaparecerá comida por vermes. A pele é sua maldição. Sua ilusão. Sua fraude como ser. Sua casca frágil. Seu disfarce de humano. Camadas de podridão fedorenta. Anjos não tem pele. Demônios não tem pele. O Bem e o Mal não tem pele. Dispa-se de toda pele que lhe cobre de desejo. Da pele que lhes cobra o ensejo. Da pele que lhe cobra o preço. Mostre sua real anatomia. Sua real autonomia. Seu verdadeiro poder. Seu verdadeiro amor. Sem pele. Não sinta na pele o que lhe conto. Sinta nos ossos. Nos músculos. No sangue. Livre-se da falsa realidade. Da farsa da liberdade. Que há na pele. Da imoralidade. Sobre a pele. Liberte-se da mentira. Da falsidade da linguagem cutânea. Da imagem instantânea. É tudo uma questão de pele. Não de cor. Não de altura. Sem pele sem cor. Sem cor sem dor. Não apele. À sensibilidade da pele. À estética. Ou à ética. A estética esquelética. Arquétipa. Sua pele é sua ditadura. Pessoal. E intransferível. Ditadura e tortura. Blasfêmia injusta contra deuses sem pele. Deuses não tem pele. Anátema. Não há arte na pele. Apenas cor e aparência. A arte está no esqueleto. No tutano. Não há beleza real na pele. A beleza está nos ossos. Nas tripas. Nas veias. Rejeite sua pele. Rejeite a qualquer ideologia que está à flor da pele. Pele é ideologia. Teologia. Viva a escatologia. Sem pele. Se jogue na ideologia única do esqueleto. Na religião monoteísta dos músculos. Pele é casca. Ferida extensa. Intensa. Densa. Imensa. Liber. Embaixo da casca tem a polpa. Livro de liber. Então liber-te-se. Escreva livros. E faça a capa com sua própria pele. Encadernação com couro. Gravada a ouro. Um livro de poesia. Livre-se. Da poesia da pele. Segure a lâmina com firmeza. Livre-se da tristeza. Que há na pele. Não há felicidade sobre a pele. Apenas maldade. E saudades. Que causa dor. E mágoa. Debaixo da pele há uma cidade. Um porto. Um navio. Um mundo. Um universo. “Universo no teu corpo”. Universo debaixo da tua pele. Apele. Livre-se desse órgão inútil. Fútil. Derme e epiderme. Casa de verme. Arranque. Sem dó. Nem piedade. Com a crueldade de uma criança. Encare a nudez. Esqueleto nu de frente ao espelho. Veja seu sangue vermelho. Há deuses sob a pele. Erga a faca. Feito espada. E corte fora o istmo do prazer falso. Do desconforto do ser. A inutilidade do prazer. Escalpele-se. Não peça desculpas à pele. Culpas são coisas de pele. Que repele. Que expele. A dor do íntimo. Ínfimo. Deixe que a pele apodreça sozinha. Na sua miserabilidade infalível. Órgão sensorial insensível. Às dores reais. Livre-se desse objeto pornográfico. Objeto abjeto. Pele é cútis e o cu é pele. Livre-se de seu órgão mais pesado. Peso morto. Deixe expostos seus interiores. Exponha seu coração. Fígados. Pulmões. Rins. Cérebro sem pele nem pelos. As veias abertas. Veja como lhes corre a sangue pelo corpo. Intestinos trafegando merda. Comida transformada em merda. Transforme-se!!! À faca que te empresto. Deixe expostas. Suas feridas. Queridas. Devidas. Viva! Em carne viva!

01/11/2017

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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