Entrevista | Amyr Cantusio Jr. (Alpha III)

Barata Cichetto

Erzsébet Báthory (em português Elisabete ou Isabel Báthory) foi uma condessa húngara da renomada família Báthory que viveu no século XVI e entrou para a história por uma suposta série de crimes cruéis que teria cometido, vinculados com sua obsessão pela beleza. Como consequência, ficou conhecida como “Condessa Sangrenta” ou “Condessa Drácula”. 

Mas o que isso tem a ver com um musico brasileiro, nascido na segunda metade da década de 1950, em Campinas, interior de São Paulo? Ocorre que esse músico, adquiriu as bases de sua sólida formação erudita a partir dos ensinamentos de sua  mãe, uma descendente direta da Condessa, cuja família provavelmente mudou o nome para Bathel para assim fugir ao estigma. O mesmo artista e filósofo, que herdou o título de Conde por hereditariedade da família de outra avó por parte de mãe, e também, por outra herança genética, do pai italiano, uma perseverança e uma teimosia peculiares.

Mas, como talento é uma coisa que não é aprendido na escola, e nem sempre segue padrões genéticos, requerendo uma grande dose de esforço e inteligência criativa, Amyr Cantusio Junior, que mais tarde em 1983 adotaria o nome de Alpha III ― referencia a uma suposta estrela citada em um episódio de Jornada nas Estrelas ―  trilhou o caminho do estudo, da experimentação e do esforço para atingir um grau de conhecimento musical e filosófico que poucas pessoas atingem.

Alpha III, ou Amyr, como queiram, não é um musico comum, não é um desses pseudo-artistas que aos borbotões, enchem nossos ouvidos com timbres frouxos, repetidos, mesmices irritantes. Tem, além da sólida formação musical erudita de Mozart, Vivaldi, Lully, Bach, Bethoven, Wagner, Liszt, Rachmaninoff, entre outros, a influencia, desde os 11 anos de idade, de bandas e artistas de Rock, como Beatles, Gentle Giant, Van Der Graaf, Stones, Led Zeppelin, The Who e Yes. Sua carreira, iniciada em 1974  com a banda Spectro conta com quase meia centena de discos gravados, entre LPs, CDs e discos virtuais, que ele produz sem parar.

Consagrado em várias partes do mundo e em mais de uma ocasião, como um dos melhores tecladistas da atualidade, entretanto, em seu país, Alpha III não desperta aparentemente interesse por parte da midia. O publico brasileiro, sempre a mercê dos grandes esquemas midiáticos, não toma conhecimento. Esses fatos, aliados à falta de uma educação e cultura musicais de base, fazem com que o trabalho desse músico, filosofo, terapeuta e muitas outras atividades artísticas e intelectuais não seja conhecido do grande público.

Atualmente, ele é Assessor da Secretaria de Cultura de Campinas, onde tem conseguido, através de muito trabalho e dedicação, melhorar não apenas equipamentos públicos voltados à cultura, mas trazer à cidade eventos principalmente voltados a musica erudita e dança.

A seguir, nessa entrevista tipo “ping-pong”, realizada especialmente para o livro “Alpha III – Uma Trajetória Musical”, em 2013, Amyr define alguns conceitos e desenvolve alguns temas sobre sua vida, obra e pensamento.

― Alpha III

Alpha III, estrela citada em um episodio de Jornada nas Estrelas (Corte Marcial) anos 70. Possível estrela metafísica da constelação do Cruzeiro do Sul. Na minha simbologia, algo que existe mas não pode ser visto. Só sentido… Como a música.

― Origens

Itália (Família Cantusio ― Cidade de Ferrandina, Sicília), Nápoles e Bologna.  Áustria (Vienna)

― Família

Eu, esposa Cathia A. Cantusio e Michael Liszt Cantusio (filho único).

― O Terapeuta

Na realidade um louco por Psicologia Oculta e Psicanálise (Freud, Reich, Jung, Keppe  e Menninger, aliada a filosofia védica hindu e tibetana, formam minha base de vida geral. Daí os cursos longos durante 25 anos com milhares de alunos e terapias alternativas.

― O Musico

Cresci ouvindo minha mãe tocando Bach, Schubert, Chopin, Beethoven ao piano. Ela foi professora de Música da Universidade PUCC (Campinas) e minha iniciação ao instrumento foi com ela. Logo aos 11 anos contato com Beatles, Gentle Giant, Van Der Graaf, Stones, Led Zeppelin, The Who e Yes, mais a Jovem Guarda, me deram a opção de seguir  e amar o rock. Toda a energia erudita foi direcionada ao rock. Meu treinamento foi disciplinado ao piano e órgão, depois cravo e sintetizadores analógicos. Guitarra, violão, flauta, percussão e bateria também são instrumentos que executo. Mas o piano é o principal. Aliás, quando estava com o Spectro em 1970 nem conhecia ainda o EL&P.Os LPs chegavam atrasados no Brasil. Não havia Internet.Eu ouvi o primeiro LP (da pomba) e achei o som deles parecido com o nosso (Spectro). Nós já fazíamos um som daquele estilo sem nunca ter ouvido EL&P. Mas como somos brasileiros, somos sempre a “cópia” e subestimados.

― Obra

Meus compositores no erudito prediletos são Mozart, Vivaldi, Lully, Bach, os russos (Grupo dos 5), Beethoven, Wagner, Liszt, Rachmaninoff, entre outros. Na ópera que amo, são Monteverdi e Pucinni.

― Metodologia

Muito treino, principalmente entre meus 12 e 40 anos. Focado na técnica de piano e arranjos atmosféricos, e muito, no conceitual, de como impressionar as pessoas e falar com elas através da música. As letras são um processo de compensação, mas a música está em primeiro plano. Minha técnica hoje é calcada entre o minimalismo de Glass, o serial de Schoemberg, o medieval,a renascença de Lully, e o eletrônico de Stockhausen.

― Perspectivas Artísticas

Vamos dizer que já morreram… Num passado em que eu acreditava nas pessoas e na arte que elas poderiam apreciar. Perdi a perspectiva em vista da alienação das massas, do veículo de comunicação atrofiado e decadente, e do mau gosto da maioria dos seres humanos.

― Conceito Geral da Obra

Ela é complexa, não é para muitos, é para poucas almas e cabeças, poucos ouvidos, já que a massa nunca vai absorver qualidade, mas os indivíduos sim. Minha preocupação sempre foi com a elevação do ser humano pela arte, pela cultura e pela música em especial. Ela vai direto ao coração, quando existe um e há interesse!

― Morte

Meu tema principal, talvez o Leitmotiv de toda minha obra. Um portal, um ser, um anjo ceifador, que separa as qualidades da matéria e do espírito quando a vida biológica cessa. Uma ponte de acesso para poucos a outras formas de existência. Para a maioria, o fim totalitário e niilista.

― Legado

Os CDS, os LPs, esta biografia, alguns livros. Para poucos. Mas paguei minha estadia a Mãe Terra por estar aqui comendo e bebendo de seus frutos de graça. Tinha que deixar algo. E fiz o que sabia fazer: música!

― Mestres

Bem, na música são muitos! Mas eu citaria Bach, Mozart, Mussorgsky e Lully em especial. Na vida oculta Osho, Aleister Crowley, Samael Aun Weor, Prabhupada, Yogananda, e escritores que muito me influenciaram como Giovani Papinni, Lovecraft, Poe, Blake, Borges, Swendemborg, Dante e Milton.

― Von Bathel

Minha bisavó austríaca da Família Bathory Batel. Bathel. Descendência da Condessa Bathory. Ganhei os títulos de Conde por hereditariedade da família de minha outra avó por parte de mãe (Grissanti ) e da Bathel. Como sabem, são títulos militares que só valiam na monarquia… Incrível é que ambas avós eram pobres, exceto a Condessa Bathory ancestral de uma delas!

― Filosofia Ateísta X Esoterismo

Não sou ateísta, sou agnóstico…não tenho religião, apesar de ter uma tendência de 90% ao vedantismo, ao zen budismo e ao budismo tibetano. Sou um Iniciado de Grau 10 na Ordo Templi Draconis (similar a Ordem do Dragão Templária do século XIII e da Dragon Rouge na Itália). Conhecimento profundo de magia e ocultismo teórico e prático por vocação kármica.

― Síntese do Pensamento

Eu acredito que algo só possa existir e continuar existindo se tiver um conteúdo compatível com a estrutura do Universo. O ser deve carregar sua alma com conhecimento, e após a morte física, seguir para outros planos de existência decorrentes de sua evolução ou involução. Acredito que Deus Ex-Maquina (que algo fez o Universo e se retirou deixando a máquina funcionando). Acredito que só o livre arbítrio e a independência da consciência totalitária, sem escravagismo ou preconceitos, possa ser a única solução para a humanidade sair do grau de primata que se encontra. Compreender e respeitar a natureza fora e em si própria… Livre. Sentir… Desejar. Fazer o que quiser. Mas antes de soltar os leões e abrir as jaulas, domesticá-los… Senão devorarão os demais!

― Drogas

Meu contato profundo com plantas durante 10 anos (entre 1970 e 1980) foi maravilhoso, sem apologias a drogas. Canabis, haxixe, peyote e strofaria cubensis (cogumelo de zebu) ingeri muito. Um pouco de LSD e álcool também. Mas minha mente e coração regiam meu foco…Por isto minhas viagens sempre foram lindas… Com raras exceções. Hoje estou distante delas. A música me completa totalmente.

― Reconhecimento… Fama?

Tive grandes momentos, grandes emoções… E muito sofrimento também e decepções. Fama… Acredito que consegui jogar minha música para o mundo todo, mas num circuito mínimo, cult, underground. Dinheiro foi o suficiente para sobreviver e realizar as obras! Então agradeço a música e a meus dedos ainda estarem funcionando bem!

― Maior Tristeza

Talvez a única foi não ter conseguido uma única vez tocar junto com uma Orquestra Sinfônica! Apesar de eu ter tentado agressivamente de tudo para isto… preconceitos e preconceito.

― Visão do Mundo

Por um lado, belo, misterioso, profundo… e violento. Um ser devorando outro ser. Um planeta onde tudo se alimenta de todos. Não muito elevado. Belo, mas perigoso. O ser humano ainda poderia dar um grande salto. mas não dá. Infelizmente.

― Amyr em uma frase

Uma sombra de um passado remoto, vivendo de restos de luz.

Entrevista feita por email em 02/11/2013. Atualmente (2024) Amyr não é mais Assessor da Prefeitura de Campinas, mas almeja uma candidatura à Vereador nas eleições deste ano.

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e co-fundador da Editora Poetura. Um Livre Pensador.
Contato: (16) 99248-0091

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amyr
13/02/2024 16:36

Magnifico …resgate do Livro Biografia né???Muito grato man!!!!!!!!!!!!

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