Lizzy Borden (Foto: Barata)

A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe: A Gata, o Escritor e o Homem Que Desenha Palavras

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Barata Cichetto

Estou na quarta ou quinta tentativa de escrever uma resenha sobre um livro, que nunca está suficientemente boa. E quando digo “boa”, não é por parâmetros literários, forma ou conteúdo, mas sim, porque minhas tentativas anteriores foram apagadas por eu não as considerar à altura do resenhado. Não que eu pretenda que minha resenha seja melhor que o material resenhado, mas porque uma obra de porte gigantesco merece um texto à sua altura. Assim, começo a prosar sobre “A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe”, cujos autores são dois gigantes pela própria natureza, de verdade: Rubens Francisco Lucchetti e Eduardo Schloesser.

R. F. Lucchetti como é conhecido é um dos chamados monstros sagrados da cultura pop brasileira, ficcionista, desenhista, articulista e roteirista de filmes, histórias em quadrinhos e fotonovelas, considerado o “Papa da Pulp fiction” no Brasil. Nascido em 29 de Janeiro de 1930, portanto com 94 anos. Lucchetti ainda está ativo e continua aprontando suas artes. Um pequeno resumo de sua atuação, segundo a Wikipedia:

“Começou a publicar histórias aos doze anos, na década de 1940, seu primeiro texto publicado foi “A Única Testemunha”, escrito sob a influência e o impacto da leitura dos contos “O Gato Preto” e “O Coração Revelador”, de Edgar Allan Poe. Na maioria das vezes, assinava com pseudônimos (sugeridos quase sempre pelos próprios editores, que não acreditavam num nome latino assinando histórias de Mistério e Horror) ou heterônimos, como Theodore Field, Terence Gray, Mary Shelby, Peter L. Brady, Christine Gray, R. Bava, Isadora Highsmith, Helen Barton, Frank Luke, Brian Stockler e Vincent Lugosi. Escreveu e publicou ao todo 1.547 livros, trezentas histórias em quadrinhos, 25 roteiros de filme e centenas de programas de rádio e televisão e inúmeros contos para revistas pulp. Para a editora carioca Cedibra (Companhia Editora Brasileira), que pertencia à espanhola Bruguera, produziu novelas de bolso de Horror e de Detetive & Mistério, além de traduzir autores estrangeiros. Criou dois reality shows (A Mansão dos 13 Condenados e Jogo das Palavras) e escreveu duas peças de teatro. Um de seus livros, Noite Diabólica, publicado em 1963, é considerado ‘o primeiro livro de Terror escrito no Brasil’.”

Bem, mas vamos lá, falar sobre o objeto desta resenha — chego a tremer só em pensar sobre a responsabilidade que tenho em falar sobre esse livro, mas certo, vamos em frente — Fiquei sabendo de “A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe” por intermédio do amigo Celso Moraes, de Goiás, que entre outras coisas é desenhista e profundo admirador da obra de Poe. Sua afirmação: “é a melhor adaptação para quadrinhos da vida de Poe, e não digo somente brasileira, mas inclui os gringos também”. Claro que fiquei curioso, mas os afazeres diários me desviaram do assunto. Mas apenas por umas duas semanas. Como Celso me falara muito de um desenhista que ele admirava, tanto na arte do desenho como pessoa, decidi procurar “Eduardo Schloesser” no Facebook. Encontrei e adicionei e logo me apareceu uma postagem dele com um texto. Fui conferir e, apesar do ótimo texto indicado o que me chamou a atenção foi uma pequena imagem da tal HQ que o Celso tinha comentado. No mesmo momento fui à caça na Internet e encontrei no site Acaso Cultural. Como lá não tem muitas informações sobre o livro, acreditei tratar-se de um volume fino, brochura e tal. Nada demais como publicação. Comprei.

Cerca de dez dias depois, recebo a encomenda, e de imediato me assustei, no bom sentido. Ao abrir o pacote, vi que se tratava de um volume grande, com capa dura e tudo. Impressão em papel couchê e um acabamento de primeira. São 180 páginas, sendo 160 de quadrinhos e 20 de textos de apoio, que incluem um prefácio por Edson Negromonte, outro artista fantástico, muito ligado ao universo de Poe no Brasil. Além disso, há biografias dos autores por Matheus Garcia e um posfácio de Schloesser, onde ele conta em detalhes seu processo de criação. Essas foram as primeiras impressões e detalhes que notei antes de propriamente começar a folhear o volume.

Comecei pelo final, lendo o tal posfácio do Eduardo, onde ele conta a saga que foi o trabalho, com as dificuldades de toda sorte, e o longo tempo que demorou para ser concluído. Meus olhos e minhas mãos precisavam se preparar para o que eu iria encontrar no conteúdo propriamente dito. Assim, fui indo aos poucos, porque algo me dizia que eu teria muitas boas surpresas pela frente. Só não imaginava que seriam tantas, tão positivas e emocionantes. Claro que o comentário do Celso Moraes batia na minha cabeça toda hora, e assim, demorei uns dois dias para ter coragem de começar a ter contato com a história em si. A última página traz a informação que o livro demorou seis anos para ser concluído, e que foram feitas 1.000 cópias. Seis anos. Logo eu entenderia o porquê.

Um parêntese necessário é sobre minha relação com Edgar Allan Poe: conheci o escritor de Baltimore ainda na adolescência nos anos 1970, numa de minhas idas à Biblioteca Pública no bairro da Penha em São Paulo. Era um volume de contos, com uma capa detonada pelo tempo. Tomei um susto, com a qualidade da escrita e o teor das histórias, coisas que eu nunca tinha lido, acostumado aos clássicos até então. Algum tempo depois comprei uma edição desses contos pelo Círculo do Livro, com o nome de “Histórias Extraordinárias”. Depois vieram outros títulos e com o advento da Internet, passei a ler muito mais sobre Poe. Cheguei a catalogar 50 traduções e versões de “The Raven” para um site que tinha, ainda no final do século 20. Em 2013 escrevi um conto chamado “O Gato Branco” que era uma espécie de continuação, sobre o que poderia ter acontecido após “O Gato Preto”. Finalmente, há uns oito anos, escrevi um poema longuíssimo chamado “Nevermore, Um Gato Chamado Nunca Mais”, onde havia além de uma mescla de “O Corvo” com “O Gato Preto”, várias citações à biografia de EAP.

Então… Feita essa relação de paixão pela obra de Poe, aliada à pelos quadrinhos, como eu poderia não ter conhecido essa obra? Aquela coisa bem piegas, mas nesse caso eficaz de “como eu pude viver até hoje sem conhecer esse livro?”. Assim cheguei às páginas desenhadas pelo Eduardo Schloesser. (Enquanto escrevo isso, abri o livro sobre a cama ao meu lado para ir pontuando a narração, e eis que Lizzy Borden, minha filha-gata, se deita sobre o livro e não me deixa mexer.)

Logo na abertura, uma arte que imita a primeira página de um jornal (“Richmond Enquirer”), com a nota de falecimento da mãe de Poe, o primeiro choque com a arte de Schloesser: o casal e outra mulher sentados numa sala conversando. São tantos detalhes finos e precisos na cena (a vela, a toalha sobre a mesa, quadros, cortina…) que fiquei creio que mais de uma hora só observando e procurando mais. Então decidi por agir diferente do que seria o normal: fui folheando vagarosamente as páginas desenhadas sem ler o texto. Feito uma criança que ainda não sabe ler, e só compreende a linguagem visual e se impressiona com cada detalhe, cada nuance, cada tom e sombra. Poucas páginas depois outra surpresa, com um quadro desenhado como se fosse uma visão fotográfica em “grande angular”, que acredito ser muito difícil de ser feita.

Seguindo, há o detalhe da Igreja Presbiteriana de Richmond, onde o grafite do Eduardo dá tons incríveis de luz e sombra; aí vem a primeira aparição da imagem de Poe, absolutamente perfeita. (No Posfácio ele comenta que muitos dos personagens ele não tinha fotos nem nada para se basear, e criou os desenhou por sua própria intuição).

Assim fui indo, maravilhado a cada quadro, a cada página, com os detalhes de cada cena, as expressões das pessoas, buscando, como num “Jogo dos Sete Erros”, que aqui é na verdade o Jogo dos Sete (ou setenta) acertos. Mesmo sem ler, eu demorava uns dez minutos em cada página, e assim se passou cerca de uma semana para concluir.

Algumas páginas são verdadeiras obras-primas, pinturas absolutamente perfeitas, quase que como retratos, desenhos à mão e grafite. Dá vontade de a gente recortar e emoldurar para colocar na sala de casa. Por exemplo, na página 113, uma cena noturna, na rua, em frente a uma Taberna (“Black Cat”), alguns homens e um casal, na chuva: a perfeição nos detalhes é impressionante. Logo depois, uma das que mais me impressionou: Edgar Allan Poe medita sobre a reputação de “O Corvo” e sobre a espécie de maldição que o acometeu por isso. A parede de tijolos ao fundo, o corvo sobre uma caixa de madeira e a imagem de um Poe desesperado como que projetada dentro da sombra da ave. De arrepiar.

Claro que não ficarei aqui, tentando descrever com palavras (“desenhar palavras”, como o próprio Eduardo sabiamente define a escrita), mas preciso comentar sobre a última página, onde é mostrado o Poeta/Escritor morto numa cama e uma frase: “O mundo ainda vai ouvir falar muito desse homem, Nancy. Ele chamava-se Edgar Allan Poe”.

Ah, sim. Depois de vários dias, como disse acima, retomei o livro para, enfim, ler a história escrita pelo Lucchetti, com seu estilo peculiar e lúdico, que já empreendeu mais de 1.500 títulos ao longo de sua vida literária genial. Aliás, vale a pena citar aqui um trecho do prefácio do Negromonte, onde ele faz um paralelo entre as vidas de Lucchetti e Poe: “A genialidade de Lucchetti teria de enfrentar, durante quase toda a vida, assim como Poe, a desonestidade e a pequenez dos editores locais, que enriqueciam às suas custas”. E termina citando que, pela publicação de “O Corvo”, o poema mais lido de toda a história da literatura, Poe recebeu apenas dez dólares. Aliás, ao que sei, também essa maravilhosa, genial publicação, feita pela Editora Sebo Clepsidra em 2018, não rendeu o que obviamente merecia, em termos de reconhecimento e faturamento, a ponto de fazer justiça ao tempo enorme e investimento dispendidos pelos autores, especialmente por Schloesser e seu rico e impressionante trabalho gráfico.

Enfim, “A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe“, de R.F. Lucchetti e Eduardo Schloesser merecia muita glória, dinheiro e tudo de bom que se pode almejar de uma obra-prima, mas que, infelizmente os gênios, os talentos verdadeiros parecem não ter direito. Especialmente nesta época de voracidade, pressa e imediatismo, onde sentar e apreciar, observar e sentir um trabalho da magnitude desse livro está fora de questão. As pessoas preferem vídeos do Tik Tok, Reels do Facebook etc. Ah, mas deixa… Não me importa o que outros façam: a mim esse livro estará sempre à mão, na minha cabeceira e guardado pela minha guardiã, filha felina que tomou conta do livro enquanto eu escrevia este texto, que tinha a pretensão de ser uma resenha, mas se tornou apenas um depoimento honesto e simples de como uma obra de arte pode impactar a existência de uma pessoa.

Obrigado, Mestre Lucchetti, obrigado Mestre Schloesser, e especialmente, obrigado Mestre Edgar Allan Poe. Ah, e claro, obrigado Mestre Celso Moraes por me falar sobre “A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe“.

E termino agora. Eu, apenas um pequeno aprendiz de escritor, dotado de uma pena invisível, que “desenha palavras” em telas de computador, e marcado com a mesma maldição, de jamais ser reconhecido.

Mas, quem sou eu, mesmo?

15/03/2024

“A Vida e os Amores de Edgar Allan Poe”
R.F. Luchetti e Eduardo Schloesser
Prefácio Edson Negromonte
2018, 180 Páginas
Editora Sebo Clepsidra
Comprar:
https://acasocultural.com.br/produtos/a-vida-e-os-amores-de-edgar-allan-poe/

Resenha do Canal “Hoje é Dia”, Sobre o Livro e Mais:

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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Olavo Villa Couto
Olavo Villa Couto
19/04/2024 17:50

É impressionantes como quase duzentos anos pós sua morte, Edgar Allan Poe ainda desperta tanta coisa no mundo. Existem centenas, talvez milhares, de músicas, livros, pinturas, desenhos, óperas… Mas uma coisa eu digo: comprei esse livro há uns três anos ou mais e, fiquei pasmo com a qualidade especialmente da arte gráfica do Eduardo. O homem vai nas minúcias dos detalhes, como bem observou o autor do texto. Um artista desses deveria estar rico, se acá neste país de miseráveis culturais houvesse mais valor aos verdadeiros artistas. Parabéns ao autor pela matéria, e ao desenhista.

Celso Moraes F
Celso Moraes F
15/03/2024 20:32

Poucas coisas são mais belas em se tratando de arte do que uma declaração de um fã fascinado por uma obra! Ótimo texto, transmite bem essa sensação.

Vinnie Blues
Vinnie Blues
15/03/2024 18:00

Poxa, demais a matéria e seus detalhes. Sou fan do Poe e tenho umas versões de O Corvo. Uma delas bem rara. Quando puder vou adquirir o livro indicado. Grato Barata !

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