A Vida e a Morte

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Walter Possibom


Ah a vida!
Como ela é estranha às vezes.
E a morte?
Ela também tem assuas múltiplas faces, e muitas delas nos afetam sobremaneira.
Tem gente que nem pode ouvir falar sobre isso.
Mas ela é a única certeza que temos nesta vida.
Eu me lembro do primeiro dia em que fui a aula de Anatomia Humana, me lembro do temor de me defrontar com um cadáver, eu nunca tinha chegado tão perto de um antes, e ainda por cima eu iria tocá-lo, cortá-lo e conviver com ele por vários meses.
Aquele dia não foi fácil para mim, mas eu logo superei, mesmo porque eu não tinha alternativa.
Aquele foi o primeiro dia de minha vida que me confrontei com a morte, embora o corpo que ali estava já tivesse partido há muito tempo.
Mas, e o meu confronto com a morte?
E os momentos em que lutei contra ela?
Durante todo o curso de medicina eu me confrontei com a morte incontáveis vezes, assim como todos os meus colegas, nós perdemos em vários desses confrontos, mas vencemos em outros.
Na minha vida profissional a coisa não foi diferente, como seria de esperar, quantos diagnósticos que eu fiz e que me estremeceram, pois não havia nada a fazer, quantas noites eu fiquei acordado vendo o rosto dessas pessoas que em breve nos deixariam.
Eu me lembro da primeira vez em que me confrontei com a morte de forma direta, eu estava estagiando quando um paciente que estava sob minha responsabilidade teve, subitamente, uma parada cardiorrespiratória a qual não conseguimos reverter. Ainda me lembro de como fiquei chocado ao ver aquele que, depois de tantas visitas, era mais um amigo do que um paciente, morto numa maca.
E me recordo quando o residente me disse:
– Cubra o cadáver com um lençol, pegue o prontuário médico dele e o leve à Patologia.
Eu estudei num hospital universitário e fazíamos as necropsias ali mesmo.
Lá fui eu, caminhando vagarosamente pelo corredor do hospital, eu me sentia sozinho naquele momento, por sobre a maca havia o corpo daquele meu amigo, inda quente, e eu o estava conduzindo à patologia.
Entrei com o carrinho na sala de patologia, deixei ele ao lado da mesa de necropsia ao centro da sala, de um lado dela, de costas para mim, estava uma patologista que lavava as suas mãos.
Procurei fazer o mínimo de ruído para não ser notado, coloquei o prontuário médico sobre uma pequena mesa e me preparei para sair de fininho, eu queria muito sair dali rapidamente, o medo que me assombrava era imenso.

De repente a mulher se vira, olha para mim e pergunta:
– Você é o interno?
Eu parei minha caminhada, o medo aumentou em mim, me recordo da taquicardia que tive e do medo do que ela tinha para me falar, então olhei hesitante para ela com um medo colossal e respondi claudicante:
– Sim.
Ela então apontou para um lugar onde havia alguns aventais pendurados e me disse:
– Pega um daqueles aventais.
– Eu estou sozinha e você irá me ajudar na Necropsia do cadáver.
Meu corpo todo estremeceu, eu fiquei paralisado, depois de alguns segundos obedeci à ordem dela, e nos vários minutos seguintes eu a ajudei no trabalho necroscópico.
O corpo ainda estava quente, aos cortes o sangue escorria, e eu ficava cada vez mais impressionado com aquilo, eu ainda não estava preparado para viver aquela situação. Eu era apenas um jovem estudante de medicina.
Sai dali e nem voltei à enfermaria, meu plantão havia se encerrado, fui direto para a república e chorei por algumas horas, aos poucos as imagens daquele corpo sendo cortado foram saindo de minha mente.
Mas uma coisa me deixava perplexo: eu conhecia bem aquele paciente, eu o visitava todos os dias, nós conversávamos, eu fazia os seus curativos, mas aquele corpo que eu levei para a Patologia era diferente daquele que eu conheci antes.
Inexplicavelmente diferente.
Ele era “apagado”. Sim apagado, não tenho outra descrição para fazer daquele corpo.
Era nítido que aquele corpo não tinha vida, estranho não?
De uma hora para outra, quando deixou de ter vida, aquele corpo se modificou.
Em todos os casos futuros identifiquei a mesma transformação em todos.
Ao final da faculdade eu já estava com vários mecanismos de proteção contra as sensações advindas desses acontecimentos.
Era uma questão de sobrevivência para mim, embora em algumas situações específicas os meus mecanismos foram inúteis e eu sofri muito.
Eu me lembro de um caso em que descobri um tumor de fígado numa pessoa de uma bondade imensa, quando peguei os exames em mãos, à princípio não quis acreditar que fosse verdade, mas aos poucos a realidade me convenceu daquilo.
Eu me recordo quando disse isso a ele, da melhor forma que eu pude, e me recordo de que ele abriu um sorriso e me disse:
– Tudo bem doutor, o que faremos agora?
Eu tentei ser o mais positivo possível, e ao final ele me disse:
– Agradeço muito por ter descoberto minha doença.
– Vamos seguir o destino que Deus nos preparou.
Eu fiquei vários dias muito mal com tudo isso. O paciente se foi dois meses após termos tido essa conversa.

Ao contrário do que pensa o público leigo, o médico sente sim a morte do paciente, ele apenas se reveste de uma carapaça para não mostrar o quanto ele está chorando por dentro por ter sido derrotado pela morte e perder uma vida.
O médico, acima de tudo, ama a vida.
O médico é quem mais sente a morte de seu paciente, pois às suas mãos é que lhe foram entregues a missão da luta contra a morte.
Ele assume esse papel e essa responsabilidade. E queremos sair vencedores em todas essas lutas.
Muitos colegas não suportam esse peso e eles acabam decidindo terminar com a sua própria vida, os índices de suicídio na classe médica vêm aumentando significativamente.
O médico é um ser humano como outro qualquer, ele definitivamente não é um Deus.
E quanto à morte?
Uma consideração que às vezes me vem à mente é, muitas vezes, a extinção completa dos traços materiais de nossa breve existência em nosso lindo planeta.
Senão vejamos:
Imaginem uma pessoa que morre e é cremada, por mais obvio que isso possa ser desse momento em diante nós destruímos todo o nosso corpo material, não deixando nada para provar que realmente um dia nós estivemos aqui.
Lembrem-se de que ainda somos muito materialistas.
Nós até podemos deixar fotos, vídeos, gravações de voz, mas materialmente deixamos de existir, não há nada mais que prove que aqui estivemos um dia.
Nós acabamos deixando apenas provas abstratas e imateriais, principalmente na mente e na memória das pessoas as quais nos relacionamos, as quais vão se perdendo com o passar do tempo.
Tente se recordar dos traços fisionômicos e da voz de entes queridos que se foram há muito tempo … eles vão se perdendo no tempo.
Eu acho isso estranho, às vezes, em que pese a minha visão espiritualista da vida.
Nossa alma vai para outro nível, como serão os nossos sentimentos em relação às pessoas que ficam?
Isso me faz ter a certeza de que temos que manter ótimas relações com todos os que nos cercam, nós devemos deixar boas impressões com essas pessoas, para que sejamos lembrados com amor, saudades e carinho, e para isso devemos ser carinhosos, amorosos, atenciosos e caridosos com todos que nos cercam.
A vida é linda, mas a relação entre nós é algo divino.
Cuide de você e de todos que você ama e que te amam enquanto está vivo.
Depois, não haverá mais rastros, nem dessas pessoas, nem de você, neste lindo planeta azul.

Do Livro:
Crônicas de Uma Alma Perplexa

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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